Histórica Keng Seng fecha até ao fim do mês

por Arsenio Reis

Tem nome de agência de importação e exportação, situa-se numa rua secundária e tem uma montra pouco atraente. Mas lá dentro a loja Keng Seng Trading Agency esconde livros, revistas e materiais para artistas. Mais de três décadas depois de abrir, deve encerrar até ao fim do mês.

Abriu em 1985, numa altura em que o número de artistas do território era ainda mais diminuto do que hoje é. “O patrão está velho e não quer continuar com a loja”, conta a gerente, Jennie Chan. O espaço vende materiais para artistas, como tintas e pincéis, livros e revistas da área.

A loja começou por ser sobretudo um espaço para designers. “Mas agora os designers já só usam computadores”, acrescenta a gerente. Por isso, hoje são outros os profissionais que por ali passam. O material vem do território vizinho.

Não é um negócio “rentável”, até porque o número de artistas do território é relativamente pequeno. Mas por ali passavam com frequência todos os nomes que hoje são conhecidos em Macau. “Konstantin [Bessmertny], Denis [Murrell]”, elenca, a título de exemplo. E outros como Carlos Marreiros, Adalberto Tenreiro ou Mio Pang Fei. 

O proprietário é um empresário de Hong Kong sem ligação ao mundo da arte. Foi sempre Jennie Chan que deu a cara pela loja de Macau, tornando-se “amiga” de vários artistas. Aliás, no meio dos materiais que ali se acumulam nas estantes, está uma aguarela de Lai Ieng e dois ou três desenhos de Adalberto Tenreiro, com a dedicatória “para Jennie”, assinalando a amizade.

“Foi o primeiro sítio em Macau onde artistas e designers podiam vir buscar materiais, livros e revistas”, conta Denis Murrell. O ambiente era acolhedor, com a gerente a permitir que os clientes ali permanecessem horas a fio em busca do que lhes interessava. “Deixava que ficássemos a conversar uns com os outros durante horas. Era uma casa para os artistas e designers,” comenta.

“Não há muitos sítios em Macau para comprar tais coisas — paga-se uma renda muito alta para uma loja do género”, acrescenta o artista. “São produtos que ficam em armazém durante anos; depois, hoje em dia, as pessoas estão a comprar material em sítios como o Taobao [portal chinês de comércio eletrónico]”, diz.

Agora que a Keng Seng está prestes a fechar, é uma parte da história que se perde. E uma segunda casa para os artistas do território.

Luciana Leitão

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