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Taiwan entre a espada e a parede

A China não quer um conflito com os Estados Unidos da América (EUA), a não ser que “seja empurrada” por causa de Taiwan, diz um cientista político. O Conselho de Assuntos do Continente da ilha teme que Pequim possa “ameaçar a paz” para desviar a atenção dos protestos em Hong Kong.

“É mesmo inevitável a armadilha de Tucídides?” Começa assim um artigo de opinião do Embaixador chinês na Guiné-Bissau, Jin Hongjun, publicado no jornal O Democrata na semana passada. O conceito tornou-se célebre em 2017, com o livro “Destinados à Guerra”, onde o académico norte-americano Graham Allison defendia que a crescente rivalidade entre a China e os Estados Unidos podia levar a um conflito armado.

A “armadilha de Tucídides” foi o tema que trouxe à Universidade de Macau, também na semana passada, Steve Chan. O professor de Ciência Política acredita que “uma guerra com os Estados Unidos não seria a primeira escolha da China mas sim o último recurso”. Afinal, sublinha o investigador, “O que teriam eles [China e Estados Unidos] a ganhar ao entrar numa guerra?”. O Partido Comunista Chinês (PCC) prefere apostar em ultrapassar a economia norte-americana a longo prazo. Do ponto de vista chinês, “a tendência é minha amiga”, afirma o professor da Universidade de Colorado, nos Estados Unidos.

Uma opinião partilhada por Jin Hongjun. “A China tem uma população quatro vezes a dos EUA e já ultrapassou o país na indústria manufatureira e na exportação, e tornar-se-á no maior mercado dentro de pouco tempo”, escreveu o diplomata chinês. “É normal e compreensível que o PIB [Produto Interno Bruto] da China ultrapasse o dos EUA um dia destes”, acrescentou o embaixador.

No entanto, defende Steve Chan, o Partido Comunista chinês sabe bem que o país está ainda a anos-luz de se equiparar aos Estados Unidos em áreas vitais como a inovação e investigação. Também o Ministro chinês dos Negócios Estrangeiros Wang Yi lembrou que a China está ainda muito atrás dos Estados Unidos em riqueza ‘per capita’, índice de desenvolvimento humano assim como na ciência, tecnologia e ensino.

A acrescentar, e para Steve Chan, a dependência das exportações é uma grande vulnerabilidade da China, como demonstra a desaceleração da economia chinesa devido à guerra comercial entre Pequim e Washington. O académico nascido em Xangai diz mesmo que a iniciativa Uma Faixa, Uma Rota, é, em parte, uma tentativa de a China garantir uma rede terrestre alternativa ao transporte marítimo, uma vez que um eventual bloqueio marítimo poderia paralisar a economia chinesa. Por um lado, a iniciativa permite ao PCC conquistar aliados, algo que falta à China, refere Steve Chan.

Profecias de guerra

Ainda assim, Steve Chan admite que, a haver um conflito armado entre os dois países, não será nunca nem por causa das disputas territoriais no Mar do Sul da China nem devido aos protestos pró-democracia em Hong Kong. Isto apesar de no mês passado milhares de manifestantes se terem reunido junto ao Consulado norte-americano em Hong Kong para pedir a intervenção do Governo de Donald Trump. Na semana passada, num discurso nas Nações Unidas, o Presidente dos Estados Unidos apelou à China para respeitar “as liberdades, sistema legal e democrático” de Hong Kong.

“A haver uma guerra, será porque a China não conseguiu convencer os Estados Unidos a ficarem à margem daquele que é o ponto mais sensível: Taiwan, que a China considera ser um assunto interno”, defende o também professor da Universidade Tecnológica de Nanyang.

Um receio partilhado pelo Conselho de Assuntos do Continente da ilha Formosa. “O Partido Comunista Chinês poderá tomar medidas mais agressivas e ações provocatórias contra Taiwan e ameaçar a paz no Estreito de Taiwan para desviar a atenção das contradições domésticas e desafios internacionais”, afirmou o Conselho em resposta ao PLATAFORMA.

O Presidente chinês Xi Jinping está “cada vez mais frustrado” com “a recessão económica, os sistemáticos riscos financeiros e a guerra comercial China-Estados Unidos, assim como com “a crise em Hong Kong, que não parece ter solução a curto prazo”, acrescenta o organismo.

Pequim tem acusado a ilha de fomentar os protestos em Hong Kong, algo que a Formosa rejeita. “Embora Taiwan esteja profundamente preocupada com o desenvolvimento da liberdade e democracia em Hong Kong, não iremos interferir”, garantiu o Conselho.

A pressão política sob a Presidente Tsai Ing-Wen, que procura garantir a reeleição em janeiro de 2020, tem aumentado nas últimas semanas, com a China a garantir o reconhecimento diplomático das Ilhas Salomão e de Kiribati, deixando assim Taiwan com apenas 15 aliados. O objetivo, disse Xi Jinping em janeiro passado, é reunificar a ilha através da política ‘Um País, Dois Sistemas’.

Um desejo rejeitado liminarmente pelo Conselho de Assuntos do Continente: “A experiência de Hong Kong mostra que o modelo ‘Um País, Dois Sistemas’ é um falhanço e um erro”. Segundo um estudo de opinião efetuado em agosto passado, quase 90 por cento dos habitantes de Taiwan estão contra a ideia, “o que indica que os taiwaneses identificaram esta fraude e burla”, frisa o Conselho.

Steve Chan não acredita que a China continental se arrisque a invadir a Formosa, “a não ser que seja empurrada”. Qualquer triunfo militar seria na prática uma derrota, tanto pela perda definitiva do apoio dos taiwaneses pró-continente como pelos inevitáveis danos causados à ilha, explica o académico. Por outro lado, realça Steve Chan, além da vontade de ser mais firme na relação com a China, tanto Donald Trump como os principais concorrentes democratas à presidência dos Estados Unidos partilham uma tendência para o protecionismo e o isolacionismo, o que tornaria o envolvimento norte- -americano numa nova guerra pouco provável.

Ainda assim, com os Estados Unidos a identificarem formalmente a China como a sua “principal ameaça”, o investigador sino-americano admitiu ao PLATAFORMA que o receio de um conflito armado pode tornar-se “uma profecia auto cumprida”. “Há muitos brancos americanos zangados e à procura de um bode expiatório”, avisa Steve Chan.

Vítor Quintã 04.10.2019

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