Início » A Europa entre Washington e Pequim

A Europa entre Washington e Pequim

Lisboa foi palco de um debate sobre as relações Europa-China. No Museu do Oriente discutiu-se como Bruxelas se poderá aliar ou não a Washington e a Tóquio para obter uma melhor balança com Pequim.

A Europa está numa encruzilhada. Com a saída do Reino Unido num horizonte próximo, prepara-se para viver com um novo orçamento. Adivinhando uma nova crise económica, quer finalizar a tempo a União Monetária e um mecanismo comum de socorro ao sistema financeiro. Ao mesmo tempo, pretende avançar na integração, com capacidades comuns de defesa. E, em perspetiva, vê-se relegada ao estatuto de poder irrelevante numa ordem mundial muito diferente da gerada no pós-segunda Guerra Mundial. As relações com a China, a grande potência mundial em afirmação, também parecem constar de uma agenda de revisões de curso, com o discurso liberalista e realista a pedir mudanças de estratégia na abordagem a Pequim.

Não menos que dois relatórios – ambos publicados em dezembro último, pelo Conselho Europeu para as Relações Externas e pela Rede Europeia de Think-Tanks sobre a China (Merics, Instituto Real Elcano e Instituto Francês de Relações Internacionais) – alertavam no final do último ano, com análises individualizadas para cada país europeu, para um desequilíbrio nas relações China-Europa. A compra de ativos em setores estratégicos como as utilidades, bancos e seguradoras, surgia por exemplo em destaque nas análises a Portugal, país que garantiu “acesso a tecnologias de ponta e a extensão de uma influência global”, segundo um dos estudos.

Os relatórios parecem ser sintoma de uma atitude europeia em mudança, numa altura em que a União Europeia se prepara para discutir e votar um mecanismo comum de escrutínio ao investimento externo ao bloco, especialmente dirigido à China.  A proposta teve a iniciativa de França, Alemanha e Itália, e foi formalizada por Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, em setembro passado. O principal objetivo é a proteção dos setores de alta tecnologia, muito à semelhança do que sucede nas últimas semanas nas tensões comerciais entre China e Estados Unidos. Há uma vaga de fundo a favor de uma menor abertura à China, e Portugal não está ausente da discussão.

Os últimos multilateralistas

Na passada semana, o Museu do Oriente, em Lisboa, foi palco para uma discussão subordinada aos temas do Brexit, China e relação transatlântica sob o nome “A Europa e a Ordem Mundial em Mudança”.  À mesa para moderar uma diálogo sobre as relações com a China esteve Chris Patten, o antigo governador de Hong Kong, que é também antigo comissário europeu para as Relações Externas e um promotor das chamadas Conferências da Arrábida, organizadas regularmente pela Fundação Oriente. De um lado, François Godement, diretor do Conselho Europeu para as Relações Exteriores (ECFR) e responsável por um dos estudos citados acima. Do outro, Luís Amado, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros português e, hoje, presidente do conselho de supervisão da EDP.

Em comum nos discursos, a ideia de que a China não é mais o país em desenvolvimento que em 2001 acedeu à Organização Mundial do Comércio, ou sequer o país das reformas iniciadas por Deng Xiaoping nos anos 1980.  É o país de Xi Jinping, o líder cuja afirmação autoritária surpreendeu em março último, com a eliminação do limite de dois mandatos presidenciais na Constituição chinesa. E é o país que mantém erguidas as barreiras às empresas de outros estados, por via de restritivas leis de investimento direto e barreiras alfandegárias.

“Devemos juntar-nos todos? É o que os Estados Unidos querem”. É este o debate de hoje na Europa, resumido por Godement na conferência onde citações à “História da Guerra do Peloponeso” de Tucídides foram abundantes para ilustrar os receios de um conflito, sobejamente augurado entre Estados Unidos e China, como antes entre Atenas e Esparta. “Há grandes incertezas e hesitações na estratégia americana para a China, mesmo sob Donald Trump, de ‘tweet’ para ‘tweet’. De vez em quando penso que a UE e o Japão podiam ter aquilo a que chamo uma coligação das margens. São os últimos multilateralistas do mundo”, considerou Godement.

Esta semana,  o Japão surgiu em mais do que uma maneira a meio do Pacífico. O primeiro-ministro, Shinzo Abe, foi recebido pelo Presidente americano, Donald Trump, para discutirem juntos as situação coreana. Ao mesmo tempo, Pequim e Tóquio decidiram retomar o diálogo económico após um hiato de oito anos. 

Quando o céu cai

“Quando o céu cai, é preciso um grande homem para o segurar” – como terá dito Xi Jinping em reuniões com diplomatas esta semana, como avançaram os correspondentes estrangeiros na China. Há, para o provérbio chinês, um correspondente europeu, menos otimista: “Nenhum céu tão carregado se limpa sem uma tempestade”. 

A citação, de “O Rei João”, de Shakespeare, foi usada por Chris Patten para abrir a conferência de Lisboa, num discurso no qual o antigo governador de Hong Kong não mostrou dúvidas de que Bruxelas, Estados Unidos e Tóquio devem, de facto, estar unidos para impor à China regras comuns no plano económico. 

“Sem querer um conflito com a China – não direi nada sobre as ambições marítimas da China – e sem querer ver o crescimento da China perturbado – porque a China passar mal seria mau para todos, não apenas para a China – acho muito importante que trabalhemos juntos, Estados Unidos, Europa, Japão, mas não com um de nós a fazer ameaças de sanções. É muito importante que trabalhemos juntos para insistir que a China jogue pelas mesmas regras económicas que todos nós”, disse o político conservador britânico.

Numa guerra entre as Atenas e Esparta de hoje, o português Luís Amado, indicado por uma empresa estatal chinesa, a CTG, para os órgãos de supervisão de uma empresa europeia, a EDP, afirmou que o risco que está perante a Europa é o de uma desintegração. “Todos estes grandes poderes que gerem a agenda global estão a fazer o sol e a chuva nas nossas vidas, estão, efetivamente, a jogar a cartada da divisão europeia. E estão, intensamente, a aproveitar a oportunidade. Se há algo em que convergem, tendo em mente a atual Administração de Washington, é nisto”, defendeu, considerando que a resposta de Bruxelas à requisição para as diferentes fileiras de Washington e Pequim deve ser antes a de uma maior “integração suave” dos seus Estados–membros.

Para Amado, “a ascensão pacífica de Deng Xiaoping já lá não está”, no discurso e prática da China. E a sombra de uma tempestade que se abata também sobre a Europa no confronto para um mundo liderado por uma só grande potência paira. Mas, não obstante a reação e dores partilhadas com Washington, o futuro da Europa parece continuar a surgir, inevitavelmente, ligado à China, segundo Godement: “A maior ameaça da China é ainda que esta possa ignorar a Europa”. 

Maria Caetano  20.04.2018

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website