Fernando Manuel * - MARIA LUÍSA - Plataforma Media

Fernando Manuel * – MARIA LUÍSA

 

A incapacidade de mudar de opinião não é só sinal de casmurrice, é sinal de estupidez ou, pior ainda, sinal de uma senilidade precoce.

Namorei com uma miúda em 1962 por quem estava apaixonado loucamente. Chama-se Maria Luísa, mas ela é de um temperamento impulsivo de maneiras muito francas e frontais, eu acabava de fugir do seminário de Marire, porque os meus país tinham-me pré-disposto à vocação de padre. Não fui padre, mas o meu temperamento continua sendo de um seminarista. Namorámos um ano e meio, mas a coisa não deu certo, nem podia dar, éramos de temperamentos absolutamente contrários.

Em física diz se que os polos contrários atraem-se, mas nem eu nem ela éramos polos, somos seres humanos. Ela desapareceu durante 52 anos, tinha jurado nunca mais querer vê-la, mas como diz a sabedoria as águas paradas são muito profundas e para ser franco comigo próprio sempre me ardeu um fogo dessa paixão da minha juventude, por isso quando há dias me cruzei com uma prima dela, a Teresa Xavier, não resisti e perguntei-lhe, onde é que pára a Maria Luísa?

Ela respondeu-me com simplicidade: Vai ao mercado Janete na fila das vendedoras de peixe, a banca dela é a segunda. Fui e ela estava lá, parei à espera de uma reacção de espanto, de agressividade ou qualquer outra coisa assim de hostil, mas  ela limitou se a olhar para mim e disse: Teodoro eu sabia que qualquer dia havias de vir. O meu amor por ti meu querido seminarista continua intacto. Eu moro sozinha, na praceta dos dadores de sangue, no rés do chão. Sempre sonhei que passaríamos um fim-de-semana juntos, se quiseres fecho a banca e vamos juntos para lá. Fui com ela e ela trancou a porta meteu a chave entre as calcinhas e só saí de lá na segunda-feira.

Não ter capacidade de mudar de opinião para além de ser sinal de estupidez é sinal de senilidade. Mudei de opinião e reencontrei o meu grande amor.

 

*Savana/ Moçambique

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