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Lembrando os velhos tempos no Festival Cheng Ming

Este ano, o feriado do Festival Cheng Ming foi no dia 4 de abril, e muitos cidadãos deslocaram-se aos cemitérios de Macau e das ilhas para venerar os seus antepassados e realizar a limpeza dos túmulos. Como se costuma dizer, neste dia o luto é coletivo. Todos os anos, por esta altura, os residentes realizam a limpeza das campas, a veneração dos antepassados e o luto pelos que partiram. Este costume tradicional leva muitos familiares, mesmo aqueles que vivem em partes longínquas, a relembrarem os seus entes queridos. Os cidadãos de Macau que deixam a sua terra para viver e trabalhar em regiões vizinhas como Hong Kong frequentemente regressam a Macau por esta altura para visitar os cemitérios com os seus familiares e venerarem os antepassados (em Guangdong, Hong Kong e Macau este costume é chamado de ‘baai saan’). Alguns cujas campas dos antepassados se situam na China continental regressam à terra-natal com um ou dois dias de antecedência para aí realizarem a limpeza dos túmulos, demonstrando assim a sua piedade filial.

No passado, antes da abertura económica da China, o regresso à terra-natal para veneração dos antepassados não era uma tarefa fácil. Embora a fronteira não estivesse de forma alguma trancada à chave, para entrar na China continental os cidadãos de Macau tinham de possuir um documento de identidade e receber a aprovação de entrada depois da devida inspeção. No princípio dos anos 1950, quando o Governo de Macau começou a emitir os bilhetes de identidade de residentes da região, existiam muitas restrições, como a necessidade de apresentar uma certidão de nascimento do hospital ou certidão de batismo da igreja, para além do custo monetário (equivalente ao salário de vários dias de um residente comum) e do facto de não ser algo obrigatório, o que fez com que o número de macaenses que se deslocou à esquadra para solicitar um bilhete de identidade não fosse muito alto. É de referir aqui que o pai do meu velho colega Lei Foc Lon era detentor do bilhete de identidade nº 2, mas quanto a quem possuía o bilhete anterior é algo que desconheço.

Embora a população de Macau na altura rondasse apenas os cem mil, o número de pessoas que queria regressar à sua terra-natal para o festival não era pequeno. A Associação Comercial de Macau emitia por isso documentos de identificação, contendo apenas o nome, idade, origem, ocupação e morada da pessoa, e com isto as pessoas de Macau podiam receber do Exército de Libertação Popular na fronteira uma “Carta de Regresso à Terra-Natal de Compatriota de Hong Kong ou Macau”, e assim entrar na China continental. Uma vez que o número de pessoas que regressava à sua terra-natal se situava nas dezenas de milhares, o Exército de Libertação Popular aplicava uma política preferencial durante um período de três dias, estipulando que aqueles que apenas se deslocavam para zonas que não ficavam além de Zhongshan e regressariam dentro de poucos dias não necessitavam de uma carta de regresso. Por isso, num período de três dias na altura do Festival Cheng Ming, um enorme número de cidadãos de Macau fazia fila nas Portas do Cerco para visitar as campas dos antepassados em Zhongshan ou Zhuhai. Alguns sindicatos, seguindo o exemplo da Associação Comercial de Macau, começaram a emitir documentos semelhantes, sendo substituídos por cartões de membro destas organizações depois do motim 1-2-3 de 1966.

Os anos 1960 foram o período da Revolução Cultural da China, e embora a população de Macau pudesse através dos documentos emitidos por estas organizações solicitar em Gongbei uma “carta de regresso” para visitar as campas e familiares na sua terra-natal, o processo ainda assim não era fácil. Em primeiro lugar, no Pavilhão de Lótus de Gongbei era necessário passar pela inspeção e interrogatório do Exército de Libertação Popular, onde perguntavam coisas como o nome, o local de origem ou a ocupação. Ao questionarem sobre o local de origem, os militares perguntavam ainda se na terra-natal em questão a pessoa ainda possuía familiares, quais os seus nomes, ocupações, situação geral, forma de contacto, etc. Os militares que efetuavam o questionário falavam todos cantonês, mas a sua conduta era extremamente solene e fria. Depois de terminado o interrogatório e assinados os documentos relevantes, era ainda necessário ficar sentado à espera da dita “carta de regresso”. Contudo, durante estes 30 a 45 minutos de espera ninguém corria o risco de se sentir só, pois havia sempre mais uns quantos militares do Exército de Libertação Popular que vinham ter consigo para recitar ou cantar em conjunto excertos do Livro Vermelho (como é óbvio, para além dos documentos do sindicato, a coisa mais importante a trazer era uma cópia do Livro Vermelho). Para além disso, depois de chegar à terra-natal, as pessoas tinham de se dirigir à esquadra local juntamente com os familiares e com respetivas cartas de regresso e registos de agregado para aí tratarem das burocracias relativas ao sistema de registo hukou, burocracias essas que requeriam ainda uma anulação antes do regresso a Macau, caso contrário estaria a ser cometida uma imperdoável ofensa ao sistema chinês.

Depois da abertura económica da China, a “Carta de Regresso à Terra-Natal de Compatriota de Hong Kong ou Macau” foi substituída pelo “Certificado de Regresso à Terra-Natal de Compatriota de Hong Kong ou Macau”, e os militares do Exército de Libertação Popular responsáveis pela inspeção foram também substituídos por inspetores do Ministério de Segurança Pública. O número de cidadãos de Macau a requerer o bilhete de identidade também aumentou de forma constante com o desenvolvimento social e crescimento da população. Um número infindável de cidadãos de Macau obtém atualmente o bilhete de identidade no Edifício China Plaza da Avenida da Praia Grande, e o papel histórico de emissão de documentos pela Associação Comercial de Macau e outras organizações há muito que teve o seu fim. 

DAVID Chan 

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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