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Incerteza no horizonte

A quebra das exportações africanas para a China nos anos mais recentes e os esforços de Pequim para controlar a saída de capitais do país apresentam um cenário de incerteza nas relações China-África, apesar dos grandes compromissos assumidos com o continente. Janet Eom, investigadora da China Africa Research Initiative da Universidade John Hopkins, nos Estados Unidos, diz que é preciso esperar para ver. Mas uma retirada americana da geografia africana poderá, apesar de tudo, potenciar o papel de Pequim.

– O ministro chinês dos Negócios Estrangeiros, Wang Yi, muito recentemente reafirmou os compromissos da China com o continente africano, de afetar 60 mil milhões de dólares à região no curso dos próximos três anos. Vemos no entanto que as autoridades chinesas têm vindo a tentar conter a saída de capitais do país. É notada alguma redução em ajuda ou investimento nos países africanos?

Janet Eom – É algo sobre o que temos dúvidas também. O Fórum de Cooperação China-África, o FOCAC, tem-se realizado desde 2000,  a cada ano os compromissos têm aumentado, e em grande parte temos assistido a um aumento da atividade económica. Mas uma das questões que se levanta é a de saber se os países estarão em condições de os cumprir. Não vemos um grande abrandamento neste ponto, mas é algo que julgamos que pode acontecer nos anos próximos. Não sabemos se haverá um verdadeiro aproveitamento destes compromissos. Muitas vezes, mesmo perante uma promessa de 60 mil milhões de dólares, os compromissos não são totalmente realizados. Não é algo em que as pessoas pensem frequentemente, mas quando vemos os títulos julgamos que a realidade é aquela, sem atender aos indicadores reais da atividade económica com origem na China. Não é sempre esse o caso. Não sabemos com certeza o que se está a realizar concretamente, mas é bastante razoável pensar que poderá haver algum abrandamento.

– Refere as dificuldades que os próprios países africanos estão a enfrentar para ir ao encontro dessas metas. Especificamente, que países têm as maiores dificuldades?

J.E. – Estou a pensar em concreto nas trocas comerciais. Temos visto que nos anos de 2014 e 2015 o comércio entre China e África esmoreceu bastante. Muitos exportadores africanos de recursos naturais foram especialmente atingidos. Por exemplo, países como Angola são particularmente afectados com a queda dos preços das matérias-primas e descida das exportações africanas. Temos visto a tendência no quebra dos volumes de trocas comerciais e teremos de perceber se continua em 2017. 

– Há da parte dos governos dos países africanos uma expressão de preocupação ou uma diferente abordagem em relação à China?

J.E. – É difícil dizer. Se há preocupações, estas não são públicas. 

– Os observadores das relações China-África têm dado conta de um maior envolvimento do sector privado chinês em África, e em particular na indústria manufatureira. Quão visível é esta tendência e em que países ocorre com maior impacto?

J.E – Não tenho os dados quantitativos, mas o nosso website acompanha esses números, embora não tenha ainda a atualização da situação em 2016. Mas o que posso dizer é que, definitivamente, no que diz respeito à manufactura há alguns países que emergiram como destinos prioritários de investimento manufactureiro chinês. Um desses países é claramente a Etiópia, em razão de haver fortes compromissos assumidos pelo Governo local para com estes projetos. A fábrica de sapatos da Huajian às portas de Adis Abeba foi um dos primeiros grandes investimentos em manufactura. Tem continuado a crescer a criar programas de formação. Este é o exemplo imediato de sucesso neste sector que podemos apontar.

– Os programas de formação local vêm responder às preocupações dos governos locais e também aos receios de que a mão-de-obra dos países destino de investimento não estaria a ser aproveitada. Quão importante é para estes países conseguirem este compromisso por parte da China, e por outro lado quão importantes são estes programas para a imagem que a China tem no Continente?

J.E. – Claramente, é assumido que os investidores chineses trazem consigo mão-de-obra. Mas, efetivamente, chegámos à conclusão de que esse não é o caso, simplesmente porque é demasiado caro e pouco prático deslocar esses trabalhadores. Concluímos que há muitos trabalhadores locais ao serviço de vários destes projetos. Os governos locais têm procurado que, nos compromissos feitos, seja assegurado que há uma alta percentagem de mão-de-obra local nos projetos chineses. Isso tem ajudado. A questão da imagem também é importante. Ao longo dos anos, a responsabilidade social das empresas chinesas tem-se desenvolvido, e certamente este resultado está ligado a essa reivindicação. Mas, mesmo desde início, mostrou-se sempre mais conveniente o recrutamento de locais. Os desafios prendem-se com a necessidade de formar os trabalhadores que não têm as competências necessárias às operações de uma fábrica, mas temos assistido à implementação de vários programas de formação porque são uma necessidade. Julgo que só é de esperar que o compromisso com a formação seja continuado.

– A ideia de uma nova realidade de produção ‘Made in Africa’, após anos em que preponderava o ‘Made in China’, é verosímil à medida que há mais deslocalização nas cadeias de produção chinesas?

J.E. – Com o aumentos dos custos de produção e mão-de-obra na China, esta é uma tendência que deve continuar. Já assistimos às operações chinesas serem deslocalizadas para os países do Sudeste Asiático, onde os custos com o trabalho e produção são bastante mais baixos. Um dos desafios que África coloca no entanto é o de uma falta de infraestruturas e de vias de comunicação. Esse é o principal obstáculo a um programa desta natureza, mas há esforços concretos para o contrariar. O acesso a materiais de construção e a criação infraestruturas rodoviárias são necessários para que esta ideia se torne uma realidade.

– Os Estados Unidos têm sido uma das principais fontes de financiamento de África, em termos de investimento. A nova Administração do Presidente Donald Trump tem reservado poucas palavras ao envolvimento do país com o continente africano e pode antecipar-se uma redução dos compromissos na ajuda ao desenvolvimento. Isto poderá apresentar-se como uma oportunidade para o reforço da presença chinesa em África?

J.E. – A nova Presidência tem-se referido pouco a África, o que se reflete no Departamento de Estado e no Pentágono. Mas é muito difícil saber o que acontecerá. É preciso aguardar para ver como a Administração Trump vai lidar com África. Mas, à primeira vista, podemos esperar uma retirada. Nesse caso, definitivamente faria sentido que a contraparte chinesa se esforçasse por preencher este vazio. 

Maria Caetano

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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