“Estamos muito aquém do real potencial do mercado” - Plataforma Media

“Estamos muito aquém do real potencial do mercado”

A delegada de Portugal no Fórum Macau e da AICEP desvaloriza a queda significativa nas exportações de Macau para os países de língua portuguesa e garante que as vendas de Portugal para a região têm crescido todos os anos, desde que está no território. Maria João Bonifácio ressalva, contudo, que ainda há muito por fazer.

No próximo mês, faz um ano que é delegada de Portugal no Fórum Macau. Em entrevista ao PLATAFORMA, Maria João Bonifácio valoriza o papel do fórum apesar das muitas críticas que lhe são apontadas, e garante que Portugal e as empresas portuguesas só têm ganhado desde que foi criado. A também delegada da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) realça que as exportações para a região têm subido anualmente desde que veio para Macau e deixa o desafio aos empresários do território: há muitos setores de produtos portugueses a dar cartas no mundo que ainda estão por explorar no mercado local. 

– De acordo com a informação dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC), as exportações de Macau para os países de língua portuguesa, que incluem Portugal, desceram 88,2 por cento de janeiro a outubro, de 2017, comparativamente ao mesmo período do ano anterior. O que aconteceu para haver esta queda abrupta e significativa?

Maria João Bonifácio – As vendas de Macau aos países lusófonos são diminutas, no entanto, de acordo com a informação publicada pela DSEC, mais de metade dessas vendas tiveram Portugal como destino. Os dados de grande parte das mercadorias não estão disponíveis devido à salvaguarda do segredo estatístico, pelo que não é possível fazer uma leitura destes resultados. Porém, verifica-se que, em 2017, no período compreendido entre janeiro e outubro, Macau exportou apenas duas categoriais de produtos para os países de língua portuguesa (PLP): veículos automóveis e instrumentos de ótica, não se verificando a comercialização de brinquedos e material elétrico, que correspondiam a uma percentagem interessante das exportações da RAEM para os PLP. Relativamente a Portugal e com base nos dados do Instituto Nacional de Estatísticas, as vendas de Macau a Portugal diminuíram em 65 por cento devido, essencialmente à forte quebra da venda de produtos químicos orgânicos, fios e cabos elétricos e brinquedos.

– Quais são os produtos que Portugal exporta para Macau e importa da região? 

M.J.B. – O cabaz das exportações portuguesas para Macau está essencialmente centrado em produtos de consumo, nomeadamente alimentares, os quais, só por si, correspondem a pouco mais de metade do total de bens que vendemos à RAEM. Em 2017, no período compreendido entre janeiro e novembro, esta categoria de produtos registou um aumento de 28 por cento, comparativamente ao período homólogo do ano anterior, totalizando cerca de 130 milhões de patacas, um valor que, apesar de tudo, ainda está aquém do real potencial do mercado. O vinho ganha particular destaque no âmbito das nossas vendas a Macau. Pese embora a região constitua um mercado de dimensão reduzida, assume uma dimensão interessante na área dos vinhos em resultado da sua vocação acentuada com a internacionalização da indústria dos casinos e atividades turísticas, conjugada com a tradição cultural portuguesa que tem vindo a ser cada vez mais valorizada pelos responsáveis da RAEM. Outros produtos alimentares que têm evidenciado um bom desempenho são as conservas, o azeite, os enchidos e o peixe congelado. Trata-se de um setor dinâmico em Portugal, que tem evidenciado uma preocupação com a qualidade da matéria-prima, a diferenciação do produto, a aposta no design e na marca e na internacionalização. Com efeito, a oferta portuguesa de bens alimentares é mais vasta e diversificada do que o que encontramos no mercado local, pelo que os importadores locais poderão ainda explorar outros produtos inovadores, nomeadamente os gourmet. 

– Mas há outras áreas.

