A China quer transformar centenas de cidades num modelo de “resíduo zero”, uma abordagem que procura reduzir a produção de lixo, aumentar a reutilização de materiais e limitar a quantidade de resíduos enviados para aterros. O objetivo não é eliminar completamente os resíduos – algo considerado impraticável – mas criar sistemas urbanos onde os materiais sejam aproveitados durante mais tempo e onde a deposição final seja reduzida ao mínimo.
A iniciativa começou em 2019, quando o Conselho de Estado chinês lançou um programa-piloto para desenvolver cidades de “resíduo zero”. O plano inicial selecionou dez cidades e regiões para testar sistemas de gestão de resíduos sólidos, melhorar a reciclagem, incentivar formas de produção mais limpas e promover hábitos de consumo com menor impacto ambiental.
Desde então, o programa foi alargado. Durante o período do 14.º Plano Quinquenal (2021-2025), a China expandiu a iniciativa para 113 cidades e oito áreas específicas. Para o período seguinte, entre 2026 e 2030, Pequim pretende aumentar o número de cidades abrangidas para cerca de 200, com prioridade para grandes regiões económicas como o Delta do Rio Yangtzé, a Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau, a região Pequim-Tianjin-Hebei e o eixo Chengdu-Chongqing.
O conceito de cidade de “resíduo zero” assenta em várias mudanças simultâneas. Inclui a redução da produção de resíduos na origem, a separação obrigatória de lixo doméstico, o aumento da reciclagem, o tratamento mais seguro de resíduos perigosos e a transformação de materiais descartados em novos recursos industriais.
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A ideia aproxima-se do conceito de economia circular, em que os resíduos deixam de ser vistos apenas como lixo e passam a ser encarados como matérias-primas secundárias.
A aposta surge num país que enfrenta um dos maiores desafios de gestão de resíduos do mundo. O rápido processo de urbanização chinês aumentou significativamente a quantidade de lixo produzido pelas cidades, criando pressão sobre sistemas de recolha, tratamento e eliminação.
A China tem procurado aumentar a capacidade de reciclagem e melhorar a gestão do lixo doméstico urbano, com a separação de resíduos já implementada em praticamente todas as comunidades residenciais de cidades de nível distrital ou superior, segundo dados divulgados pelo Ministério da Habitação e Desenvolvimento Urbano-Rural.
A estratégia também está ligada aos objetivos climáticos da China. A gestão de resíduos é responsável por emissões de gases com efeito de estufa, sobretudo através de aterros e processos de tratamento inadequados. Estudos recentes sobre o programa-piloto chinês indicam que as políticas de “resíduo zero” podem contribuir para reduzir emissões urbanas através de melhorias na eficiência dos materiais, inovação tecnológica e modernização industrial.

Uma fotografia aérea tirada por um drone mostra a zona turística do Lago Oeste, em Hangzhou, reconhecida como uma das “20 Cidades Rumo ao Resíduo Zero” pelo Conselho Consultivo do Secretário-Geral das Nações Unidas para o Resíduo Zero, de acordo com o Departamento Municipal de Ecologia e Ambiente de Hangzhou. (Foto: Xinhua)
Na prática, as cidades abrangidas pelo programa têm desenvolvido diferentes soluções. Algumas apostam em sistemas mais rigorosos de separação de resíduos domésticos; outras procuram integrar a reciclagem em cadeias industriais locais, melhorar o tratamento de resíduos industriais ou reduzir desperdícios agrícolas. O modelo não impõe uma única solução, mas estabelece metas e indicadores para avaliar o progresso das cidades.
A iniciativa também reflete uma mudança na política ambiental chinesa. Durante décadas, a prioridade esteve associada ao crescimento económico e à industrialização acelerada, um processo que transformou a China na maior fábrica do mundo, mas que deixou um legado de poluição e pressão sobre os recursos naturais.
O conceito de “resíduo zero” surge como parte de uma estratégia mais ampla de construção de uma “China ecológica”, uma das prioridades declaradas pelo Governo chinês.
Apesar da ambição, especialistas alertam que a implementação apresenta desafios. Criar infraestruturas de reciclagem não basta: é necessário alterar hábitos de consumo, garantir mercados para materiais reciclados e evitar que a reciclagem seja apenas uma etapa intermédia antes da eliminação final. A qualidade da separação dos resíduos e a capacidade das autoridades locais para aplicar as regras serão fatores determinantes.
A expansão para cerca de 200 cidades até 2030 representa, assim, uma tentativa de transformar a forma como as cidades chinesas lidam com os recursos. Mais do que uma política de limpeza urbana, o projeto procura alterar a relação entre produção, consumo e desperdício num país onde vivem mais de mil milhões de pessoas e onde as cidades continuam a concentrar grande parte da atividade económica.