Paulo Rego - UMA PONTE COM MUITOS BENEFÍCIOS - Plataforma Media

Paulo Rego – UMA PONTE COM MUITOS BENEFÍCIOS

 

A recente visita de representantes da Comunicação Social de língua portuguesa e inglesa de Macau à província de Henan, organizada pelo Gabinete de Ligação sob a égide do Conselho de Estado, permitiu o contato próximo com uma realidade muito diferente da que se vive nas regiões costeiras mais desenvolvidas. A “segunda fase” das reformas económicas aposta em níveis de investimento no interior do país que, nas duas últimas décadas, estiveram concentrados em regiões industriais como as de Cantão e Xangai, ou nas zonas portuárias que escoaram a produção massiva com destino à exportação.

A mensagem agora é a de que é preciso reequilibrar geofraficamente a distribuição do Produto Interno Bruto, em conjugação com a promoção do consumo interno.

Há em Henan outro dado relevante – particularmente meritório – que é o da consciência do valor da História e da cultura, transformada em plano de desenvolvimento económico. É o caso da cidade de Kaifeng, que faz da memória e do património deixado por meia dúzia de dinastias que há milhares de anos ali viveram, no “berço da China”, não só uma bandeira identitária como um motor de crescimento com base no turismo cultural. Estratégia, essa, que é complementar à outras zonas da província, focadas nas indústrias tecnológicas de ponta, no fabrico de material militar, ou no hub de transportes aéreos, terrestres e ferroviários que está a transformar Henan – quinto maior PIB da China – numa grande plataforma logística.

O relojamento dos camponeses deslocados para a construção de parques industriais, redes viárias e ferroviárias, ou novos centros urbanos, foi entretanto utilizado para qualificar a mão-de-obra e fomentar a iniciativa privada. Se uns passam por centros de formação, a caminho das novas fábricas; outros são compensados – para além de alojamento e dinheiro – com metros quadrados de lojas que podem explorar individualmente ou em conjunto, abrindo pequenas lojas e oficias ou, por exemplo, hotéis em sistema de gestão cooperativa.

Os níveis do investimento, o número de passageiros ou as toneladas de carga, que dobram a cada ano – já há comboio até Munique, na Alemanha, e quase 130 destinos internacionais a partir de um só aeroporto – rebentam a escala de qualquer horizonte mental no ocidente. O parque industrial de Pudong, em Xangai, levantou há duas décadas muitas dúvidas, mas as previsões acabaram por se cumprir. Diz por isso a experiência que o desenho das várias fases da plataforma logística e de transportes em Henan, até 2026, vai muito provavelmente mesmo acontecer.

O caso de Henan levanta várias outras reflexões, entre as quais a dos méritos e deméritos da economia planificada. Se, por um lado, as leis de mercado podem ser pervertidas, criando desequilíbrios sociais e económicos – ou até políticos – por outro, assim se potencia a eficácia de projetos em grande escala, com garantias para os interesses em causa. Se no meio está a virtude, é na falta de planificação que se encontra o pior dos dois mundos. Não há verdades inabaláveis, nem versões a preto e branco sobre teorias económicas modernas e funcionais, mas certo é que em Henan não há passadismo nem disfuncionalidade. Antes pelo contrário: seduz pela racionalidade, visão de futuro, desenvolvimento e previsibilidade.

É também frontal nos poderes provinciais a vontade de alargarem contatos, quer com o resto do país quer com o exterior. O valor económico da gestão de redes é muito claro em quem está agora a crescer e tem uma fome de mundo que já não se sente em Pequim nem em Xangai. No caso de Macau, a oportunidade de fazer pontes pode beneficiar ambos os lados. É possível e desejável que se cumpra a expectativa de ser plataforma, mas há outra lição a retirar: do ponto de vista da capacidade de planificação e de gestão do desenvolvimento, Macau tem mais a receber do que a dar ao lado de lá.

 

Este artigo está disponível em: 繁體中文

Assine nossa Newsletter