M.J.B. – As máquinas e equipamentos elétricos, mais precisamente os quadros, cabos e condutores elétricos, constituem o segundo grupo de produtos mais comercializado por Portugal a Macau. De facto, o grupo de produtos das máquinas e aparelhos é o mais exportado por Portugal para o mundo, sendo igualmente o que mais contribuiu para o aumento global das exportações portuguesas, seguido pelo setor automóvel. Em terceira posição, surge uma categoria de produto que tem vindo a ganhar expressão nas nossas vendas para Macau: o vestuário, que responde por 13 por cento do total comprado por Macau a Portugal. Neste capítulo destacam-se as t-shirts e roupa interior, bem como as camisas e vestidos de algodão, comercializados principalmente pelas grandes marcas/designers europeus presentes no território bem como outras cadeias de lojas como a Zara, H&M, Massimo Dutti, etc. Aproveito para destacar a excelência e evolução deste setor em Portugal e a forma como se tem vindo a afirmar no mercado internacional. Após os anos de crise interna e externa, Portugal conseguiu voltar a estar entre os países mais procurados para a produção têxtil e hoje o reconhecimento estende-se ao design e à investigação tecnológica. Longe vai o tempo em que o nosso país era apenas fornecedor das grandes marcas. Portugal é também dotado de um conjunto de estilistas reconhecidos internacionalmente – como a Fátima Lopes, Nuno Gama, Luís Buchinho, José António Tenente, entre muito outros -, bem como de marcas que se têm vindo a afirmar no mercado internacional, nomeadamente a Salsa, Sacoor, Lanidor, Ana Sousa, Quebra-mar, etc. A representação de marcas portuguesas seria, seguramente uma aposta vencedora para os empresários de Macau. Ainda no capítulo da moda, não posso deixar de dar uma nota sobre o calçado português, um produto de reconhecida qualidade e design a nível global, e que tem potencial para despertar mais atenção às empresas locais. Convém lembrar que a indústria do calçado português, com forte vocação exportadora, apresenta-se ao mundo como a indústria mais sexy da Europa e um dos setores que mais positivamente tem contribuído para o saldo da balança comercial portuguesa. De facto, o calçado português continua a saltar fronteiras e já chega a 152 países. Por fim, importa registar a venda de medicamentos a Macau, a qual registou um aumento interessante, mais 27 por cento. No sentido inverso, verificou-se uma forte desaceleração das exportações de Macau para Portugal.

– Sente que houve evolução nas relações comerciais entre as duas regiões desde que assumiu a liderança da AICEP em Macau e está como representante de Portugal no Fórum Macau? 

M.J.B. – É inquestionável que existe em Macau uma dinâmica empresarial muito interessante, através da qual é agora cada vez mais incontornável a possibilidade de alavancar negócios para e com a China, confirmando o estatuto da RAEM como sendo uma das pontes privilegiadas para a expansão e a consolidação da relação sino-portuguesa. Por força desta dinâmica empresarial, o trabalho em Macau tem sido intenso, mas sem dúvida muito gratificante, uma vez que tenho sido testemunha direta de um crescente interesse por parte das empresas portuguesas no mercado de Macau e no da China, intervindo e participando constantemente e de forma ativa, sempre que necessário, procurando ajudar essa dinâmica a produzir resultados. Estou em Macau como diretora da AICEP desde janeiro de 2013 e as exportações portuguesas para o mercado, desde essa data até 2016, registaram uma taxa de crescimento médio anual de 28 por cento, o que obviamente muito me satisfaz. Tenho porém consciência de que apesar deste bom desempenho, estamos muito aquém do real potencial do mercado, pelo que existe ainda uma larga margem de progressão na intensificação deste relacionamento comercial. 

– Tendo em conta o volume irrisório de trocas comerciais entre os dois territórios, considera que é nesta área que Portugal deve apostar ou deve investir noutras frentes no sentido de reforçar a relação com Macau? 

