Quando começa uma batalha, o primeiro derrotado é o plano de batalha. Este aforismo muitas vezes empregue por quem estuda a natureza da guerra traduz a realidade fluida e imprevisível de uma batalha… em que nem tudo decorre como previsto.
Um aforismo que encontra particular atualidade na Guiné-Bissau, cuja presente crise política é apenas a mais recente num longo ciclo de conflitos (alguns de contornos sangrentos) que têm marcado a vida deste país lusófono da África Ocidental e bloqueado o seu desenvolvimento.
Para se ter uma ideia do modo como a violência e instabilidade têm marcado as últimas décadas da Guiné-Bissau refira-se que o país tem um PIB/per capita na ordem dos 700 dólares, um dos mais baixos no mundo.
A esperança média de vida na Guiné-Bissau é 57,6 anos. A de Angola, com uma guerra civil de mais de duas décadas e uma paz de quase 20 anos, é de 62 anos. No Afeganistão e no Iraque, países onde persistem conflitos armados de longa duração e instabilidade recorrente, a esperança média de vida é, respetivamente, de 64 anos e de 70 anos.
A presente crise, em torno da eleição de Umaro Sissoco Embalò, não se tem revestido dos níveis de violência do passado, mas a tensão e os alinhamentos de anteriores crises continuam a manifestar-se.
Basta ver quem esteve presente na “investidura” de Sissoco Embalò (chefias militares e António Indjai…), como a questão está a criar linhas de fratura na principal organização regional, a CEDEAO, e trouxe da penumbra para primeiro plano o cenário de clivagens étnicas e religiosas.
Haverá sempre quem possa viajar na região (e de preferência até à Europa e aos EUA) para tratamentos de saúde e compras, e organizar uma retaguarda segura para si e para a família fora da Guiné-Bissau. Mas a cada ano que passa os indicadores estão aí a demonstrar que, entre vitórias transitórias de círculos de interesses, o país continua imóvel, refém de conflitos e estratégias em que os planos de batalha só produziram atraso, pobreza e falta de desenvolvimento.