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Bancos procuram “novos modelos” para investir em infraestruturas

Instituições financeiras discutiram na passada semana, em Lisboa, novas soluções para projetos Faixa e Rota. Fundo de CHINA-PLP admite que países de língua portuguesa continuam a enfrentar dificuldades de acesso a financiamentos.

O presidente do Fundo de Cooperação e Desenvolvimento China-Países de Língua Portuguesa (Fundo CPD), Chi Jianxin, admite que as empresas continuam a encontrar dificuldades de acesso a financiamento, também do fundo de mil milhões de dólares que dirige a partir de Macau.

Chi Jianxin foi um dos oradores de uma conferência sobre as vias de financiamento para projetos no âmbito da iniciativa Faixa e Rota, organizada pelo ‘think-tank’ Amigos da Nova Rota da Seda na última sexta-feira, em Lisboa.

“É preciso que as instituições financeiras encontrem novos modelos financeiros”, disse o presidente do fundo, aludindo, nomeadamente, a soluções para projetos de pequena dimensão. “Em muitos países, incluindo em Portugal, as empresas são sobretudo de pequena e média dimensão”, notou.

As declarações de Chi Jianxin foram feitas num momento em que a fraca capacidade de mobilização de financiamento por parte do fundo está em debate, com expetativa de reformas no mandato e modo de operação da instituição. Por ocasião do 15º aniversário do Fórum de Cooperação Económica e Comercial entre China e Países de Língua Portuguesa, no passado dia 21, em Macau, antigos responsáveis da estrutura – entre estes, Manuel Amante da Rosa – defenderam que é preciso fazer o fundo “regressar às origens”, retomando a vertente de fomento, ao invés de assumir o papel de investidor de capital de risco.

Desde que foi anunciado, em 2013, o Fundo CPD financiou apenas três projetos – em Angola, no Brasil e em Moçambique – com um valor global de 35 milhões de dólares. Na cerimónia de comemoração dos 15 anos do Fórum Macau, a secretária-geral avançou aos jornalistas que recentemente foi financiado mais um projecto no Brasil. A responsável não adiantou detalhes sobre o teor e o valor do investimento. O PLATAFORMA procurou saber junto do Fórum Macau os detalhes mas sem sucesso até ao fecho da edição. O fundo investe através de participações de capital em prazos de até 10 anos, tendo como missão apoiar projetos de parceria entre empresas da China e países de língua portuguesa em áreas que vão desde a agricultura ao setor de energia, passando pelas comunicações e indústria.

“O fundo está disponível para dar apoio a empresas e instituições da China e Portugal”, disse o presidente em Lisboa, apesar das dúvidas atuais sobre o modo de operação da estrutura. Contactado pelo PLATAFORMA sobre eventuais reformas a realizar, Chi Jianxin disse não poder falar sem autorização prévia dos gabinetes do fundo em Pequim.

Do Banco de Desenvolvimento da China, o vice-presidente, Wu Shiwei, incentivou também os participantes a recorrerem ao Fórum de Macau e também ao fundo CPD em projetos de cooperação trilateral. O responsável da instituição que detém 80 por cento do fundo aconselhou um “planeamento sistemático dos projetos de financiamento” e também à criação de mecanismos de compensação para redução dos riscos cambiais associados aos investimentos em diferentes geografias.

Riscos e oportunidades

A conferência “Financing Belt & Road” contou com participação de representantes de bancos comerciais e instituições de fomento da Ásia e da Europa. Entre estes, do Fundo CPD, do Banco de Desenvolvimento da China, do Banco de Desenvolvimento Asiático, do Banco Mundial, do Banco Europeu de Investimento e da sucursal do Banco da China em Lisboa. 

Estava também prevista a presença do vice-presidente do Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas (BAII), Danny Alexander, que acabou por deixar apenas uma mensagem de vídeo aos participantes. O responsável do BAII convidou os empresários portugueses a participar, em junho, na próxima reunião anual do banco, que se realizará desta vez em Mumbai. A Índia é o país que mais financiamento tem obtido por parte da instituição multilateral criada por iniciativa chinesa.

O Banco de Desenvolvimento Asiático estimou no início do ano passado que, só na Ásia, seja necessário um investimento de 26 biliões de dólares para colmatar necessidades de infraestruturas. Esta é uma das instituições que já coopera com o BAII na organização de fundos para projetos que melhorem a conectividade regional que dá substância à iniciativa Faixa e Rota. Também o Banco Europeu de Investimento se associou ao BAII neste propósito. O Banco Mundial ainda não.

“Não é a primeira vez que alguém tem a ideia”, afirmou Mario Sander, diretor europeu do Banco Mundial, assinalando que iniciativas semelhantes à chinesa estão a ser prosseguidas, inclusivamente, no quadro europeu – o chamado Plano Juncker, mobilizado pelo presidente da Comissão Europeia, aposta no melhoramento das infraestruturas europeias, por exemplo. 

“O conceito não é totalmente diferente, mas há uma grande diferença: a escala”, apontou, alertando para alguns dos aspetos que mais dúvidas têm gerado quanto à iniciativa chinesa: o risco dos países destino de investimento e a sustentabilidade das dívidas contraídas no processo de financiamento. 

“Não é ser negativo, mas é importante ter em mente estas questões”, alertou o responsável do Banco Mundial, instituição vista por muitos analistas como aquela que a iniciativa do BAII pretende suplantar, impondo um modelo de operação iniciado pela China. Apesar disso, o banco de Washington diz estar a estudar a possibilidade de cofinanciar projetos da Faixa e Rota. Para já, segundo Sander, cumpre um “papel de monitorização”, realizando estudos. “Estamos a dar um contributo de conhecimento ao Governo da China”, disse.

Da parte do Banco Europeu de Investimento, o responsável da estrutura em Portugal, Kim Kreilgaard, deu conta de que o Fundo Europeu de Investimento (FEI), sob tutela do banco de Bruxelas, está já a cofinanciar projetos com o Fundo Rota da Seda, criado por Pequim, no âmbito da iniciativa Faixa e Rota. FEI e Fundo Rota da Seda participam, cada um, com 250 milhões de euros numa facilidade de financiamento em parceria. 

Até aqui, o banco europeu não oferece financiamento na Ásia, região à qual pede antes emprestado através de operações como a emissão de obrigações. No ano passado, levantou 25 por cento das suas necessidades de financiamento no continente. A maior parte do financiamento fica na União Europeia (70 mil milhões de euros), com valores menores empenhados na América Latina e em países exteriores à União no Mediterrâneo (valores de dois mil milhões de euros em cada região).

Kim Kreilgaard falou também da necessidade de encontrar um novo modelo que suplante a ideia de financiamento ao desenvolvimento e passe antes a alocar fundos segundo os objetivos de desenvolvimento sustentável promovidos pela Organização das Nações Unidas. 

Maria Caetano  29.03.2018

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