Os dados mais recentes de monitorização climática do Instituto Português do Mar e da Atmosfera apontam para uma resposta cada vez mais clara: as ondas de calor estão a tornar-se mais frequentes, mais longas e mais intensas, num contexto de aquecimento acelerado da Península Ibérica.
Últimos anos entre os mais quentes de sempre
A série climática nacional confirma uma tendência consistente. Segundo os registos do IPMA e análises do programa europeu Copernicus, os últimos anos têm figurado repetidamente entre os mais quentes desde que há registos instrumentais.
Em Portugal continental, 2024 foi um dos anos mais quentes desde 1931, com múltiplas ondas de calor e dezenas de novos extremos de temperatura registados. Em 2025, a tendência manteve-se, com o país a registar desvios positivos face à normal climatológica e vários episódios de calor extremo em junho e julho.
Este padrão não é um evento isolado: integra uma sequência de anos consecutivos com temperaturas acima da média histórica, algo que os climatologistas associam diretamente ao aquecimento global antropogénico.
Mais ondas de calor, menos intervalos de “arrefecimento”
Um dos sinais mais relevantes não é apenas a intensidade do calor, mas a redução dos intervalos entre episódios extremos.
Estudos de climatologia aplicada à Península Ibérica mostram um aumento do número de “dias de verão” e de “noites tropicais”, em que as temperaturas mínimas não descem abaixo dos 20–25 °C. Este fenómeno reduz a recuperação térmica do corpo humano e agrava o impacto na saúde pública.
Além disso, os modelos climáticos indicam que as ondas de calor estão a ocorrer mais cedo na primavera e a prolongar-se mais tarde no verão, alargando a chamada “estação quente”.
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O papel da circulação atmosférica e dos bloqueios
Grande parte dos episódios recentes de calor extremo está associada a padrões atmosféricos persistentes, como bloqueios anticiclónicos estacionários que impedem a entrada de massas de ar mais fresco do Atlântico.
Estes sistemas, frequentemente designados como “heat domes” na literatura científica internacional, criam condições de subsidência atmosférica: o ar desce, aquece e seca, intensificando ainda mais as temperaturas à superfície.
A combinação entre estes bloqueios e uma atmosfera global mais quente aumenta a probabilidade de ultrapassar limiares como os 40 °C no interior do país.
Interior do país como zona crítica
Os dados mostram também uma assimetria territorial clara. O interior Norte e Centro, o Vale do Tejo e o Alentejo são as regiões mais expostas a extremos térmicos.
A menor influência marítima, a menor humidade relativa e a maior radiação solar direta tornam estas áreas particularmente vulneráveis. Em contrapartida, o litoral beneficia ainda de algum efeito moderador do Atlântico, embora esse efeito esteja a enfraquecer em dias de maior estabilidade atmosférica.
Uma tendência estrutural, não conjuntural
A evidência científica mais recente aponta para um ponto central: não se trata apenas de “verões quentes”, mas de uma alteração estrutural do regime climático.
Trabalhos de síntese sobre a região mediterrânica mostram que a frequência, duração e intensidade das ondas de calor estão a aumentar de forma estatisticamente significativa nas últimas décadas. A Europa, em particular, aquece a um ritmo superior à média global, com impactos já observáveis na saúde, agricultura e energia.
Em Portugal, este padrão traduz-se em maior probabilidade de episódios extremos, maior duração dos mesmos e menor recuperação térmica entre eventos.
O que pode acontecer no futuro próximo
Os cenários climáticos projetados para a região ibérica indicam que, sem redução significativa das emissões globais, episódios com temperaturas acima dos 40 °C poderão tornar-se mais comuns e não excecionais no interior do país.
Mais do que um “evento raro”, o calor extremo poderá passar a ser uma característica recorrente dos verões portugueses, com implicações diretas na gestão do território, saúde pública e risco de incêndio.
O que hoje é descrito como “onda de calor excecional” pode, nas próximas décadas, tornar-se simplesmente o novo normal climático.