“Plataforma tem dificuldades em avançar” - Plataforma Media

“Plataforma tem dificuldades em avançar”

João Mesquita Ferreira, empresário e vice-presidente da Associação Comercial Internacional para os Mercados Lusófonos, vê em Macau recursos financeiros e intelectuais para exponenciar os contatos entre a China e os países de língua portuguesa. Mas é preciso uma nova mentalidade, que conjugue uma “visão” e uma “vontade” que ainda não se viram.

Plataforma – Qual é o real potencial da ligação da China aos países de língua portuguesa?

João Mesquita Ferreira – A plataforma tem os seus méritos: permite a aproximação de contatos e um certo limpar da sebenta que se foi desenhando. Contudo, por razões culturais, há dificuldade em avançar com as coisas.

Quando é que esse desenho começa realmente a ser traçado?

J.M.F. – Há 15 anos. Não quero aqui a afirmar que sou o mentor de coisa alguma, mas fui, de facto, um dos pioneiros desse conceito. Num projeto com a Nam Kwong, fui o primeiro português a levar a Lisboa cerca de 150 empresários de Zhuhai. Fizemos a primeira exposição de arts and crafts, na Feira das Indústrias, além de uma passagem por Espanha.

Qual era a percepção que esses empresários tinham dos mercados lusófonos mercados.

J.M.F. – Nenhuma; zero! Queriam ir, conhecer a Europa e abrir portas.

Portugal era uma porta europeia; mas não lusófona?

J.M.F. – Obviamente! Nessa altura não se falava sequer em África.

O projeto lusófono chinês é uma ideia para Macau? Ou é mesmo um projeto nacional?

J.M.F. – É óbvio que faz parte de um projeto da China; embora hoje seja difícil perceber qual o plano que a China tem para o mundo. As coisas não são planeadas em pormenor; parecem feitas um pouco em cima do joelho. Na minha opinião, há uma ideia geral e as coisas vão se gerindo ao dia.

Há muitas variantes estratégicas na China?

J.M.F. – Veja a crise financeira: o atabalhoamento com que as coisas acontecem, em relação às bolsas, é uma prova evidente de que a China pensa nas coisas, mas não no longo prazo.

É assim também no caso da plataforma lusófona?

J.M.F. – Há aquele ditado chinês: ontem já foi, hoje é que conta, amanhã logo de vê. O que está a acontecer na plataforma é também um pouco isso. As coisas são mais ou menos pensadas e escritas, mas depois é preciso implementá-las. É certo que a China tenta criar movimentos, com injeção de capitais e o envio de emigrantes para Angola e Moçambique, para depois tentar tirar daí proveitos.

Como vê a plataforma funcionar em Macau?

J.M.F. – Vou ser criticado por isso, mas o pessoal de Macau não está muito numa de ir para as áfricas. Por imposição do governo central e interesse estratégico na Lusofonia – sobretudo económico – vai-se impondo a plataforma em Macau. As coisas têm de rodar e é preciso dizer aos empresários que têm de fazer alguma coisa. Mas aquilo que se pretende é o desenvolvimento da China.

O que pode ser a plataforma? Uma sociedade de serviços?

J.M.F. – Exatamente! No contexto do negócio, é preciso o escritório para que as coisas aconteçam. Nos grandes negócios, as coisas são feitas entre governos – G to G. É assim com o petróleo, as matériasprimas, águas, etc. Não precisam de Macau para nada. Contudo, e por causa disso, os empresários de Macau podem ser ajudados a conquistar outros negócios na plataforma. Daí a criação de condições, nomeadamente com o tal fundo de mil milhões de dólares americanos…

Pouco aproveitado…

J.M.F. – Por razões culturais, nomeadamente ao nível dos bancos. Há formas financeiras de gerir os processos, nomeadamente em África, onde nada acontece sem olear os corredores, com comissões extra nos negócios, que o Fundo não permite. Não estou a defender que se promova a corrupção, mas é preciso alguma flexibilidade e capacidade de adaptação a esses mercados.

Os gestores do fundo queixam-se da falta de qualidade dos projetos. Faz sentido?

J.M.F. – Não comento isso porque não conheço os projetos. Mas o Banco da China está a avançar em grande velocidade para o Brasil, Angola e Portugal. Essa expansão é evidente. O problema não está aqui, está do outro lado.

Há ainda muitas fragilidades políticas e económicas, nomeadamente em África?

J.M.F. – É verdade, mas Angola continua a ser a grande aposta da plataforma. Acho é que Luanda vai ter de repensar a sua relação com a China, nomeadamente em relação ao petróleo. Uma coisa é vender a 100 dólares o barril; outra é vender a 40.

Moçambique não é também prioritário?

J.M.F. – É importante, mas está um pouco mais virado para a Índia, por causa da sua própria História. E os outros países africanos de língua portuguesa.

São mercados menos interessantes?

J.M.F. – Recebemos recentemente na associação uma delegação de promoção do investimento comércio externo (CCIP) vinda de Pequim, a quem deixei precisamente essa mensagem: não olhem para a plataforma como se existisse só Angola.

A oportunidade de Macau estará nos países menores?

J.M.F. – No caso de Angola e do Brasil a pode bem fazer tudo diretamente. Eu não de Macau para Angola exportar motorizadas. Há muitos anos entram contentores e contentores de produtos chineses, através da África do Sul, com operações de trading organizadas em Hong Kong. Não precisam de Macau para nada.

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“Criar uma plataforma logística” 

Em que é que Macau se deve especializar.

