Eixo do mal revisitado - Plataforma Media

Eixo do mal revisitado

Trump encontrou o inimigo que tanto jeito lhe dá, o perigo externo que disfarça o fracasso da política interna. Kim Jong-un, “the Rocket Man”, põe-se a jeito. Brinca aos mísseis para cimentar a monarquia comunista, conceito esse tão estranho como a própria estética de um regime que põe bonecos marciais no telejornal. O tempo ali parou. Não por acaso; não porque o ditador seja louco. Mas porque esse é o racional do regime. O que mais assusta neste faroeste do novo mundo é que ambos sabem bem o que estão a fazer; ambos estão convictos de que isso lhes serve; ambos têm um ego do tamanho do mundo, convencidos que tudo o que fazem é o que deve ser feito.

É claro que o “Cowboy” tem fãs. Países como a Coreia do Sul ou o Japão gostam de ouvir gritos e ameaças. Essa é a lógica que os domina, como é também a dos israelitas perante a ameaça árabe. O pequeno ditador, esse, serve aparentemente os interesses de quem desafia o império. Potências emergentes como a Rússia e a China não gostam – e com razão – de ver soldados americanos à porta. A proposta diplomática que lançam tem o seu próprio racional: americanos fora, controlam eles o bicho mau. 

Cometem contudo dois erros: primeiro, dão de si próprios a imagem de quem já não controla Kim Jong-un; depois, desvalorizam a circunstância de estarem a lidar com egos descontrolados que vivem num mundo supostamente extinto, mas que vem de longe. Já vimos este filme antes. Muito antes de Obama, entre os Bush pai e filho, uns jovens da direita radical e messiânica escreviam teses sobre o eixo do mal que era preciso dominar. Iraque e Coreia do Norte eram os demónios que era preciso abater. Nomes como o de Condoleezza Rice ou o de Donald Rumsfeld dizem hoje pouco ao mundo. Mas já mandaram nisto tudo. E, sim, invadiram o Iraque.

Nada disto interessa a ninguém, a não ser aos poucos a quem interessa muito. Mas esse mundo tem de acabar. Era suposto ter já acabado. E tem de ser posto na ordem.  

Paulo Rego

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