A malária, a dengue e a chicungunha continuam a matar em Angola - Plataforma Media

A malária, a dengue e a chicungunha continuam a matar em Angola

A malária, a dengue e a chicungunha continuam a matar em Angola. Apesar de uma redução dos números, Luanda prossegue a aposta no trabalho de prevenção e de formação de técnicos e especialistas. Em entrevista ao Plataforma Macau, o chefe de saúde ambiental da Direção Nacional de Saúde Pública de Angola realça que “o saneamento ainda é um problema” no país. E defende: Macau pode ser um exemplo a seguir na área do tratamento das águas residuais. Paulo Jorge Neto, também epidemiologista, está no território a convite do Fórum de Macau para participar numa série de seminários ligados à área da saúde. PLATAFORMA MACAU – Morrem anualmente milhares de pessoas com doenças transmissíveis em Angola. Malária, cólera e a dengue são alguns dos exemplos. Como se combatem estas estatísticas? PAULO JORGE NETO  – Em termos da malária, existe um programa nacional de luta implementado, no qual temos uma cooperação com Cuba. Eles fazem a luta anti-larva – combate das larvas e mosquitos que aparecem nos charcos e em lagoas. Mas nesta fase, o único problema em Angola não é a malária, mas temos também os casos de dengue e da chicungunha, uma doença que antigamente se chamava de catolotolo. Estamos a tratar de novos casos que têm vindo a aparecer. Em relação à dengue, houve um pico elevado desta doença infecciosa, mas conseguimos fazer uma redução considerável. O que aconteceu em Angola é que muitas vezes o nosso pessoal técnico não conseguia identificar o que era a dengue ou o que era malária e os casos eram notificados como malária. Acabámos por conseguir fazer a formação do pessoal técnico e do pessoal médico para podermos diferenciar os tipos de doenças e levar a cabo a luta para a erradicação desses dois flagelos que vêm aparecendo no país.   P.M. – A Organização Mundial de Saúde apontou que na África Subsariana morre uma criança por minuto com malária. Existe alguma estratégia internacional para combater esta doença? P.J.N.  – Angola criou um sistema em que todas as mulheres grávidas, e mesmo as não grávidas, que acorrem ao centro de saúde para tratamento, recebem um mosquiteiro para se protegerem da malária. Esta é uma das principais estratégias que estamos a usar a nível nacional. Nesta luta, temos o apoio do Banco Mundial, da UNICEF, da Organização Mundial da Saúde, que também está empenhada nisso e ainda de algumas organizações não governamentais.   P.M. – Angola enviou um grupo de técnicos para Cuba para receberem formação sobre a dengue. Continua a haver falta de pessoal especializado nestas áreas? P.J.N.  – Foram enviados para Cuba técnicos seniores que fizeram a formação e que, ao regressar, dão formação aos técnicos angolanos. Isto aconteceu a nível provincial, mas também na capital. Como temos em Luanda uma grande concentração de população, preparámos formações a nível dos técnicos dos centros de saúde, hospitais de referência e mesmo até das clínicas. Este pessoal recebeu formação e está agora preparado para dar resposta a qualquer caso que seja notificado laboratorialmente.   P.M. – Continua a haver falta de técnicos? P.J.N.  – Não creio que haja falta. Estamos sempre a formar pessoal e penso que será suficiente para combater esse flagelo.   P.M. – Mas estamos a falar de um país com uma dimensão muito grande. P.J.N.  – Talvez a nível municipal este seja um défice, mas temos um técnico pelo menos por todas as áreas geográficas.   P.M. – Que políticas ainda são necessárias para a erradicação destas epidemias no país? J.M.C. – Nós costumamos fazer uma previsão muito antes do período das chuvas começarem. Primeiro, temos de proceder à eliminação dos charcos, em que se utiliza o método de petrolagem, principalmente para matar as larvas e depois então eliminar os charcos; faz-se a busca ativa em casa dos pacientes que já tiveram casos de dengue e destroem-se alguns focos onde se criam os mosquitos, como pneus, garrafas de plástico, de vinho ou vasos de plantas.   