“FÓRUM DE MACAU PODE IMPULSIONAR INTERCÂMBIO LITERÁRIO ENTRE A CHINA E A LUSOFONIA” - Plataforma Media

“FÓRUM DE MACAU PODE IMPULSIONAR INTERCÂMBIO LITERÁRIO ENTRE A CHINA E A LUSOFONIA”

A literatura africana de expressão portuguesa está ainda pouco traduzida na China, mas o território, através do Fórum de Macau, pode ter um papel relevante na promoção do intercâmbio literário com os países da lusofonia financiando publicações e traduções. Quem o diz é o poeta e tradutor Yao Jingming, que acaba de lançar em Macau a obra “Palavras Cansadas da Gramática – Poesia e Fotografia” e de receber, em Chengdu, o Prémio de Poesia Li Bai.

O poeta e tradutor Yao Jingming – que escreve sob o pseudónimo Yao Feng – conversou com o Plataforma Macau pouco antes de partir em viagem para Chengdu, em Sichuan, onde foi receber no passado sábado, dia 18, o Prémio de Poesia Li Bai – nome do poeta chinês “que está para a China como [Luís de ]Camões está para Portugal”, explicou. “Na China muita gente gosta do meu estilo, da minha ironia”, diz Yao Jingming, que no início da mesma semana, no dia 13 deste mês, lançou em Macau a obra “Palavras Cansadas da Gramática – Poesia e Fotografia”, da editora portuguesa Gradiva.
A obra inclui versos escritos em português pelo poeta e, também, professor e investigador, que já traduziu os portugueses Fernando Pessoa, Eugénio de Andrade, Mário de Sá-Carneiro, o brasileiro Carlos Drummond de Andrade, entre outros, e decidiu, recentemente, regressar à área editorial e à Universidade de Macau, depois de ocupar entre 2012 e 2014 a vice-presidência do Instituto Cultural de Macau.
“Yao Feng conduz-nos por um sentir poético que se faz universal, externo às culturas e às civilizações, apesar de manter as suas raízes mergulhadas bem fundo no húmus da sua própria cultura. Como, aliás, Camilo Pessanha entendia a poesia”, descreve no posfácio do livro o jornalista, escritor e editor Carlos Morais José.
Yao Jingming nasceu e formou-se em Língua Portuguesa em Pequim, começou a traduzir literatura de expressão portuguesa nos anos 1980, é vencedor de vários prémios de poesia, e viu a sua primeira obra (“Nas Asas do Vento Cego”) a ser lançada em 1990, em Lisboa, onde residia na altura e convivia com escritores como Maria Ondina Braga – que viveu em Macau nos anos 1960. O poeta tem hoje obra publicada por editoras de Macau, Hong Kong, China Continental ou Nova Iorque, e considera que, apesar da monopolização da atividade editorial pelo Estado e da censura, “não é difícil publicar livros na China”.
“Na China todas as editoras pertencem ao Governo, mas a publicação está muito dinamizada, uma vez que as pessoas podem publicar através de outras formas”, explica. O autor acrescenta que os editores privados podem estabelecer acordos com as editoras estatais para aquisição de direitos de publicação de outras obras. No entanto, alerta, “você pode publicar, mas pode encontrar dificuldades em fazer chegar este livro às redes de distribuição do Governo”. Mas, garante Yao Jingming, “a boa poesia tem sempre leitores e tem um certo mercado. A poesia não morreu. Ela vive. Depende da qualidade, da saúde, digamos. Se tiver saúde, a poesia consegue sempre ganhar leitores e adeptos”, acrescenta.

