A NASA prepara-se para lançar, esta terça-feira (30), uma arrojada missão robótica de resgate, numa tentativa de última hora para impedir que um dos seus telescópios mais antigos acabe destruído ao reentrar na atmosfera terrestre. Se for bem-sucedida, a operação poderá abrir caminho a uma nova abordagem na gestão de satélites, permitindo prolongar a vida útil de equipamentos espaciais.
A missão deverá prolongar-se durante vários meses e começa com o lançamento de um robô concebido para resgatar o telescópio espacial Swift, que se encontra atualmente em trajetória de queda em direção à Terra. Sem qualquer intervenção, prevê-se que o Swift acabe por se desintegrar ao entrar na atmosfera.
A nave de resgate, desenvolvida pela empresa norte-americana Katalyst, tem lançamento previsto para as 10h23 GMT (18h23 em Macau) desta terça-feira, a partir de um atol no Oceano Pacífico, a bordo de um pequeno foguetão denominado Pegasus. Ao contrário dos lançamentos convencionais, o Pegasus não partirá de uma plataforma em terra, sendo libertado em pleno voo a partir de um avião.
“Tudo nesta missão é absolutamente louco”, afirmou, entre risos, a astrofísica da NASA Regina Caputo, numa entrevista à AFP.
Leia também: Falha técnica em equipamento crítico marca missão lunar da NASA
Depois de atingir uma órbita próxima da do telescópio, o robô terá de localizar o Swift na imensidão do espaço. O objetivo é que a nave execute uma manobra de aproximação, envolva o telescópio com três braços articulados e o agarre.
Posteriormente, tentará rebocar o Swift para uma órbita estável ao longo de, pelo menos, um mês, elevando-o cerca de 300 quilómetros para evitar a sua destruição.
“Esta missão reúne um conjunto de estreias sem precedentes”, afirmou Shawn Domagal-Goldman, director da divisão de astrofísica da NASA, durante uma conferência com jornalistas. “Estou profundamente grato por estarmos sequer a tentar.”
Um telescópio com um valor científico único
À primeira vista, a ideia de resgatar um telescópio espacial poderá parecer invulgar. O telescópio Neil Gehrels Swift Observatory foi lançado em 2004 e foi inicialmente concebido para uma missão com duração de apenas dois anos.
O equipamento foi desenvolvido para estudar explosões de raios gama, que Caputo descreve como “os fenómenos mais energéticos que ocorrem no universo”. A investigadora compara estes eventos a uma versão muito mais intensa de uma supernova, ou seja, a explosão que marca o fim da vida de uma estrela.
As explosões de raios gama duram apenas breves instantes. Por esse motivo, o telescópio foi colocado numa órbita baixa, a cerca de 600 quilómetros de altitude, permitindo manter comunicações constantes com os investigadores. Contudo, essa vantagem tem também um inconveniente: sem um sistema próprio de propulsão, o equipamento acaba inevitavelmente por perder altitude e reentrar na atmosfera.
Trata-se de um fenómeno esperado, segundo Caputo. Durante os períodos de maior atividade do Sol, este emite mais partículas, provocando a expansão da atmosfera terrestre. Essa expansão aumenta o atrito sobre os satélites em órbita baixa, fazendo com que estes percam altitude de forma gradual.
No entanto, quando as previsões feitas no início de 2025 indicaram que o Swift se aproximava rapidamente do fim da sua vida útil, a NASA começou a ponderar uma operação de resgate. “Decidimos que valia a pena salvar este telescópio, precisamente por ser tão especial”, explicou Domagal-Goldman.
Uma missão repleta de desafios
Apesar da idade, o Swift continua a ser um instrumento muito procurado pela comunidade científica, sobretudo devido à sua capacidade de responder rapidamente a fenómenos cósmicos inesperados. Caso seja destruído, não poderá ser substituído de imediato.
A missão de resgate, que envolve manobras nunca antes realizadas, tem um custo estimado de 30 milhões de dólares, muito abaixo dos cerca de 250 milhões de dólares que custou a construção original do telescópio.
O robô de resgate, denominado LINK, terá de ultrapassar diversos desafios técnicos e várias incógnitas. Por exemplo, os engenheiros não dispõem de uma imagem detalhada da parte traseira do telescópio, precisamente a zona onde o robô terá de efectuar o acoplamento.
Entre risos, Regina Caputo estimou que as probabilidades de sucesso rondam “talvez 50%”. Ainda assim, tanto a NASA como a Katalyst acreditam que a missão – que poderá prolongar-se até ao outono – poderá abrir novas possibilidades na manutenção e prolongamento da vida útil de satélites, justificando plenamente a tentativa.
Robert Lamontagne, vice-presidente da Katalyst, afirmou durante uma conferência de imprensa que esta missão poderá representar “o início de um novo modelo” capaz de “reabastecer, reposicionar, reutilizar, reparar e até modernizar satélites, mesmo que nunca tenham sido concebidos para isso”.