Início » PARCERIA NO COMBATE À CRISE

PARCERIA NO COMBATE À CRISE

Se Portugal e a China não tivessem assinado uma parceria estratégica em 2005, era possível que parte das grandes empresas alienadas pelo Estado português não estivesse nas mãos de chineses. Especialistas acreditam que a crise potenciou o investimento de Pequim em Lisboa. A visita de Cavaco Silva à China pode sinalizar uma nova dinâmica para as relações bilaterais.

Portugal foi um dos primeiros países da União Europeia a estabelecer uma parceria estratégica com a China. Corria o ano de 2005. E a crise que se seguiu transformou-se numa oportunidade e permitiu a evolução das relações económicas entre os dois países, com a entrada de mega investimentos chineses em Portugal.
As aquisições de 21,35% da Energias de Portugal, de 25% da Redes Energéticas Nacionais e 80% do ramo segurador da Caixa Geral de Depósitos são a face mais visível da assinatura desta parceria. “Sem a existência de uma relação estratégica, dificilmente o Estado português aceitaria as propostas destas empresas chinesas”, nota Paulo Gorjão, diretor do Instituto Português de Relações Internacionais e Segurança (IPRIS).
A parceria estratégica é uma declaração de intenções adotada pela China para privilegiar as relações com alguns países.“É uma relação com um peso político, que implica laços mais próximos e que se devem desenvolver a longo prazo”, explica Zhang Min, especialista em Assuntos Europeus da Academia de Ciências Sociais da China. E continua: “Estamos a falar também de cooperação ao mais alto nível em assuntos globais como as alterações climáticas, luta contra a pobreza ou reforço da segurança mundial”.

ABRIR PORTAS

Um ano antes da assinatura da parceria luso-chinesa, o então Presidente da República Jorge Sampaio visitou Pequim. Esta foi a última vez que um chefe de Estado português esteve na China. A visita oficial de Cavaco Silva vem agora preencher um vazio de quase uma década. “Aníbal Cavaco Silva não se deslocou durante o primeiro mandato a Pequim. Por isso, era de algum modo importante corrigir uma omissão que poderia ter leituras políticas que não corresponderiam à realidade”, diz o diretor do IPRIS, Paulo Gorjão. O especialista reconhece que a viagem do líder português a Xangai, Pequim e Macau reflete a prioridade que Portugal atribui às boas relações com o país: “A deslocação do Presidente parece-me relevante essencialmente do ponto de vista simbólico e creio que se enquadra numa lógica de rotina diplomática”.
Por ser o ano em que se celebram os 35 anos do restabelecimento das relações diplomáticas entre Lisboa e Pequim – suspensas durante a ditadura portuguesa e a liderança de MaoZedong na RPC – esta é uma visita de significado “muito importante”, chama a atenção Wang Cheng An, diretor do Centro de Estudos dos Países de Língua Portuguesa da Universidade de Economia e Negócios Internacionais da China. Wang Cheng An, secretário-geral do Fórum Macau entre 2004 e 2008, acredita que a presença de Cavaco Silva na China é um sinal claro de que “a elevação desta aliança estratégica a outro nível é uma possibilidade”.
E quase dez anos depois do estabelecimento deste tipo de parceria, que planos têm Lisboa e Pequim para o futuro das relações bilaterais? “Os dois países devem impulsionar o investimento mútuo ainda reduzido e reforçar o comércio bilateral, que no ano passado diminuiu ligeiramente”, alerta o analista.
PORTUGAL NÃO É PONTE
LUSÓFONA

A China está de olhos postos nos Países de Língua Portuguesa, um mercado de 250 milhões de pessoas e com parceiros de peso como Angola e o Brasil. No que diz respeito ao projeto lusófono chinês, Portugal parece estar fora desta equação. “As relações bilaterais entre os Países de Língua Portuguesa e a China têm-se tornado mais importantes do que o triângulo Portugal – China – Lusofonia”, explica Zhang Min, professora na Academia de Ciências Sociais da China. “Com a dívida europeia, Portugal não pode ter um papel muito importante nestas questões regionais porque está centrado em assuntos domésticos”, justifica a especialista.
O diretor do IPRIS, Paulo Gorjão, é de outra opinião. Diz que Portugal e a China têm interesses divergentes e competitivos na Lusofonia e que “a crise económica foi e é irrelevante. A crise ainda não tinha eclodido e a cooperação entre os dois países nos PALOP não tinha e nunca teve qualquer significado”.
Mas se o papel de Portugal não tem relevância no projeto lusófono chinês, o mesmo não se pode dizer no âmbito europeu. “Portugal é um dos Estados-membros da União Europeia com maior proximidade e sensibilidade em relação aos pontos de vista e interesses da China”, explica Gorjão.
Num desafio à relação transatlântica entre a Europa e os Estados Unidos, a China tem procurado na União Europeia um parceiro estratégico de peso. E o Governo português tem revelado simpatia por algumas das reivindicações chinesas, como a concessão do estatuto de economia de mercado a Pequim.
Durante muito tempo, o exemplo mais evidente desta proximidade foi a postura de Lisboa em relação ao embargo europeu à exportação de armas para a China na sequência da repressão militar do movimento pró-democracia de Tiananmen em 1989. “Portugal foi um dos primeiros Estados-membros a defender publicamente o levantamento deste embargo”, conclui Gorjão.

Catarina Domingues

Contate-nos

Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

Plataforma Studio

Newsletter

Subscreva a Newsletter Plataforma para se manter a par de tudo!

Uh-oh! It looks like you're using an ad blocker.

Our website relies on ads to provide free content and sustain our operations. By turning off your ad blocker, you help support us and ensure we can continue offering valuable content without any cost to you.

We truly appreciate your understanding and support. Thank you for considering disabling your ad blocker for this website