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Portugueses ensinam a jogar à bola

De apito pendurado ao pescoço e vestido de fato de treino preto, Gonçalo Figueira anima dez crianças chinesas a treinarem passe, receção e condução de bola, alternando entre português e inglês: “vai, vai; go, go”.

A cena passa-se num fim de tarde de terça-feira, no campo relvado de uma das escolas de ensino médio e básico administradas pela Qinghua, uma das universidades mais prestigiadas da China. Figueira, 31 anos e natural de Arganil, distrito de Coimbra, é um de quase cem treinadores portugueses de futebol que nos últimos anos rumaram à China, de acordo com a contagem da agência Lusa.

Desde a província de Jilin, na fronteira com a Coreia do Norte, à ilha tropical de Hainan, no extremo sul do país, vivem hoje técnicos portugueses, alguns contratados por clubes e outros integrados no sistema de ensino público, que incluiu em 2015, a modalidade no desporto escolar, parte de um “plano de reforma do futebol” decretado pelo Governo central, visando elevar a seleção chinesa ao estatuto de grande potência.

Só a academia de futebol do Shandong Luneng, uma das mais prestigiadas da China, que acolhe 300 jovens futebolistas, e inclui 36 campos relvados, escola, restaurantes e hospital, conta com oito portugueses nos quadros. O coordenador técnico é o antigo diretor técnico da Federação Portuguesa de Futebol Francisco Silveira Ramos.

Na Superliga chinesa competem ainda os treinadores portugueses Paulo Bento (Chongqing Dangdai Lifan), Vítor Pereira (Shanghai SIPG) e Paulo Sousa (Tianjian Quanjian).

“Como ganhámos o campeonato europeu, a China olha hoje para nós como uma grande potência do futebol, com grande conhecimento acerca da modalidade”, explica Figueira. “Isso valoriza o treinador português”.

O poder financeiro do país asiático, a segunda maior economia mundial, garante que a atratividade é reciproca. “A nível monetário sem dúvida que compensa”, afirma o técnico. “Não acredito que haja treinadores a ganhar tanto como eu na II liga [portuguesa]. E eu trabalho com escolas e eles com equipas profissionais”.

Com um mestrado em treino desportivo especializado em futebol, pela Faculdade de Motricidade Humana, Gonçalo Figueira chegou a Pequim em abril de 2017, recrutado pela empresa chinesa Dream Max, para “ensinar as bases, cultura e técnica do futebol” em duas escolas da capital chinesa.

No primeiro ano, ganhou o campeonato do distrito de Haidian (norte de Pequim) com uma das escolas, numa conquista inédita para aquele estabelecimento de ensino. “Usámos métodos que os miúdos não estavam habituados e isso notou-se: houve uma evolução clara na tática e posicionamento”, conta Figueira. “Para eles futebol era ir atrás da bola. Não tinham noção do que é jogar sem bola, ou correr só o necessário”.

Chen Tao, responsável pelo departamento de educação física da escola da Qinghua, explica que o “mais importante” agora para a China “é fazer com que os miúdos gostem de futebol”.

Para motivar os atletas, “no futuro, o plano é dar aos melhores na modalidade acesso privilegiado a escolas de topo”, revela. O ensino público assume especial importância na formação de jogadores de futebol na China, onde existem pouco mais de cem clubes – só no distrito do Porto, por exemplo, há cerca de 450.

País mais populoso do mundo, com quase 1.400 milhões de habitantes – mais do dobro de toda a União Europeia -, a China ocupa o 75.º lugar do ranking da FIFA, atrás de Cabo Verde, Burkina Faso e muitas outras pequenas nações em vias de desenvolvimento. A única participação do país asiático num Mundial foi em 2002.

“É complicado, porque os miúdos não têm cultura futebolística”, explica Figueira. “Não crescem a ver futebol”. Mas Joaquim Rolão Preto, que chegou a Pequim em 2014 para dirigir a Winning League/Figo Football Academy, nota uma evolução.

“O que aprendi nos últimos quatro anos é que as pessoas na China estão mais exigentes e conhecedoras, não só as estruturas governamentais, como aquelas que organizam o futebol e o futebol federado”, diz.

O técnico lembra, porém, que “falta todo um trabalho paralelo”. A China precisa de “muita gente a praticar o futebol, para que os talentos, efetivamente quando chegam aos 10, 11 anos, como o Cristiano Ronaldo e o Figo, possam ter já um grande conhecimento do jogo e começar uma carreira muito mais aprofundada”, diz. “Essa é a base do futebol”.

Antigo treinador do Sporting Clube de Portugal, que ajudou a formar Cristiano Ronaldo e outras estrelas da modalidade, Rolão Preto foi um dos pioneiros a trazer para a China os métodos de treino utilizados nas camadas jovens em Portugal, através da academia com o nome de Luís Figo.

Inaugurada em 2014, em Pequim, a Winning League/Figo Football Academy alargou-se depois a 16 cidades chinesas e chegou a ter 60 treinadores vindos de Portugal e cinco mil alunos – crianças e adolescentes entre os 4 e 13 anos -, mas acabou por encerrar no ano passado.

“O que falhou nesta empresa é que teve um projeto paralelo, na compra de um clube profissional da II liga chinesa, na cidade de Hohhot [Mongólia Interior], e por razões que desconheço teve alguns problemas financeiros, que acabaram por nos prejudicar, uma vez que deixaram de cumprir com as obrigações salariais, assim como não cumpriram com algumas obrigações contratuais com algumas famílias e os pais das crianças”, explica. 

“O próprio Figo, que vendeu a sua marca, eu e todos os treinadores, que tínhamos um contrato laboral com eles, fomos prejudicados, porque o investidor principal falhou”, acrescenta. 

Rolão Preto admite que o incidente manchou a reputação de Luís Figo na China, visto que o atleta é que dava o nome ao projeto, mas garante que o antigo capitão da seleção portuguesa vai continuar a apostar no país asiático, desta vez com uma empresa em seu nome, a Figo Sports Culture Development Co., registada em Xangai. “Seria irresponsável dizer que a reputação da marca Figo não foi afetada, porque o que se falava não era na Winning League, mas na Academia Figo”, diz. “Mas continuamos aqui para mostrar o nosso valor”. 

João Pimenta-Exclusivo Lusa/Plataforma Macau  22.06.2018

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