TRADUÇÃO LITERÁRIA NÃO ATRAI ESTUDANTES DE PORTUGUÊS

A obra de autores de países africanos de língua portuguesa é, todavia, “uma realidade literária que está bastante ‘apagada’ na China”, diz o poeta, não obstante o interesse crescente pela literatura portuguesa e lusófona ( “O Livro do Desassossego”, de Fernando Pessoa conta já com várias edições; o autor brasileiro Paulo Coelho também tem tido sucesso). “A literatura, por exemplo, moçambicana, angolana, tem bons poetas, mas as pessoas não conhecem”, prossegue Yao Jingming. Esse desconhecimento “tem a ver com o obstáculo da língua”. “Agora, há cada vez mais pessoas na China a aprender português, mas ainda há pouca gente interessada na tradução literária. Não vejo muitos estudantes com esse interesse, porque é uma carreira difícil, que não promove o futuro a nível material. Aqui, em Macau, a tradução é bem paga [na administração e serviços]. Mas, a tradução literária não é um trabalho bem compensado e por isso não consegue atrair gente que se dedique a esta carreira”, lamenta o poeta.
Na China existem hoje “cerca de 10 tradutores de português para chinês”, prossegue Yao Jingming. “A geração mais velha, como Fan Weixin, que traduziu ‘O Memorial do Convento’ [do Nobel da Literatura português, José Saramago], já está reformado, apesar de ainda ter vontade de traduzir, mas já está com uma idade avançada, na nova geração não temos muitas pessoas com este interesse”.
Por outro lado, lembra Yao Jingming, o “bom tradutor é aquele que se faz com o tempo, a experiência, a prática, não é aquele que acabou de concluir o curso que consegue traduzir Eugénio de Andrade”.

FÓRUM DE MACAU PODE TER PAPEL ATIVO

Não basta, todavia, haver tradutores competentes para que se divulgue um autor. Na China, é necessário, também, que o livro seja “recomendado por um académico ou um tradutor” e que a editora veja interesse comercial na publicação da obra, esclarece Yao Jingming.
Por sua vez, Carlos Morais José, da Editora Livros do Meio , estabelecida no território, explica que “tem sido muito difícil publicar fora de Macau”. “As dificuldades são os custos de transporte e a distribuição nos países de chegada”, diz o fundador da editora que se dedica a publicar e divulgar em português obras fundamentais da cultura chinesa. “Já consegui publicar através de uma editora no Brasil um livro de uma escritora de Macau, da Fernanda Dias [Uma Leitura de Yi Jing], e em Portugal conseguimos publicar os ‘Quinhentos Poemas Chineses’, traduzidos para português, numa editora portuguesa, é assim que temos conseguido publicar fora de Macau”, acrescenta o editor.
Yao Jingming acredita que “Macau pode ter um papel mais ativo e dar um impulso neste âmbito cultural e literário” e “apoiar financeiramente a publicação de uma colecção de autores lusófonos”. “Macau tem contribuído muito para o intercâmbio comercial e económico entre a China e os países lusófonos, através do Fórum de Macau. Acho que o fórum poderá pensar em dar mais contributos também neste âmbito cultural, e elaborar um protocolo, um acordo de cooperação entre os ministérios da cultura dos diferentes países”, acrescenta.

ANTOLOGIA EM CHINÊS VAI INCLUIR POETAS BRASILEIROS E AFRICANOS

Carlos Morais José espera que, “as autoridades responsáveis pela cultura em Macau comecem a interessar-se realmente pela divulgação da cultura chinesa nos países lusófonos”, sendo que, “é para isso que Macau foi designado por Pequim”. “Um livro não é um espetáculo, um concerto, uma peça de teatro, é uma coisa que é para ficar, não faz muito estrondo, mas tem uma importância que só se vai ver daqui a muitos anos, quando as pessoas nesses países lerem e começarem a interessar-se pela cultura chinesa. Mas, para isso precisam do meio, e o livro é um meio fundamental, pelo menos para pessoas sérias, que estão interessadas em estudar as outras culturas e outras literaturas. Este é um trabalho lento, para ficar, para ser continuado, não tem fim, não vou conseguir nunca publicar tudo o que gostaria, há sempre mais coisas”, acrescenta Carlos Morais José.
Entretanto, a editora Livros do Meio, em conjunto com o tradutor Yao Jingming estão já a trabalhar na antologia de 500 poemas de autores de expressão portuguesa de diversos países da lusofonia, que vão ser traduzidos para chinês. “Esta obra poderá vir a incluir, não só autores portugueses, como também brasileiros – o Carlos Drummond de Andrade, Haroldo de Campos, e, talvez, Castro Alves. E, sim, angolanos, cabo-verdianos ou o moçambicano Mia Couto, porque não?”, avançou Carlos Morais José. O editor pretende que a obra inclua “sobretudo autores que foram importantes para a língua portuguesa”. “Queremos fazer um livro que dê uma perspectiva geral da poesia em português, desde as poesias medievais até aos nossos dias”, explicou Carlos Morais José.

Cláudia Aranda

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