Psicologia em tempo de isolamento - Plataforma Media

Psicologia em tempo de isolamento

Ao longo de março, com a pandemia causada pelo surto de covid-19 centrada na Europa e nos Estados Unidos, estudantes de Macau espalhados pelo mundo começaram a regressar ao território. Por determinação do Governo como medida para prevenir a contenção da doença, ao entrarem na cidade os alunos tinham de passar por um período de 14 dias de quarentena, em local previamente definido pelas autoridades. Um especialista em psicologia ouvido pelo PLATAFORMA entende que esse tempo deve ser aproveitado para experimentar coisas novas e organizar a vida pessoal. Quem passou pelo isolamento afirma que passou rápido. 

Lao Chan Fong, Diretor de Psicologia no Centro de Psicoterapia da Associação Geral das Mulheres de Macau, entende que o fardo psicológico que recai sobre os estudantes que regressaram a Macau não está limitado aos 14 dias. No início do ano, quando eclodiu a doença estavam a estudar no exterior e alguns foram alvo de olhares pouco amigáveis. Depois, além das dificuldades para conseguirem um bilhete de volta para casa, foram recebidos com críticas nas redes sociais e “informação de controlo e prevenção da epidemia um pouco confusa”. Reconhece que estes problemas todos juntos podem ter alguma influência no estado psicológico dos alunos. 

MANTER UMA ROTINA
Durante o isolamento, todas as pessoas estão proibidas de sair dos espaços onde estão confinados. Lao Chan Fong lembra que alguns dos hotéis mobilizados para a assegurar a quarentena escreveram nos quartos mensagens de agradecimento aos isolados, ajudando a criar um estado psicológico mais saudável. Estas pessoas não podem sair do quarto e interagir com outras ou com a natureza, sendo por isso, por vezes, impossível aliviar o stress a que estão sujeitas. Para Lao Chan Fong quem está isolado deve centrar-se, por exemplo, na visualização de séries ou vídeos de desporto online, sendo essencial manter uma rotina para preservar o conceito de tempo e não deixar que este o afete ao nível psicológico. E deixa o conselho: “Podem experimentar coisas que nunca tiveram tempo de experimentar antes.” 

Lao alerta ainda para as dificuldades que estes estudantes podem enfrentar, defendendo que não têm de lidar com esta situação sozinhos. “Não precisam de sofrer sozinhos, não há necessidade”, diz, lembrando que partilhar sentimentos com alguém oferece uma sensação de compreensão e conforto. Os alunos que regressam a Macau devem também ter consciência da importância do isolamento: “Alguns pensam que o isolamento é como uma prisão, mas não é verdade. É algo necessário para o bem de toda a cidade. Lembrem-se que estão a fazer isto pelo bem da vossa família e de toda a comunidade”, lembra. 

RECEIOS DE PREOCUPAR A FAMÍLIA
O PLATAFORMA falou também com um dos estudantes que cumpriu a quarentena de 14 dias num hotel, após o regresso de Portugal. Viajou a 17 de março num voo de Lisboa para Hong Kong, chegando ao território através da Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau. Só quando estava a fazer a viagem de ligação através de autocarro informou os pais que estava de regresso à cidade. E justificou: “queria evitar que ficassem preocupados”. 

Lao Chan Fong entende a preocupação manifestada pelo estudante ao não querer alarmar a família. “Os pais ficam preocupados por verem os filhos passar sozinhos por uma fase de incerteza como esta, mas têm de entender que estes são capazes de muito, apenas ainda não tinham tido oportunidade de o demonstrar”, diz. E argumenta: “São jovens, mas já adultos e têm o hotel e outros apoios durante o isolamento. Se foram capazes de tomar conta deles quando foram estudar para o exterior, com certeza conseguem fazer o mesmo agora”. 

Para este especialista, os pais devem tratar os filhos da mesma forma que tratam outros adultos e controlar as emoções, mantendo-se corretamente informados em relação à pandemia. 

Já o jovem assegura que se “sentiu aliviado” quando chegou à cidade. 

“Aqui em Macau, mesmo que tenha o azar de ficar infetado com o novo coronavírus sei que existe uma equipa médica para me tratar”, uma certeza que diz não ter sentido quando estava em Portugal. E lembra que segundo os dados da primeira onda do surto em Macau (entre a última semana de janeiro e a primeira de fevereiro), todos os 10 pacientes ficaram curados e receberam alta hospitalar, o que o deixa confiante no sistema de saúde da cidade. 

“Prefiro passar 14 dias de quarentena e depois sair ´limpo´ e provar que não estou infetado, reduzindo as críticas do resto da sociedade”, defende. Para este jovem estudante, estes 14 dias passaram rápido. E explica: “Na verdade não pensei bem em como iria passar esses 14 dias. Fui passando o tempo a comer e a dormir. Mal acordava, comia. Metade dos dias passei-os a dormir. O resto do tempo foi gasto a ver televisão e a navegar na Internet. Por isso passou rápido”. O estudante descartou igualmente ter sentido qualquer sentimento menos positivo, a partir das críticas apontadas nas redes sociais aos alunos que regressaram ao território. “Não notei e não ligo nada a isso”, conclui. 

JOHNSON CHAO 17.04.2020

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