Início » Sanções atingem políticos para promover Estado de Direito

Sanções atingem políticos para promover Estado de Direito

A primeira ameaça tinha sido feita em abril de 2017. No final de uma visita à Guiné-Bissau para avaliar o cumprimento do Acordo de Conacri, a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) deixava o aviso e admitia impor sanções a quem criasse obstáculos à aplicação do documento, que visa pÔr um ponto final na crise política do país. Dez meses depois, a CEDEAO anunciou oficialmente a imposição de sanções a 19 individualidades guineenses, incluindo atuais e antigos membros do Governo e deputados.

A lista foi oficialmente conhecida a 7 de fevereiro e inclui sete deputados expulsos do Partido Africano para a Independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde (PAIGC): Braima Camará, Rui Dia de Sousa, Soares Sambu, Abel da Silva Gomes, Manuel Nascimento Lopes, Eduardo Mamadu Balde, Maria Aurora Abissa Sano. 

As sanções foram também impostas a Florentino Mendes Pereira, secretário-geral do Partido de Renovação Social (PRS), Orlando Viegas, vice-presidente do mesmo partido e ministro das Pescas do Governo demissionário, Certório Biote, líder do grupo parlamentar do PRS, e Domingos Quade, dirigente da mesma formação política. 

Ainda do PRS são alvo de sanções Carlitos Barai e Domingos Malu, atual e ex-ministro da Saúde Pública. Também constam da lista o ex-procurador-geral da República António Sedja Man e o atual titular daquele órgão, Bacari Biai, o ministro do Interior do Governo demissionário, Botche Cande, Herson Gougjabi Vaz, filho do Presidente guineense, e os também ministros do Comércio, Victor Madinga, e do Turismo, Fernando Vaz.

“As sanções impostas a essas pessoas referem-se à suspensão da sua participação nas atividades da Comunidade, a interdição de viajar e a negação de vistos a elas e aos membros das suas famílias, e o congelamento dos seus ativos financeiros e dos de suas famílias onde quer que estejam”, refere, em comunicado, divulgado à imprensa a CEDEAO. No mesmo documento, a organização admite “rever a lista das pessoas sancionadas de acordo com a evolução da situação”.

A decisão da CEDEAO foi tomada depois de as forças de segurança terem impedido o arranque do congresso do PAIGC, partido vencedor das legislativas de 2012, e de o Presidente guineense, José Mário Vaz, ter nomeado um novo primeiro-ministro, Artur Silva, o sexto da atual legislatura, sem uma vez mais cumprir o acordado em Conacri.

Conacri, o acordo do desacordo

A crise política na Guiné-Bissau teve início em 2015 com a demissão de Domingos Simões Pereira, presidente do PAIGC, do cargo de primeiro-ministro. A persistência da instabilidade política, com mudanças sucessivas de primeiros-ministros, levou à intervenção da CEDEAO, que mediou as negociações que levaram à assinatura do Acordo de Conacri, em 2016.

O Acordo de Conacri prevê a formação de um governo consensual integrado por todos os partidos representados no parlamento, a nomeação de um primeiro-ministro de consenso e da confiança do chefe de Estado, bem como a reintegração no PAIGC dos deputados expulsos.

Em Conacri, o nome escolhido para primeiro-ministro terá sido Augusto Olivais, do PAIGC, mas o Presidente, José Mário Vaz, acabou por nomear Umaro Sissoco Embaló chefe do Governo, adensando a crise política e a divisão da sociedade guineense. Apesar das preocupações manifestadas pela comunidade internacional com a prolongada crise política no país, o chefe de Estado guineenses afirmou, em várias ocasiões, que o Acordo de Conacri feria a Constituição do país, mas que o cumpriu com a nomeação de Umaro Sissoco Embaló, que apenas era apoiado por um dos partidos representados no parlamento, o PRS.

E insistiu. Mesmo perante a ameaça da imposição de sanções, o chefe de Estado acabou por aceitar a demissão de Umaro Sissoco Embaló e nomear primeiro-ministro Artur Silva, que também não reúne consenso.

O senhor que se segue

A falta de consenso ficou recentemente expressa com a incapacidade em formar Governo, já que os partidos políticos guineenses com assento parlamentar manifestaram todos indisponibilidade para fazer parte do novo Executivo, incluindo o grupo de deputados dissidentes do PAIGC.

Agora, todos alegam que a indicação de Artur Silva ocorreu fora do Acordo de Conacri, isolando o chefe de Estado, que viu até agora os primeiros-ministros por si escolhidos serem apoiados pelo PRS e pelos deputados dissidentes do PAIGC. Artur Silva tem como principais objetivos da governação, segundo o Presidente José Mário Vaz, organizar eleições legislativas, previstas para este ano, e arranjar fundos financeiros internos para a sua realização.

Mas o parlamento da Guiné-Bissau já advertiu para o perigo de a instituição ficar bloqueada ao ponto de não conseguir escolher a nova equipa que irá organizar o escrutínio. É que, insiste o parlamento, o novo primeiro-ministro foi nomeado fora do quadro constitucional e do Acordo de Conacri e não irá permitir que o plenário do parlamento se reúna para eleger a nova direção da Comissão Nacional de Eleições.

Sem conseguir formar Governo, resta saber que decisão tomará Artur Silva ou o próprio chefe de Estado, que viu o seu filho ser alvo de sanções por parte da CEDEAO. A persistente crise política na Guiné-Bissau terá novos capítulos, que terão de passar pela aplicação do Acordo de Conacri, caso contrário, a lista de sanções poderá vir a aumentar.

A atual crise adiou, mais uma vez, o esperado desenvolvimento do país, que proclamou a independência de Portugal em setembro de 1973. Com cerca de 1,7 milhões de habitantes, a Guiné-Bissau tem sido assolada por graves crise políticas desde a sua independência e é um dos países mais pobres do mundo com carências graves ao nível dos setores da saúde, educação, emprego e infraestruturas. 

Isabel Marisa Serafim-Exclusivo Lusa/Plataforma Macau  15.02.2018

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website