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Émilie Tran * – LUSOFONIA E FRANCOFONIA: OS DESAFIOS DA DIVERSIDADE CULTURAL

 

A lusofonia e a francofonia enfrentam desafios semelhantes: ambas têm tentado consolidar a sua posição na era pós-colonial, em que a relação centro-periferia foi substituída por relações políticas e económicas, desafios socioculturais e académicos, e em que a racionalidade económica tende a considerar a cultura como uma mercadoria. No mundo globalizado, o inglês tornou-se incontestadamente língua franca,  enquanto o mandarim tem ganhado popularidade na China devido ao elevado estatuto económico do país no contexto da economia mundial, facto que se reflete no aumento do número de Institutos Confucianos. Promover o multilinguismo e consequentemente a diversidade cultural significa usar o português e o francês de vários modos e em várias instâncias, desde organizações internacionais, educação e academia, até aos media e ao mundo digital em geral.

O português e o francês são línguas que partilham uma raíz comum, tendo-se ambas disseminado pelo mundo e exercido uma forte influência na história global. Na atualidade são faladas em cinco continentes por pessoas de culturas distintas. A lusofonia e a francofonia exemplificam, pois, a diversidade de culturas, mas ao mesmo tempo a interligação entre essas culturas. Apesar de a lusofonia e a francofonia estarem envolvidas na mesma luta contra os dois Golias, a língua inglesa e a chinesa, existem diferenças essenciais nas origens e nos percursos históricos das duas línguas.

 

A CPLP E A OIF: A CULTURA COMO APOSTA POLÍTICA

De um ponto de vista institucional, tanto a lusofonia como a francofonia têm organizações que as suportam e promovem: respetivamente a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e a Organização Internacional da Francofonia (OIF). A CPLP foi estabelecida em 1996 e é composta por 9 membros-estado (e seis observadores), e representa 240 milhões de falantes de português (250-360 milhões em 2050). A OIF foi estabelecida mais de vinte anos antes, em 1970, apesar do termo “francofonia” ter sido cunhado pelo geógrafo francês Onésimo Reclus, em 1880, com o intuito de classificar pessoas que em qualquer ponto o globo fossem falantes da língua. A OIF é composta por 57 estados membros (mais 20 observadores), representando 220 milhões de falantes de Francês (700 milhões em 2050). Ambas têm uma Carta e uma missão, nas quais reivindicam a propagação da respetiva língua, e em que se comprometem igualmente a contribuir para o desenvolvimento político dos seus estados-membros: enquanto os Estatutos da CPLP se comprometem a “promover a paz, a democracia, a o Estado de Direito,  os direitos humanos e a justiça social” (cf. art. 5-1e), a Carta da Francofonia apoia os valores universais, a democracia e os direitos humanos (cf. art. 1).

Portanto, para a CPLP e a OIF, a cultura não é uma mercadoria, mas uma aposta política. A relação entre a cultura e a política tem sido consistentemente um dos tópicos mais discutidos nas ciências sociais a partir de duas perspetivas complementares. Primeiro, os estados-nações têm sido confrontados com vários revezes nas suas respetivas políticas culturais, tais como, no caso da França, a luta pela democratização cultural. Em segundo lugar, as políticas culturais nacionais também competem com as forças da globalização. Nestas circunstâncias, a França transitou do conceito de exceção cultural para o de diversidade cultural, incluindo a diversidade linguística, defendida tanto pela francofonia como pela lusofonia.

 

DIVERSIDADE CULTURAL: SUBESTRUTURA ECONÓMICA E VONTADE POLÍTICA

Os economistas concordam em que  a diversidade cultural tem efeitos benéficos, contudo, pouco fazem para defender essa diversidade. Esta não é produzida pelo mercado nem é conseguida através de políticas nacionais restritivas. Tanto a francofonia como a lusofonia têm um papel político fundamental na construção de identidades culturais que ultrapassem as fronteiras dos respetivos estados. Atualmente, contudo, e apesar de aspirarem ambas a tornar-se agentes de um desenvolvimento sustentável, quer a lusofonia quer a francofonia têm uma influência económica limitada (apesar dos esforços de integração económica regional).

O desenvolvimento tem sido uma preocupação central nos últimos 50 anos. Primeiro, acreditava-se que a iniciativa tinha de partir do Estado, e que à Nação competia enquadrar a ação. A seguir, o mercado e a globalização tornaram-se as principais forças diretivas. Quer as teorias de economia política sejam neo-kenesianas ou neoclássicas, os seus argumentos enfrentam críticas da ordem da causalidade, do processo, da racionalidade, e do funcionamento. Dois terços da humanidade estão excluídos do desenvolvimento económico. Novos conceitos se tornaram prementes: igualdade, ética, governo e ecologia.

Por isso, a vantagem das comunidades lusófona e francófona é o conhecimento empírico adquirido sobre a diversidade, que tem sido demonstrado pelos estudiosos e que é rico e variado. No entanto, tanto à lusofonia como à francofonia falta uma forte ancoragem para um desenvolvimento económico e uma efetiva solidariedade.

A francofonia e a lusofonia formam comunidades internacionais, políticas e culturais baseadas em valores partilhados que emergiram de desenvolvimentos históricos em França e em Portugal, respetivamente. Uma vez que a identidade cultural já não pode ser encarada como pretexto para a dominação, o desafio está em colocar a cultura no centro da política, e através desse meio realizar a lógica da democracia. O compromisso expresso de fazer da diversidade cultural o objetivo central da CPLP e da OIF é um passo decisivo nessa direção.

A importância atribuída ao respeito pela diversidade cultural tornou-se incrivelmente óbvio em matérias como o desenvolvimento da paz e da segurança. Mas, em ordem a transformar o objetivo geral em resultados tangíveis para milhões de pessoas em países que partilham a herança da lusofonia e da francofonia, é necessário fortalecer os direitos humanos na sua dimensão cultural. Isto significa defender, em colaboração com a UNESCO, a definição e implementação dos direitos culturais tais como estão consignados na Declaração Universal da Diversidade Cultural daquela organização.

 

A QUESTÃO CENTRAL: O QUE LEVA AS PESSOAS A QUEREREM APRENDER PORTUGUÊS E FRANCÊS NO SÉCULO XXI?

Quaisquer que sejam as considerações socio-económicas a culturais com vista à promoção da lusofonia e da francofonia, a futura disseminação ou desaparecimento de qualquer língua não pode ser visto unicamente como o resultado de uma política nacional. A evolução de qualquer língua reside, em última análise, nas escolhas pessoais de cada indivíduo, o qual encontra no processo de aprendizagem de uma nova língua um elemento de utilidade ou de prazer. O Cantonense, embora não sendo a língua oficial da China, mantém-se como língua viva através do uso que tem na cultura pop, no cinema e também no revivalismo literário.  O coreano, falado apenas na Coreia, nunca atraiu muito interesse até a música pop coreana, as séries televisivas, os filmes, os cosméticos e o design de moda a terem propagado muito para além das fronteiras da Coreia. Noutros tempos, um país fechado sob uma ditadura militar, a Coreia do Sul tornou-se uma das maiores referências da cultura asiática, incutindo na juventude desta região o desejo de aprender coreano como língua estrangeira.

Em última análise, a questão chave para a lusofonia e a francofonia é levar as gerações mais novas a interessarem-se por aprender outras línguas para além das línguas maternas, assim como a língua franca do mundo globalizado.

 

*Colaboração da Universidade de São José

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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