Paulo Rego - O ARCO E A FLECHA DA AUTONOMIA - Plataforma Media

Paulo Rego – O ARCO E A FLECHA DA AUTONOMIA

 

Nomeados os cinco secretários que acompanham Fernando Chui Sai On no Governo de Macau, mais do que a análise individual de cada um dos novos governantes importa que encontrem capacidade interindividual e coletiva para cumprirem os grandes desígnios do desenvolvimento económico, da justiça social e do equilíbrio entre poderes institucionais e fáticos. Mas é também urgente que a cidade ganhe uma nova consciência da importância da sua afirmação regional e internacional, nomeadamente através da integração no Grande Delta do Rio das Pérolas e do redimensionamento do seu papel de ligação entre a China e os países de língua portuguesa. Diz um velho ditado chinês que a governação eficaz depende de dois instrumentos interdependentes, como no tiro ao alvo com arco e flecha. O arco representa o conhecimento, a capacidade de pensar e de planear; sendo a flecha o símbolo da capacidade de execução, da assertividade e da competência na concretização dos objetivos políticos.

A curta experiência política da Região Administrativa Especial, que agora comemora 15 anos de vida; a sua reduzida dimensão no contexto da nação chinesa; mas também a circunstância de o seu perfil civilizacional ter sido negociado entre Pequim e Lisboa, com princípios válidos para cinco décadas, ditaram uma forte influência do Poder Central na definição dos grandes objetivos estratégicos para Macau: primeiro a liberalização do jogo, que em menos de uma década criou a grande “Meca” mundial da indústria; depois a diversificação económica, ambicionando a criação de outras forças motrizes para além dos casinos; a integração regional, que alia o desígnio patriótico às potencialidades económicas do sul da China; e o projeto lusófono chinês, que potencia o recurso a ligações históricas com os países de língua portuguesa, no contexto alargado da internacionalização da China. Com várias alíneas entretanto inscritas, em cada destes desígnios, como são as apostas nas indústrias criativas, ou no segmento MICE (conferências, exposições e convenções), o desenho do arco tem contornos suficientemente nítidos, que não merecem sequer grande contestação teórica. O problema está na ineficiência da flecha e na falta de prática do arqueiro.

Na transição da adolescência para a maturidade, é natural que muitos dos governantes agora nomeados cumpram pelo menos dois mandatos, dessa forma garantindo uma transição estável para o futuro chefe do executivo que, daqui a cinco anos, sucederá a Chui Sai On. Mas o ciclo que agora se inicia, na tradição da planificação chinesa, terá no horizonte as próximas três décadas. Ou seja, preparando a RAEM para vir a ser aquilo que se pretende que seja quando terminar o período transitório de 50 anos, que resulta de um tratado internacional plasmado na Lei Básica. Se no campo dos grandes desígnios estratégicos sopram os ventos do norte – magistratura de influência conhecida e maioritariamente aceite – parece também não haver dúvidas, quer em Macau quer na China, que cabe ao alto grau de autonomia da Região encontrar agentes e formatos locais que revelem ser capazes de executar esses objetivos. Mas essa perceção não existe porque, de facto, não corresponde à realidade.

Essa é a tarefa hercúlea que aguarda pelos novos protagonistas políticos: gerir a integração na China, cumprindo os desígnios estratégicos que Macau não foi capaz de inventar por si, defendendo em simultâneo a sua legítima autonomia, que depende da prova de que é possível a Região ter pontaria e competência executiva. Não é uma tarefa fácil, nem depende apenas dos governantes, que terão de dar espaço e fomentar a iniciativa privada, bem como a sociedade civil em geral, para o compromisso com um novo paradigma de execução. A História recente demonstra que não é só o desenvolvimento económico e social, ou a harmonia política em Macau, que dependem disso. É o seu próprio legado autonómico que, no longo prazo, se joga a partir de agora. Está em cima da mesa muito mais que o destino político dos novos governantes: é urgente a demonstração de que Macau, governado pelas suas gentes, sabe utilizar o arco que tem para que as flechas que dispara atinjam os alvos definidos.

 

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