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A lógica do Império

Uma leitura atenta da imprensa ocidental revela esta semana duas leituras em espelho: primeiro, o enorme consenso em torno do poder estilo celestial exibido por Xi Jinping; depois, uma fixação tal no homem e no tamanho do seu poder que pouco ou nada se diz sobre o que pensa e as consequências de tanto poder concentrado num país tão determinante para a economia mundial. Há, de facto, uma estética imperial. Mas há bem mais do que isso.

Em direção a Macau, mantém-se a narrativa oficial; embora num tom mais musculado. Hong Kong é naturalmente o que mais o preocupa, mas o discurso da mão dura tem ainda outra nuance: a dinâmica da autonomia das regiões autónomas, embora reafirmada, é conduzida pelo centro – seja qual for a pressão nas margens autonómicas. Claramente, o foco é a reunificação plena, alavancada pela Grande Região do Delta.

Não é surpresa em Macau o poder crescente do líder, nem é essa a questão. Nem há cá sentimento antinacionalista nem o status quo levanta questões. Se já era subserviente, mais agora será. Seja lá o que for que está a acontecer na China, há medo. E sente-se aqui. Cada vez mais importante é medir a leitura que Pequim faz hoje da autonomia. E não há grandes sinais neste congresso: Quanto há relevância política dos futuros governantes locais, não se augura grande futuro. 

Olhando para o mapa mundo e para a diplomacia chinesa, o que é mais difícil é perceber como pode Xi Jinping suprir os custos de imagem a que não escapa um regime neo-maoísta. Figuras como Putin e Trump sugerem que o mundo se deixa seduzir por autoritarismos excêntricos, mas não parece nada ser esse o caminho de Xi Jinping.

Esta tensão entre a concentração do poder no centro do império e o impulso da ambição externa é milenar na China. Faz mesmo parte do ADN do Império. Dir-se-ia, pelo tom dos discursos no Partido Comunista, que os nacionalistas conservadores viraram o país para dentro. Contudo, a marca da China, em todo o lado, ainda desmente essa ideia. 

A Macau interessa que vingue em Pequim a tese da internacionalização. Porque a uma autonomia como esta respira melhor e faz pontes que podem ser relevantes. 

Paulo Rego

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