Nos últimos dias, multiplicaram-se os relatos de ataques a profissionais de saúde, incêndios em centros de tratamento e recusas em colaborar com equipas médicas. Na origem destes episódios estão rumores que circulam tanto nas redes sociais como através do passa-palavra nas comunidades, segundo os quais o Ébola não existe ou faz parte de um esquema para enriquecer organizações internacionais e autoridades locais.
Em Bunia, uma das cidades mais afetadas pelo surto, um hospital foi incendiado e vários profissionais de saúde foram agredidos por populares. Um voluntário da Cruz Vermelha relatou à BBC que foi espancado enquanto participava num funeral seguro, depois de familiares acreditarem que o caixão estava vazio e que as equipas médicas escondiam o verdadeiro destino dos corpos. Um agente da polícia morreu durante os confrontos.
Entre os rumores mais difundidos estão alegações de que os médicos infetam deliberadamente as pessoas, retiram órgãos das vítimas ou recebem dinheiro por cada caso diagnosticado. Outros acreditam que a doença foi inventada para controlar a população ou justificar a presença de organizações internacionais na região. A consequência imediata é a perda de confiança nas autoridades sanitárias.
Essa desconfiança leva muitas famílias a esconder familiares doentes, evitar centros de tratamento e recusar o rastreio de contactos, considerado uma das ferramentas mais importantes para interromper as cadeias de transmissão do vírus. Em alguns casos, os funerais são realizados sem medidas de proteção, aumentando significativamente o risco de novos contágios.
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Especialistas em saúde pública alertam que este fenómeno não é novo. Durante a grande epidemia de Ébola na África Ocidental, entre 2013 e 2016, rumores semelhantes provocaram ataques a equipas médicas e levaram comunidades inteiras a rejeitar intervenções sanitárias. A experiência demonstrou que a comunicação com as populações pode ser tão importante como os tratamentos médicos para controlar um surto.
No atual surto, o problema é agravado pelo conflito armado no leste do Congo. A insegurança dificulta campanhas de sensibilização porta a porta e limita a presença de profissionais de saúde nas comunidades mais isoladas. Sem informação credível e acessível, os rumores encontram terreno fértil para se espalharem, reforçando um ciclo de medo e desconfiança.
As autoridades congolesas, a Organização Mundial da Saúde e organizações humanitárias intensificaram campanhas de comunicação através de rádios locais, líderes religiosos e chefes comunitários, procurando desmentir falsas informações e recuperar a confiança da população. Ainda assim, especialistas alertam que inverter anos de desconfiança institucional será um dos maiores desafios para travar a epidemia.