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Capital míope

Longe vão os tempos em que a produtividade era menorizada em Portugal. Vagueava, discreta e perdida, nos corredores da academia; pouco se ouvia nos bastidores do poder; era engolida no discurso empresarial e nunca abria o apetite dos telejornais. Na transição do milénio, o jovem universitário Miguel Frasquilho, mais tarde deputado e secretário de estado da Economia, abanou as consciências com um estudo sobre produtividade comparada: no Luxemburgo, o segundo país mais produtivo da Europa, um terço da população ativa era composta por portugueses de uma geração sem estudos. Logo, a questão não é genética nem cultural; antes se centra na organização dos sistemas. Ou seja, na produtividade do capital.
O debate sobre a redução do horário da Função Pública, para 35 horas semanais, volta a estar mal apontado. Não é o trabalho ao sábado de manhã, tão valorizado em Macau, que resolve a reforma da Função Pública ou o atendimento ao público. Como não é porque sai ás 16h30 que um sueco produz melhor ou pior. Mas também é verdade que, estando a trabalhar, não atende telefones pessoais; não passa o dia a fingir que não viu porque não sabe responder ao email; não se esconde com medo de decidir; não tem medo do chefe, do cliente… ou da própria sombra.
O debate não é português – é mundial. E interessa muito a Macau, onde é evidente a urgência de uma reforma na Administração Pública; não centrada nas horas de trabalho, mas sim na qualidade do trabalho, na eficiência e no acerto dos objetivos estratégicos. O problema é que em Portugal são mais que muitos os capitalistas sem capital. Pediram tudo emprestado e, quando o negócio corre mal, salvam as casas e os carros e o banco que salve o que puder. Em Macau, a classe empresarial vicia-se em rendimentos garantidos pelo Executivo e num regime de trabalhadores sem direitos. Num cenário de falsa austeridade, certamente querem agora pagar para que façam menos e exigir mais. Essa é a típica miopia do capital. Porque o que é preciso é fazer melhor, diferente e com valor acrescentado. E essa responsabilidade é de quem manda – não é só de quem faz.

Paulo Rego

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