Ignorar pode não tornar a América grande

por Arsenio Reis

As posições transitórias de política externa e trocas diplomáticas pouco ortodoxas de Donald Trump fizeram dos Estados Unidos um parceiro imprevisível em assuntos internacionais, particularmente nas relações sino-americanas e nas questões do Pacífico.

Pôr um fim ao acordo comercial TPP significa que a China pode expandir a sua esfera de influência na região do Círculo do Pacífico, enquanto outros aliados e amigos dos Estados Unidos procuram um parceiro comercial mais fidedigno na sua proximidade. Com a solidificação destas realidades geopolíticas, irão as suas promessas em campanha de “Tornar a América Grande Novamente” eventualmente transitar para “Tornar a China Grande Novamente” e fazer dos EUA um país dispensável?

A China está a tomar nota de que os Estados Unidos em “declínio” estão a abandonar a sua visão comercial de origem e a delegá-la para a missão comercial da China através da Iniciativa Faixa e Rota. Durante a Reunião de Líderes Económicos para Cooperação Económica da Ásia-Pacífico no Peru em novembro passado, o presidente Xi Jinping reafirmou que a China e a Associação de Nações do Sudeste Asiático irão efetivamente convidar as nações-membro do TPP a juntarem-se à Parceria Económica Regional Abrangente apoiada por Pequim.

É provável que a experiência prática de Trump no seu cargo venha em breve trazer a consciencialização de que os freios e contrapesos no sistema político norte-americano significam que governar o país é diferente de gerir uma empresa privada.

De qualquer das formas, Trump e a sua equipa irão certamente mudar de rumo, particularmente no que diz respeito à China.

Tal como a sua outra retórica instigadora durante a campanha presidencial, Trump acusou Pequim de ser responsável por “violar” os Estados Unidos com as suas políticas comerciais. Quando se aperceber de que a relação comercial mutuamente benéfica entre a China e os EUA é mais complicada do que isso, Trump não terá outra opção senão reforçar os laços transitórios China-EUA sem ficar atrás da liderança chinesa e o seu poder regulamentador na arquitetura comercial global.

Ignorar a China seria um erro. A relação sino-americana tem sido mutuamente benéfica para os dois países. O governo de Trump dificilmente pode “Tornar a América Grande Novamente” sem “tornar a China grande novamente”.

Os Estados Unidos ainda dependem da cadeia de fornecimento global. Quando o governo de Trump começar a lidar com outros países, o “elefante” na mesa de todas as negociações comerciais será a China.

Esta relação bilateral multifacetada em evolução é intrinsecamente complicada, porém mutuamente benéfica para os Estados Unidos e a China, os quais estão ligados através de crescentes intercâmbios comerciais, de investimento e de recursos humanos. Independentemente daquilo que o governo de Trump tenha em vista relativamente à China e ao Mundo, é possível prever uma coisa: os Estados Unidos devem e irão certamente aceitar a inevitável ascensão da China.

Como titã autodeclarado dos negócios, Trump poderia “Tornar a América Grande Novamente” simplesmente aceitando a visão original de Thomas Jefferson por razões políticas: “Paz, comércio e amizade honesta com todas as nações; alianças intrusivas com nenhuma.”

Patrick Mendis

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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