Michel Yakini * - AFONSINHO E AS BARBAS DE KARL MARX - Plataforma Media

Michel Yakini * – AFONSINHO E AS BARBAS DE KARL MARX

 

Eram tempos de chumbo, os militantes e intelectuais de esquerda achavam o futebol uma mera alienação.

 

Nos anos de 1970 um boleiro, destaque da Estrela Solitária, sacudiu a cartolagem e a estrutura do futebol brasileiro. Afonsinho era comparado a um cantor da Jovem-Guarda, por conta da cabeleira e da barba, mas tinha um fino trato com a bola e pensava além das quatro linhas, o que resultou na conquista inédita do polêmico passe-livre, e por isso o craque emprestava seus serviços a quem bem entendia. O episódio virou documentário, indispensável pra quem gosta de conhecer os causos do mundo bola, Passe Livre dirigido por Oswaldo Caldeira.

Eram tempos de chumbo, os militantes e intelectuais de esquerda achavam o futebol uma mera alienação e quando o caso de Afonsinho virou filme, o desprezo foi reconsiderado e Passe Livre foi exibido no empenho de dialogar com a classe trabalhadora. Os militantes queriam mostrar pra piãozada como o jogador de bola e o operário sofrem explorações semelhantes. Muitos apostavam que o exemplo de Afonsinho poderia inflamar outros rumos.

Não fosse Jairzinho, o Furacão da Copa, com seu black power, seu pano invocado e sua fuça de operário, o saldo talvez fosse outro. Jairzinho aparece no filme como o outro lado da moeda, a do boleiro alienado, de crista baixa às imposições do clube, como um refém exemplar, que tentou ser livre, foi ameaçado e pediu desculpas publicamente. Já Afonsinho, com sua barba galega, seu futuro promissor como estudante de medicina e sua pinta de surfista, era um símbolo de liberdade.

Dizem que a piãozada se deslumbrou com o jeitão de “criolo-bem-sucedido” do Furacão e olhou as barbas rebeldes de Afonsinho e do tal “Passe Livre” com uma indiferença semelhante a de quando conheceram a barba galega de Karl Marx e do tal “Manifesto Comunista” nas reuniões dos sindicatos.

 

QUESTÃO DE SEMELHANÇAS

 

A luta de Afonsinho, admirada por Pelé, quando ambos jogaram no Santos, se tornou inspiração, 20 anos depois, pra promulgação de uma lei, que tinha como destaque o fim do Passe e foi sancionada na gestão do Rei como Ministro dos Esportes, a famosa “Lei Pelé”.

Com a lei, os jogadores quebraram definitivamente as algemas dos clubes, mas demonstraram, ao longo dos anos, que não estavam muito interessados nessa conversa de Passe-Livre, e cegos pelo brilho dos relógios de ouro, dos carros importados e das luzes de boate, hoje são reféns exemplares do atual senhoril futebolístico: os temidos e poderosos empresários. Até Jairzinho resolveu empresariar atletas e entre a liberdade do jogador e as algemas cifradas, deixou bem claro qual lição lhe atraiu mais.

O fascínio pelo estilo Jairzinho de ser continua em evidência e enquanto a boleirada, principalmente os bem-sucedidos, não estiverem nem aí pra estudar, conhecer a história da sua profissão e não ser ver como um trabalhador, a maioria dos jogadores vão continuar na vida dura, e não há lei, nem Afonsinho, Marx que dê jeito nisso. A boleirada vai continuar cegueta e a piãozada sonhando com as glórias do futebol.

 

*‮ ‬Brasil de Fato

 

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