J.M.F. – Temos de trabalhar em sentido contrário; não para exportar produtos chineses, mas sim para importar produtos lusófonos. Uma das apostas, nomeadamente em Portugal, é alimentação. Poderia criar-se aqui uma plataforma logística, através da qual produtos portugueses – e lusófonos – pudessem entrar, ser inspecionados, passar pela inspeção sanitária e pela alfândega, sendo despachados para a China.

O que está anunciado deve ser mais um centro de exposição de produtos alimentares…

J.M.F. – Não vais expor conservas, pickles e vinhos num janelão enorme, que é lindo, mas não tem condições para isso. O que o IPIM está a fazer é muito importante, inclusivamente com a plataforma digital, mas também ninguém vai por numa página de e-commerce o preço das conservas e do vinho, para a concorrência ver.

A plataforma logística deve ser apenas de produtos alimentares?

J.M.F. – Começar por aí; desenvolver e insistir. Depois, diversificar para outras áreas. Podíamos, de facto, criar a plataforma logística através da qual os produtos alimentares possam entrar na China.

Entrar e sair?

J.M.F. –Para a exportação, a mecânica está montada. Mas para a importação não há nada. Há uma série de complicações que é preciso limpar e Macau tem obrigação de criar esse lobby junto de Pequim, porque é esse o interesse da China.

Há em Macau competências políticas, económicas e intelectuais para esse lobby?

J.M.F. – Não há, mas podem ser criadas. E há pessoas capazes de o fazer. Outras das críticas que se fazem – o Eduardo Ambrósio, presidente da nossa associação, é uma das pessoas que têm lutado por isso – é a questão de não haver resseguro para a exportação.

No caso de o importador não pagar?

J.M.F. – O risco do negócio está todo do lado do exportador e esse é um claro fator de inibição. É necessário criar crédito e resseguro, para que as coisas possam acontecer. Com a reserva financeira que Macau, estamos a falar de peanuts…

Neste caso, para Macau intermediar a exportação de produtos chineses?

J.M.F. – Também há gente capaz de avançar por aí mas, como não condições, não vão arriscar sozinhos. Tem de haver um fundo, gerido por companhias de seguro e uma companhia estatal por detrás. Ninguém quer fazer de D. Quixote.

Esse é o sentimento geral?

J.M.F. – Também por isso, os projetos não funcionam. Entretanto, é óbvio que há dificuldades do outro lado, porque há países de língua portuguesa ainda muito atrasados, que não criam condições para promover os negócios.

Mesmo com essa condicionantes, a estratégia da plataforma tem evoluído? Ou estamos quase no ponto de partida?

J.M.F. –A ideia persiste, está viva; mas não avança. Não vale a pena a apontar culpas a este ou aquele. Não estão é criadas as condições; por isso, faço um apelo à China para que crie junto do governo de Macau condições para que as coisas aconteçam.


 

“Uma escola da plataforma”

Consegue pensar num projeto que afirme verdadeiramente a plataforma lusófona em Macau?

J.M.F. – Já transmiti à Echo Chan e ao embaixador chinês que lidera o Fórum Macau que devia ser criada em Macau uma escola da plataforma. Antigamente, a administração britânica de Hong Kong enviava para Macau gente que estava seis meses ou um ano a aprender a íngua e os hábitos chineses. Depois integravam os quadros superiores do governo de Hong Kong e engrossaram fileiras de grandes empresas.

Está a pensar numa escola comercial? Vai começar agora no Instituto Politécnico um concurso que parece ter esse perfil…

J.M.F. – Sim, mas esse curso é para as gentes de Macau. Eu digo ao contrário: pessoal dos países lusófonos que viessem cá aprender como isto funciona. Se calhar o Politécnico pode fazer também isso, eventualmente com o apoio do Fórum Macau. A educação é a chave de tudo isto. É preciso conhecer a língua, a cultura, a forma de fazer negócios. E essa escola da plataforma seria o grande início de tudo isto. Macau tem essa capacidade financeira de atrair para aqui pessoas.

Com bolsas de estudo?

J.M.F. – Por exemplo. Escolhendo os melhores, que depois seriam verdadeiros mensageiros da plataforma. Senão continuamos a disparar tiros para o lado. A China não precisa de Macau para fazer negócios com a Plataforma. Ponto final, parágrafo. E isso tem de ser assumido.

Cabe a Macau aproveitar a oportunidade?

J.M.F. – Exatamente. E com a capacidade financeira que temos, é fácil. É preciso é que haja visão e vontade. Caso contrário andamos a falar na plataforma, fazemos fóruns, os ministros vão a todos os países… É tudo muito bonito, mas depois nada acontece.

Essa escola afirmaria Macau como centro de conhecimento?

J.M.F. – Essencialmente isso. Aliás, Macau tem sido sempre um local de espiões, de comércio e de intermediários. Não há cá grandes investidores, mas há pessoas capazes de intermediar, de serem consultoras, de facilitar negócios em todas as áreas.

Quais são as áreas de serviço que mais se podem desenvolver na lógica da plataforma?

J.M.F. – Para além da educação e da formação profissional, trading, traduções, consultoria… Todos os negócios que rodam à volta da plataforma.

A que que distância estamos dessa visão?

J.M.F. – As coisas em Macau andam três velocidades: devagar, devagarinho e lentamente. Se as pessoas tiverem espírito de abertura e forem um bocadinho mais ousadas, talvez na próxima geração as coisas aconteçam. Mas eu não queria ser tão pessimista.

Tem de haver tem para um processo…

J.M.F. – Agora que há um maior entendimento e que as pessoas tratam o tema por tu, é necessário criar condições para que todas estas ideias que vamos lançando

Paulo Rego

4 de setembro 2015

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