Radicalismo conquista muçulmanos no norte do país - Plataforma Media

Radicalismo conquista muçulmanos no norte do país

Há um histórico de atritos entre as autoridades moçambicanas e grupos muçulmanos que apelam a uma visão radical do Islão, no norte do país. Mas o ataque de 5 de outubro a Mocímboa da Praia não tem precedentes. A dimensão do grupo armado e os confrontos no mato, que se seguiram, fazem crescer as dúvidas sobre a real extensão da ameaça, que já terá provocado mais de 20 mortes.

“Estava a dormir quando ouvi um tiro. Pensei que fosse uma coisa normal”, mas os disparos continuaram e, logo depois, Maria Camissa, 28 anos, ouviu uma explosão. Era 1:00. “Foi uma bomba que criou pânico em toda a gente aqui em casa”: ela, o marido e três filhas. À beira da habitação, junto ao bairro dos pescadores, no meio da noite, os vizinhos espreitavam para a rua, falavam uns com os outros, com medo, sem saber o que se passava. A resposta estava noutra ponta de Mocímboa da Praia, onde Suleiman Abdel Mane, 42 anos, residente no bairro de Nanduadue, deu de caras com homens armado à porta de casa. “Tinham catana, faca e metralhadora e um disse para eu não ter medo porque eles só andavam atrás da polícia”, recorda.

Quatro elementos deste grupo chegaram à esquadra da Polícia da República de Moçambique (PRM) em Mocímboa no início da madrugada de 5 de outubro, vestidos de túnica, fingindo que iam entregar um ladrão – dois deles seguravam um outro. Quando o agente de serviço puxava a cadeira para iniciar o registo da ocorrência, houve um que levantou a roupa e puxou por uma catana que trazia escondida, desferindo um golpe na cara do polícia – enquanto os outros três imobilizaram o resto dos elementos que estavam na esquadra.

Na altura em que outros agentes tentaram socorrer os colegas, já só conseguiram lá chegar enfrentando o fogo das metralhadoras de vários outros elementos que invadiam Mocímboa. A polícia fala num grupo de 30. Suleiman diz que eram muitos mais. Já havia um histórico de atritos entre as autoridades e muçulmanos na região, mas nunca um ataque desta dimensão.

Tinha início uma série de confrontos na vila e arredores, na província de Cabo Delgado, norte de Moçambique, que se prolongaria de forma intermitente por 48 horas – e que obrigaria à mobilização de reforços de Mueda, Palma, Nangati, do comando provincial de Pemba e ainda das regiões vizinhas de Nampula e Niassa.

Os acessos à vila foram fechados pelas autoridades, instituições e serviços (como escolas e bancos) não trabalharam e a população ou fugiu para o mato ou escondeu-se em casa, opção esta de Suleiman e família. “Foram dois dias sem ir buscar comida à rua” e em que ele, a mulher e dois filhos, remediaram-se como puderam.

Segundo os números oficiais, morreram dois polícias e 14 atacantes – sendo o mesmo grupo armado suspeito da morte de mais quatro homens das autoridades num outro confronto ocorrido uma semana depois, em Maculo, aldeia a norte, em que terão sido também abatidos sete agressores. Pelo meio, é também atribuída ao grupo armado a morte de um secretário de aldeia. Há um número incerto de feridos. Faltam confirmações oficiais. Desde dia 10 que as autoridades deixaram de fornecer números sobre os confrontos. Só o tempo dirá o que o mato esconde.

O administrador do distrito, líderes religiosos e a população dizem que os agressores são jovens islâmicos que frequentavam uma mesquita em construção no bairro de Nanduadue, onde já mais ninguém ia. Costumavam “insultar o administrador [do distrito] e o presidente” do município, defendendo apenas e só a lei do Islão, dizendo que se devia sobrepor à autoridade do Estado. “As pessoas já tinham medo de ali passar”, acrescenta, e já tinham alertado as autoridades, motivando ações de fiscalização ali e em mesquitas noutros pontos da região, o que por vezes também tinha um efeito inverso: gerava atritos entre comunidades muçulmanas e autoridades policiais.

