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Epidemia melhora imagem do Governo

A nova governação de Macau pode ser vista como tendo um estilo “mais autoritário”, mas onde se notam melhorias em “termos de transparência e comunicação”. A crise de saúde pública desencadeada pelo surto epidémico de Covid-19 ajudou Ho Iat Seng a firmar capacidades inequívocas de liderança e a recuperar a imagem do Governo, desgastada pela resposta periclitante, em Agosto de 2017, à passagem do tufão Hato. A actuação do novo Executivo arranca, para já, aplausos, mas os deputados Pereira Coutinho e Sulu Sou lembram que o mais difícil está para vir: relançar a economia quando o novo coronavírus der tréguas.

“Para lhe ser sincero, o Governo melhorou, tanto em termos de transparência, como no que diz respeito à comunicação com a população e com a Assembleia Legislativa”. O veredicto chega pela voz de Sulu Sou. O deputado, único representante da principal plataforma pró-democracia de Macau na Assembleia Legislativa, considera que a forma como o Governo respondeu ao surto epidémico do novo coronavírus elevou o Chefe do Executivo ao estatuto de líder quase providencial, em óbvio contraste com o que o mais jovem membro do actual hemiciclo diz ser a inércia do antecessor no cargo: “Sabe por que razão as pessoas respeitam o novo Chefe do Executivo? Porque durante dez anos tivemos um líder que foi um completo falhanço. As pessoas lembram-se bem da forma como a questão do tufão Hato foi gerida e isso serviu de lição”, ilustra o também vice-presidente da Associação Novo Macau. Os erros cometidos no passado, sustenta Sulu Sou, permitiram que o novo Executivo emendasse a mão e fizesse, sem hesitações, o que tinha que ser feito: “A meu ver, o novo Executivo fez o básico. Fez aquilo que tinha de ser feito. Concordamos com as decisões, mas não podemos estar a enfatizar a performance do Governo porque o que foi feito é o que qualquer líder competente faria”, assume. “A resposta, apesar de positiva, foi básica e parece-me que o Governo pode ser mais activo na forma como aceita o papel de monitorização da Assembleia Legislativa”, sustenta o deputado. A resposta firme do Governo à disseminação do novo coronavírus, considera outro dos membros do hemiciclo, não se fez sem consequências, nomeadamente para a própria Assembleia. José Pereira Coutinho considera que o órgão legislativo “não foi tido, nem achado” pelo Governo no que toca à gestão do surto epidémico de Covid-19. O único deputado português à Assembleia Legislativa teme que o novo coronavírus tenha oferecido ao Governo a oportunidade de enveredar por um estilo de governação “mais autoritário”: “O que eu vejo é que, com o Covid-19, o Governo vai ser mais autoritário; ganhou mais confiança, por causa da autoridade pública sanitária, para tomar decisões sem ouvir ninguém”, afirma Pereira Coutinho. “Lamento dizer que o senhor Chefe do Executivo tem de dialogar mais com a Assembleia Legislativa e tem de ser mais aberto”, sustenta o também presidente da Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau (ATFPM).

O impacto, diz Leung Kai Yin, poderá ser bem mais sub-reptício. O académico, especialista em administração pública, considera que a aparente eficácia das autoridades de Macau no combate ao novo coronavírus pode fazer rombo na premissa de que o expediente do sufrágio universal é o que melhor serve os interesses da população: “Numa sociedade como a de Macau, um bom líder é muito importante. Pouco importa se vivemos ou não numa democracia. É um conceito que não suscita grande interesse junto da população. Os residentes valorizam muito mais uma boa liderança e um bom líder não precisa, necessariamente, de ser eleito através do princípio ´um homem, um voto´”, considera.

Leung Ka Yin, Sulu Sou e Pereira Coutinho coincidem num aspecto. A pandemia de Covid-19 paralisou o planeta e obrigou governos por todo o mundo a adoptarem medidas com um alcance inimaginável, mas em Macau o maior desafio até poderá nem ser a contenção do surto epidémico: “A maior prioridade para Ho Iat Seng é a de diligenciar medidas para relançar a economia. Nas primeiras Linhas de Acção Governativa como líder do Governo acho que vai prestar grande atenção ao que o Executivo pode fazer para atrair mais visitantes a Macau. A curto prazo, só o turismo pode ajudar a economia a recuperar o fôlego perdido”, considera Leung.

O turismo pode ser o paliativo mais imediato para as dificuldades económicas com que o novo coronavírus confrontou o território, mas quando a poeira assentar o Governo terá necessariamente que trabalhar para re-inventar o tecido económico local, sustentam os dois membros do hemiciclo: “O problema é que não conseguimos fazer com que as pequenas e médias empresas (PME´s) sejam independentes do pilar da economia de Macau, que são os casinos. Temos os casinos e depois uma nuvem de satélites que rodam à volta dos casinos. Quando os casinos espirram, muitas destas PME´s morrem”, ilustra Pereira Coutinho. “Depois desta crise de saúde pública, o Governo terá que diligenciar políticas de longo termo para resolver os problemas fundamentais da economia. Não pode continuar na dependência da indústria do jogo, como no passado”, complementa Sulu Sou.

O PLATAFORMA contactou ainda Davis Fong, mas não conseguiu chegar à conversa com o deputado, um dos sete nomeados pelo antigo Chefe do Executivo Chui Sai On.

Marco Carvalho 20.03.2020

 

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