As províncias de Ituri, Kivu do Norte e Kivu do Sul, onde se concentra grande parte da violência, são também o epicentro da epidemia. Milhões de pessoas foram deslocadas pelo conflito e vivem em campos sobrelotados, sem condições adequadas de saneamento, criando um ambiente propício à propagação do vírus.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem alertado que o conflito dificulta praticamente todas as fases da resposta à doença. Em muitas localidades, as equipas de saúde não conseguem chegar às comunidades afetadas devido à insegurança, enquanto ataques a infraestruturas e restrições à circulação atrasam a identificação de novos casos e o rastreio de contactos. A organização chegou mesmo a defender um cessar-fogo para permitir operações de saúde pública.
A fragmentação territorial agravou ainda mais o problema. Desde que o AFC/M23 consolidou o controlo de vastas áreas do leste do país, passou a organizar uma resposta sanitária paralela à do Governo de Kinshasa. Segundo uma investigação da Reuters, os rebeldes criaram estruturas próprias de vigilância epidemiológica, laboratórios e equipas de resposta, apoiadas logisticamente pelo Ruanda. A cooperação com o Governo central limita-se, na maioria dos casos, à troca de dados laboratoriais e informação epidemiológica.
Embora o grupo rebelde tenha anunciado que eliminou a transmissão do vírus nas áreas sob o seu controlo após apenas quatro casos registados, especialistas alertam que essa realidade não pode ser comparada à das zonas controladas pelo Governo, onde a epidemia é muito mais extensa. Além disso, a existência de duas respostas independentes levanta receios de falhas na coordenação caso o vírus atravesse as linhas da frente.
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A guerra também está a dificultar a chegada de recursos essenciais. A resposta enfrenta falta de equipamentos de proteção, material laboratorial, combustível e veículos para transportar doentes e equipas médicas. Em cidades como Goma, o encerramento do aeroporto e as limitações do sistema bancário complicam ainda mais o envio de pessoal, medicamentos e financiamento.
Outro desafio é a desconfiança das populações. Em várias comunidades afetadas pelo conflito, persistem rumores de que o Ébola faz parte de um alegado “conflito biológico”, levando algumas famílias a esconder doentes ou a recusar o acompanhamento das autoridades sanitárias. Em algumas ocasiões, profissionais de saúde enfrentaram resistência e violência durante operações de vigilância epidemiológica.
Perante este cenário, a OMS e o Centro Africano de Controlo e Prevenção de Doenças alertam que o conflito armado deixou grandes “pontos cegos” na vigilância epidemiológica. Milhares de contactos de pessoas infetadas continuam por localizar e um número significativo de alertas sobre casos suspeitos fica sem resposta, aumentando o risco de transmissão silenciosa.
Para os especialistas, enquanto persistirem os combates, a deslocação de populações e a divisão administrativa entre territórios controlados pelo Governo e pelos rebeldes, será extremamente difícil interromper a cadeia de transmissão do vírus, independentemente da eficácia das medidas médicas disponíveis.