O ataque frontal de Neto Valente contra o nacionalismo exacerbado e a ignorância que mina o Segundo Sistema merece aplauso e respeito. Pela coragem – nele consistente – e pelo alerta civilizacional. A triste cavalgada em nome da segurança nacional expõe o autoritarismo e a soberba de lobbies que pensam ser premiados por reduzir tudo e todos ao amor à Mãe Pátria.
A crítica não é uma mania portuguesa… a cultura chinesa também lamenta o securitarismo e a paranoia, como a de verificar se quem doa esperma ama a Pátria – exemplo da demência a que isto está a chegar. A elite chinesa não diz o que pensa nos jornais, mas essa é outra questão. E é verdade que há um contexto político particular que ergue o fantasma do Primeiro Sistema. É isso que urge ponderar, com racionalidade.
Ninguém em Macau põe em causa a soberania chinesa. Tenho escrito, até à exaustão, que sendo amante da autonomia – foi Pequim que a inventou – percebo e agradeço a mão do Continente contra a inércia e a incompetência local. Macau não tem massa crítica, nem traça planos de longo alcance. Por isso, aplaudo linhas de orientação como a diversificação económica, a integração regional, a plataforma sino-lusófona… Não viessem de Pequim, não vinham de lado algum.
Aqui não há nada a temer, debaixo da bandeira e do hino. O amor à Pátria é um direito dos patriotas; o respeito pela China é consistente; a pequenez de Macau é incontornável e a crise de valores é falsa. Mesmo sabendo que o Partido Comunista aperta na China o cerco à liberdade de expressão e às garantias individuais, Macau não representa qualquer risco. Não faz por isso sentido pôr em causa bens maiores, como o exemplo a dar a Taiwan e a prova perante o resto do mundo de que a China respeita o direito à diferença, nomeadamente no Segundo Sistema, que é também seu e de mais ninguém.
Já que se assume quem manda, pede-se então a quem manda: ponham isto na ordem.
Paulo Rego 20.04.2018