A delegação do sul de Cabo Delgado do Conselho Islâmico de Moçambique dirigiu em setembro uma queixa ao diretor provincial de Justiça sobre a “má atuação” da polícia, ao ferir “as regras de acesso ao local sagrado”, no caso, uma mesquita, na aldeia de Nanhupo, Namanhumbir.

Em Mocímboa da Praia, o espaço que o grupo ocupava está hoje vazio. Encontrar alguém que tenha requentado a mesquita revela-se tarefa impossível. “Se ouve alguém, deve estar escondido”, diz fonte local. O mesmo se aplica a familiares ou amigos chegados. Ninguém quer ir parar às mãos da polícia moçambicana.

Apesar de se autointitularem Al-Shabaab, aparentemente os membros não têm ligação com o grupo terrorista do sul da Somália (o nome, uma alusão a juventude, em árabe, é usado por vários movimentos no mundo) e a polícia, que anunciou já ter feito 52 detenções, apresenta-os como moçambicanos – sendo certo que já ouve um número indeterminado de libertações. 

A liderança continua a ser uma incógnita. “Alguns deles são nossos filhos de vários bairros e aldeias. É uma miscelânea de cidadãos que se meteram nesta confusão”, aponta o administrador do distrito, Rodrigo Puruque, ele próprio muçulmano. “O que os faz assemelharem-se ao Islão é a veste, para facilmente se juntarem às mesquitas” e tentarem recrutar mais membros para as suas fileiras.

Saide Bacar, líder muçulmano em Montepuez, sudoeste de Cabo Delgado, disse à Lusa que a “seita” usa dinheiro para arregimentar moçambicanos “que não estudaram”, que vivem “pobres e esfomeados” e a polícia tem anunciado que parte dos detidos reconheceu ter sido aliciado com verbas como 2500 meticais (35 euros) para se juntar ao ataque a Mocímboa.

A presença de um discurso radical e insurgente que tenta cativar público na província de Cabo Delgado sobressaiu “de uma forma mais identificada” durante “uma grande movimentação de deslocados” oriunda de zonas de África mais a Norte, em passagem por Moçambique, por alturas de 2011, em direção à África do Sul, refere Rodrigo Puruque. “Aproveitando a facilidade” de se misturarem com outros migrantes, o administrador acredita que vários mobilizadores tenham ficado desde então pela zona, procurando moldar as comunidades.

Outros insurgentes terão sido moldados desde crianças em escolas corânicas (ou madraças, onde se ensina o Corão, livro sagrado do Islão) no estrangeiro, através de angariadores que geralmente apresentam boas referências e prometem às famílias boa educação para os filhos no estrangeiro. “Internamente temos muitas madraças a ensinarem bem o Corão”, pelo que o administrador que acabar com a saída de crianças para o exterior. Quando lá chegavam, em vez do Corão, “aprendiam o uso da força do músculo e da arma. No fim voltaram, são nossos filhos e por isso foi fácil enganar os outros”, refere.

No seu mais recente discurso para a população de Mocímboa da Praia, o administrador distrital deixou também bem vincada outra vontade do Governo: “ninguém mais deve tapar a cara”, numa alusão à burca integral das mulheres – ou seja, há sinais de radicalismo que não vão ser tolerados.

Nassurulahe Dulá, líder do Congresso Islâmico em Pemba, capital da província, fala de um grupo que isola do resto do mundo.  “Quando tentamos confrontá-los com o alcorão, eles fogem”, trabalham “às escondidas, têm medo de enfrentar as pessoas” e a influência revela-se de outras formas: “Sabemos que fazem três orações por dia” em vez das cinco tradicionais, exemplifica. “Não aceitam a lei do governo”, só aceitam ditas leis islâmicas, que as instituições religiosas dizem desconhecer e cuja natureza “contradiz o que está no alcorão”.

Nassurulahe Dulá dá voz a um receio da comunidade islâmica no norte de Moçabique, cuja imagem diz estar a ser afetada pela ação dos novos recrutas insurgentes, temendo que “a situação se possa radicalizar” numa altura em que a Frelimo, partido no poder, e Renamo, maior força da oposição, se aproximam de um novo acordo de paz no país. À beira de um momento histórico, dispensam-se perturbações, conclui. 

Luís Fonseca-Exclusivo Lusa/Plataforma Macau

Este artigo está disponível em: 繁體中文

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