M.J.B. – O trabalho da AICEP no mercado não se circunscreve apenas ao domínio estritamente comercial. Nos últimos anos, temos vindo a desenvolver novas áreas de interesse, nomeadamente ao nível da inovação e do empreendedorismo. Por exemplo, o protocolo assinado entre o Ministério da Economia de Portugal, Secretaria de Estado da Indústria, e a Secretaria para a Economia e Finanças de Macau, o qual visa alargar a cooperação no âmbito da promoção do empreendedorismo e da cooperação económica e empresarial, com especial enfoque nas startups; a disseminação de oportunidades económicas, empresariais e de investimento em ambos os territórios e o estabelecimento de parcerias. A AICEP tem vindo a cooperar com as autoridades de Portugal e de Macau responsáveis pela segurança alimentar no sentido de a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) reforçar o seu papel em Macau, nomeadamente ao nível de ações de formação sobre leis, análise, fiscalização e segurança alimentar e estamos a apoiar o trabalho da ASAE para que este tipo de serviços seja prestado igualmente na China Continental. Temos igualmente apoiado a constituição de parcerias entre empresas portuguesas e chinesas, sobretudo no setor das infraestruturas, não só para desenvolver projetos em terceiros países, como também para a atração de investimentos estrangeiros diretos (IDE). Temos, ainda, vindo a participar ativamente nos trabalhos de constituição de plataformas logísticas de produtos dos PLP na China. Em conclusão, há muito trabalho que já foi feito, que está a ser feito, e que irá ser feito, e que passa pela consistente e coerente promoção das nossas potencialidades como país nas vertentes comércio, investimento e serviços, pela divulgação das nossas empresas e produtos, pelo networking e estabelecimento de parcerias institucionais. Temos procurado ser um intermediário, um facilitador de relacionamentos, com alguns inputs em termos de conhecimento e cobrindo eventuais falhas de mercado. Claro que ainda temos um longo caminho pela frente pois a nossa ambição é grande. 

Tendo em conta a finalidade do Fórum Macau, que é essencialmente a de fomentar as relações económicas entre Macau e os países de língua portuguesa e a China, sente que tem cumprido o seu papel? De que forma é que Portugal e as empresas portuguesas têm beneficiado com a existência do Fórum? O que é que mudou desde que foi criado? 

M.J.B. – O Fórum de Macau abraça três eixos de atuação que são absolutamente fundamentais para Portugal, a saber: o nosso relacionamento com a China, o papel de Macau no relacionamento da China e o mundo lusófono, e a promoção da língua portuguesa. A existência do Fórum de Macau legitima a importância do nosso país como plataforma de entrada na Europa e PLP. Por todas estas questões é indiscutível a importância da existência do Fórum de Macau. Testemunhamos uma evolução do Fórum de Macau desde a sua formulação inicial, em que a China estava particularmente focada na ajuda ao desenvolvimento dos PLP de África e da Ásia, passando mais recentemente a dar importância redobrada a Portugal e ao Brasil, nomeadamente no quadro da cooperação trilateral, atendendo precisamente ao grande potencial que o fórum pode e tem vindo a desempenhar enquanto plataforma de promoção de projetos conjuntos pelos países participantes, nos respetivos mercados. Como exemplos concretos já em curso desta “vocação trilateral”, podem ser citados os projetos desenvolvidos conjuntamente pela China Three Gorges e pela EDP no Brasil, os projetos de cooperação em Timor-Leste no domínio da aquacultura ou, mais recentemente, a constituição de um consórcio luso chinês – pelas empresas portuguesa Mota-Engil e chinesa China National Complete Engineering Corporation -, visando a realização de um grande projeto de infraestruturas em Moçambique. Este inegável potencial de cooperação trilateral é de grande relevância para as empresas portuguesas que, em parcerias com empresas chinesas e dos mercados lusófonos, criam sinergias para aumentar as trocas comerciais, aprofundar e consolidar os laços económicos – fortalecendo também os laços políticos e diplomáticos – tanto ao nível bilateral como multilateral, numa situação win-win para todas as partes envolvidas. 

Sou Hei Lam 02.02.2018

Este artigo está disponível em: 繁體中文

Related posts
Opinião

Liberalismo selvagem

Opinião

A Carne De Porco É Cara? Criemos Porcos!

Opinião

Pedido de Compensação Americano Terá Lugar Amanhã

Opinião

O caminho da montanha

Assine nossa Newsletter