P.M. – E aposta na investigação? P.J.N.  – Sim, temos pessoal preparado nessa área e que tem ajuda de parceiros. Os técnicos que estiveram em Cuba estão capacitados para prosseguir esta investigação.   P.M. – Durante esta viagem que fizeram à província de Sichuan, visitaram um hospital. Há algum acordo no sentido de enviar médicos chineses para Angola? P.J.N.  – Tenho informações de que se está a preparar vinte médicos para irem para Moçambique. Em relação a Angola, concretamente não lhe sei dizer.   P.M. – O que pode Angola levar de Macau e que pode Macau aprender com Angola? P.J.N.  – Os países participantes vieram preparados para fazer uma apresentação da situação de saneamento e saúde pública dos seus países. Viemos passar a nossa experiência e estamos abertos à experiência de Macau. Sei que há dois anos existia um convénio em que todos os países de língua oficial portuguesa enviavam pelo menos dez pessoas para receberem formação aqui em Macau. Mas a última técnica angolana que cá esteve na Universidade de Macau terminou a formação há dois anos.   P.M. – Qual a razão para terem cessado o envio de mais técnicos? Não há interesse? P.J.N.  – Há interesse uma vez que existe uma forte cooperação com a China em vários sectores em Angola. Não deixava de ser uma mais valia.   P.M. – Que balanço geral faz destes seminários em Macau? P.J.N.  – Há muito de novo aqui. Os países de língua portuguesa trabalham todos de forma muito diferente, mas podemos aprender com Macau em muitos aspetos. Estamos a observar coisas que não existem nos nossos países, criamos sempre debates para tentar encaixar com as nossas realidades e, por isso, creio que é uma mais valia. Esperamos que, ao chegar aos nossos países de origem, consigamos fazer uma grande parte. Na área ambiental – a minha área – temos algumas preocupações. Das visitas que fizemos, ainda não conseguimos ver muito sobre a área do saneamento. Tem sido feita uma maior abordagem à saúde pública. Mas sei que vamos entrar nesta área e, como Angola tem um défice de saneamento, queríamos muito ver as estações de tratamento de águas residuais (ETAR) que a China tem. Existem estações em algumas províncias angolanas, mas não em todas. Também as águas pluviais são um dos principais problemas. Estão a abater-se agora pelo país e estamo-nos a preparar.   P.M. – Procura respostas nestes seminários? P.J.N.  – Gostaríamos muito que se falasse mais em saneamento. Angola tem problemas nessa área e seria importante falar sobre isso para bebermos informações de Macau. Conheço a ETAR de Coloane, mas sabemos que existem novas duas estações e é sempre bom ver por onde começa a entrada das águas residuais, como é feito o tratamento até o escoamento pelo mar. E até aqui Macau não difere muito do nosso país, pois as nossas águas também têm a sua finalidade no mar.   P.M. – A vossa agenda apresenta seminários na área da medicina tradicional chinesa. Vê interesse por parte de Angola na utilização deste tipo de medicina? P.J.N.  – A medicina tradicional chinesa também já está um pouco por Angola. Talvez com o convénio do Ministério da Saúde e das autoridades da China consigamos explorar mais esta área, ou esta arma. Mas, sinceramente, a China tem as suas matérias e nós temos as nossas, e em Angola existem também terapêuticas tradicionais. Para que estas duas áreas não entrem em contradições, talvez seja necessário um encontro entre os terapeutas para – como se diz na gíria – poderem “acasalar” e depois levar para a frente um projeto desses. Nestes seminários tem-se falado sobre isso e há aspetos impressionantes. Há muitos produtos aqui que não são produzidos nos nossos países. Existem plantas na China que não são utilizadas em Angola e que podem ser exportadas. É um caminho a percorrer. Catarina Domingues

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