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Recuperação económica só com regresso dos turistas

O surto de coronavírus tem afetado a economia de Macau e todos os setores a vários níveis. Vong Kok Seng, vice-presidente do conselho de administração da Associação Comercial de Macau, partilha em entrevista com o PLATAFORMA que o impacto da pandemia na região não tem precedentes, levando a que tanto empregados como empregadores estejam a lutar para o ultrapassar. Sobre a recuperação económica, acredita que acontecerá quando os turistas voltarem a sentir-se seguros para visitar Macau.

O recente surto levou a uma grande descida no número de visitantes a Macau, caindo cerca de 80 por cento durante o Ano Novo Chinês. Vong considera que o impacto do surto nas pequenas e médias empresas (PME´s) é muito superior ao da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS, na sigla inglesa) em 2003: “Com este surto, grande parte das pequenas e médias empresas sofreram grandes prejuízos, tanto em número como em valor, largamente superiores ao do SARS”.

Relembra que em 2003 o volume de visitantes em Macau desceu apenas 20 por cento, recuperando logo no terceiro trimestre do ano. Atualmente, a indústria espera registar uma melhoria gradual apenas em maio e junho. Esse momento chegará quando os turistas se sentirem à vontade para visitar Macau: “Mais de 90 por cento das PME´s fazem parte do setor de serviços e a economia depende largamente do turismo. Sem visitantes não há ninguém para servir e, por isso, o número tem um impacto direto na indústria de turismo”. Defende que para a economia recuperar, o Governo tem primeiro de reiniciar os “vistos individuais”. E mesmo que essa medida seja aplicada por fases, será melhor do que uma suspensão por completo, diz.

Sobrevivência das PME’s

Para Vong Kok Seng, as PME´s estão numa luta pela sobrevivência, com algumas a manterem atividades mínimas apenas com pessoal administrativo, mas a situação continua grave. E resume a situação em duas frases: “Sem negócio, não há lucro. E algumas empresas fizeram agora empréstimos”.

Após o surto da SARS em 2003, a indústria de turismo conseguiu desenvolver-se rapidamente, levando a um crescimento no número e dimensão das PME´s. Vong Kok Seng lembra que ao longo dos últimos 17 anos várias destas empresas envolveram-se no setor de serviços, fazendo crescer o impactado da crise. “Ninguém está imune”, com o fecho de empresas em várias indústrias.

Sobre o desemprego, lembra não existirem para já estatísticas específicas, mas é uma realidade. Empregados e empregadores devem negociar e tentar ultrapassar juntos este momento difícil: “Precisamos todos de garantir que as empresas sobrevivem. É preciso que estas não fechem e que as pessoas continuem empregadas”. É um sentimento comum a todos, levando as empresas a manter uma perspetiva positiva para o futuro. Vong avança que existem já empresas a reorganizar-se, dando como exemplo a indústria da restauração, onde muitas funcionam, agora, apenas com serviços de take-away e entregas, procurando formas de promover o negócio online.

Trabalhadores estrangeiros

Sobre eventuais ajustes para os trabalhadores estrangeiros, Vong entende não haver necessidade de alterar o que existe: “há um mecanismo para trabalhadores estrangeiros, em que contratos de até dois anos podem ser cancelados devido a fatores económicos. Por isso, não é um problema”. Acredita que esses trabalhadores não vão pôr em causa a situação do emprego em Macau e, caso as coisas piorem, o emprego estrangeiro poderá ser reduzido.

O Governo admite para este ano um défice orçamental. Todavia, Vong confia que Macau possui reservas financeiras suficientes para combater a epidemia e ajudar a população. Por isso, essa situação não vai afetar as políticas que o Governo venha a aplicar, diz. Sobre as novas medidas que o Governovai anunciar em abril, Vong considera que as autoridades estão a enfrentar uma “situação de guerra”, mas vão encontrar formas de garantir que as empresas sobrevivem, promovendo o turismo e impulsionando a economia. Sobre o pacote de medidas já anunciado, considera-as bastante alargadas e vão ajudar, de facto, as PME´s. À pergunta “porque é que o Governo não subsidia diretamente as PME´s” responde: “Isso não é assim tão fácil, podendo criar falta de equilíbrio e conflitos, tornando algo bom, em algo mau.”

Vong defende que Macau deve continuar a percorrer o caminho da diversificação económica, mas lembra a importância das indústrias do jogo e do turismo. “A diversificação de uma região aumenta a respetiva capacidade de resiliência. Por isso, esperamos que a indústria do jogo, numa altura de grandes receitas, consiga trazer alguma dessa diversificação”, diz.

Sobre se a cidade tem ou não os requisitos e recursos humanos necessários para essa diversificação, Vong destaca que o que falta a Macau “é terreno”. Sobre os recursos humanos, responde: “Se os possuir, melhor. Se não, pode sempre importar”.

Acerca da necessidade ou não de uma lei sindical, Vong lembra que a Associação Comercial discordava da proposta de lei – à data da entrevista então em discussão na Assembleia Legislativa e, entretanto, chumbada -, não considerando que seja necessária na região.

“Claro que tudo também depende das negociações futuras. Até ao momento, o Conselho Permanente de Concertação Social não iniciou discussões, mas se for essa a avaliação, deve ter-se em conta todos os fatores, incluindo mão-de-obra e capital”, conclui.

Johnson Chao 20.03.2020

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