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Desafiar o destino

Não é preciso ser génio para entender a maior parte das decisões políticas em Macau: follow de money. É preciso ser mais criativo para suspeitar que Steve Wynn tenha caído em desgraça empurrado por conspirações que manipulam escândalos sexuais para controlar ações da empresa, em Las Vegas ou em Macau. Mas é fácil perceber que concessionárias, subconcessionárias e satélites da SJM tentam estender as garras a uma presa fragilizada. Cruzando a origem das subconcessões com o contexto político chinês, facilmente se entende que se alguém “engolir” a Wynn Macau será provavelmente a Galaxy. Nesse caso, tendo a prática firmado três concessões e três subconcessões, haveria ainda espaço para um novo pretendente: David Chow? Chan Meng Kam? Alguém vindo de fora?

Não se entende a economia política local sem uma leitura fina dos bastidores do jogo; não se explica a relação de Pequim com a Região autónoma menorizando a necessidade que o poder continental tem de controlar os fluxos financeiros dos casinos, na China ou no resto do mundo. Logo, não faz sentido pensar na sucessão de Chui Sai On sem perceber quem tem know-how, relações e poder – institucional e fáctico – para mergulhar na renovação das licenças de jogo e gerir essa teia de interesses locais, nacionais e internacionais. Portanto, mesmo que não venha a ser Chefe do Executivo, não faz sentido ler o futuro sem perceber o poder crescente – ou a recuperação do poder que representa – de Lionel Leong.

Neste contexto, surpreende o “ataque” de Ho Iat Seng à presença de Alexis Tam e de Lionel Leong em Pequim, durante os trabalhos da Assembleia Nacional Popular. Clara e evidente foi a resposta do primeiro: estou aqui porque fui convidado. Mais surpreendente foi o comentário do segundo, duro e cristalino, como é seu timbre: tomei nota. Tomámos todos nota…

Ho Iat Seng tem capacidade, história e relações e que o colocam – de forma evidente – na corrida ao Palácio cor de rosa. Mas alguma lhe escapou. Ou estava mal informado; ou pior, assustado. A primeira hipótese é grave; a segunda é um tiro no pé que nesta reta final certamente assusta quem lá em cima procura experiência, segurança e ponderação. Há muito nervosismo no ar, sobretudo por parte de quem já percebeu que perdeu a corrida. Quem quiser manter-se de pé não pode nesta altura desafiar o destino. 

Paulo Rego  06.04.2018

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