A comunidade lusófona e a resposta à Covid-19 - Plataforma Media

A comunidade lusófona e a resposta à Covid-19

Os Deputados do PS, no âmbito da Comissão dos Negócios Estrangeiros e Comunidade Portuguesa, da Assembleia da República Portuguesa, têm demonstrado grande preocupação com a situação pandémica provocada pela Covid-19 e a forma como está a afetar o mundo, Portugal e a diáspora portuguesa que vive na África do Sul, Venezuela, Austrália, Canadá, Estados Unidos da América, China, entre outros países com grande presença portuguesa. Entretanto, há que se destacar a grave crise que atravessa o maior país de expressão lusófona, onde se encontra a maior comunidade de portugueses e lusodescendentes a residir fora da Europa: o Brasil.     

No início de fevereiro de 2020 os sinais eram muito claros de que a humanidade atravessaria uma crise pandémica, causada pela Covid-19, com proporções gigantescas, porquanto, diante destes sinais, muitos países se prepararam adotando medidas preventivas de confinamento, utilização de equipamentos de proteção, entre outras ações concretas no combate à Covid -19. Entretanto, no Brasil, devido à desvalorização do problema – e por não haver um sincronismo político entre o governo federal e os governos estaduais -, tardaram as medidas de prevenção e mitigação no combate à Covid-19, sendo hoje o segundo país com os piores números de casos no mundo, com cerca de 30 mil mortes e próximo dos 500 mil infetados, apenas perdendo a primeira posição para os Estados Unidos da América.

A complexidade dos diversos estados e regiões do Brasil, país de dimensões continentais, remete-nos a perceber melhor as suas especificidades e tratá-las de forma diferenciada, senão vejamos.

A primeira cidade a entrar em colapso foi Manaus, por ter uma estrutura sanitária e um sistema de saúde caótico. No caso do Mato Grosso do Sul, que é o estado com os melhores números, houve investimentos para aumentar a capacidade do sistema de saúde, o que acabou por propiciar uma resposta muito favorável.

No Rio de Janeiro, com uma população de 17.2 milhões de habitantes – e onde se encontra a segunda maior comunidade portuguesa do Brasil -, os números são trágicos, com mais de 5 mil mortos e 50 mil infetados. 

O Estado de São Paulo, que tem uma população de cerca de 46 milhões de habitantes, onde reside a maior comunidade portuguesa do Brasil, tem mais de 100 mil casos confirmados e cerca de 7.500 óbitos – governado por João Dória -, um dos opositores do governo Bolsonaro, optou por adotar medidas de confinamento. Entretanto, a divergência com o governo federal saiu do plano sanitário e partiu para o plano político, gerando ações descoordenadas, por conta da ausência de sincronismo entre o governo estadual e o federal.

No País, as condições sócio-económicas são muito diversificadas, sendo agravado o efeito do quadro pandémico nas populações de baixa renda, onde a economia informal prevalece, o que nos remete à reflexão sobre as opções de subsistência destes indivíduos quando submetidos às medidas de confinamento, sem entrar no mérito da efetividade destas.        

Nos últimos meses, foram trocados vários Ministros, dentre os quais o ministro da Justiça, Sérgio Moro, juiz da operação Lava Jato, tendo sua demissão motivada pelo facto de ter se insurgido a uma suposta tentativa de interferência de Bolsonaro na Superintendência da Polícia Federal. Outro ministro atingido foi Luiz Henrique Mandeta, da pasta da Saúde, no auge da crise pandémica, por ter sido desautorizado diversas vezes pelo presidente, que tinha ideias contrárias ao confinamento e às medidas preventivas à Covid-19, além de seu sucessor, o ministro Nelson Teich (gestão de 17 de abril a 15 de maio), por ter divergências com Bolsonaro, no que se refere ao protocolo da utilização do medicamento Cloroquina. Por fim, foi nomeado um militar como ministro interino da Saúde, o general Eduardo Pazuello.

Estes fatores colaboraram para colocaram o governo Bolsonaro no epicentro de uma crise social, política e económica sem precedentes, com um governo dividido internamente. Nem mesmo um inimigo comum, a Covid-19, pôde favorecer uma ação uníssona e promover uma união nacional.

No meio deste caos está o povo brasileiro e a comunidade portuguesa que lá reside, os quais não sabem para onde caminhar, se para um confinamento preventivo, agora mais do que tardio, ou acreditar em seus governantes, os quais até o presente momento não têm conseguido gerir esta terrível crise ou, minimamente, promover a união de todos pelo bem maior, a vida.

*Deputado do Grupo Parlamentar do Partido Socialista na Assembleia da República Portuguesa (Membro da Comissão dos Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas)

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