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Casas-loja exigem proteção urgente

As antigas casas-loja de Macau estão a desaparecer, arrastando consigo muito mais do que um legado arquitetónico. Para a arquitecta Natalie Fu, estes edifícios guardam memórias de infância, histórias de famílias e estabelecimentos centenários, além de testemunharem capítulos importantes do comércio externo local

Carol Law

Natalie Fu publicou o livro Macau’s Historical House Taxonomy – The Shophouses at the Rua de Cinco de Outubro, uma obra organizada em seis partes que reúne uma análise detalhada das casas-loja de Macau, entrevistas a académicos e um vasto acervo fotográfico, incluindo a localização e cortes técnicos dos edifícios, constituindo assim um importante registo para memória futura.

O manuscrito original foi escrito em inglês; a edição agora publicada foi traduzida para chinês: “Quero que chegue a mais leitores locais. A publicação bilíngue visa estimular o debate e o interesse de um público mais vasto”, diz ao PLATAFORMA.

Natural de Macau, Natalie está atualmente a frequentar um doutoramento em História, dedicado ao estudo da fusão cultural na arquitetura e da salvaguarda edificada. O conteúdo agora publicado resulta da sua dissertação de mestrado, revista e ampliada: “Procurei apresentar o valor histórico e o significado cultural das antigas casa-loja de Macau”.

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No livro, Natalie sublinha que as casas-loja são um tipo essencial de habitação multifuncional, ajustada a vários usos, que foi em tempos a estrutura predominante nas ruas de Macau, e detém significativo valor histórico, social, cultural, arquitetónico e estético.

Destaca também como as arquiteturas chinesa e ocidental se “influenciam mutuamente” e como tal se reflete particularmente no aspeto das casas-loja, referindo por exemplo as fachadas em “estilo Arte Nova introduzidas nos anos 1920”.

Esquecidas pela lei

“Infelizmente, tratando-se de construções pequenas e dispersas e não estando suficientemente protegidas pela lei do património, têm vindo a desaparecer perante o rápido desenvolvimento da cidade”.

Em entrevista ao PLATAFORMA, Natalie explica que o crescimento urbano implica sempre a “perda e a renovação de edifícios”, e que decidir o que preservar e como preservar “é uma questão complexa e permanente”, confessando ela própria estar ainda a aprender e a explorar essa matéria. Sublinha, no entanto, que a “preservação, proteção, restauro e revitalização não devem ser abordados de forma uniforme”.

O uso ativo das casas-loja realça o seu valor social (…) Ao manter as casas-loja em funcionamento, há monitorização e manutenção constantes, o que é a forma mais direta de salvaguarda – Natalie Fu, arquiteta

Para as casas-loja ainda existentes, a melhor estratégia, por agora, passa pela manutenção, assegurando a sua utilização contínua e realizando inspeções anuais: “O uso ativo das casas-loja realça o seu valor social. Por exemplo, a presença de lojas centenárias na Rua de Outubro destaca ainda mais o valor cultural e humano das casas-loja. Ao manter as casas-loja em funcionamento, há monitorização e manutenção constantes, o que é a forma mais direta de salvaguarda”.

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Para evitar danos graves às casas-loja antes de um planeamento a longo prazo, são urgentes normas de proteção provisória, e é necessário um levantamento e investigação exaustiva para descobrir todo o valor inerente a estas casas.

Casas-loja desaparecidas

O livro documenta também várias casas-loja já desaparecidas. No entanto, para algumas destas, que se perderam antes de poderem ser devidamente estudadas, foi apenas possível registar em fotografia os seus exteriores.

Questionada sobre a principal dificuldade da investigação, Natalie confessa que se tratou do acesso à informação: “recrudesce a falta de dados em Macau, especialmente registos arquitetónicos adequados, que estão dispersos por arquivos públicos de difícil acesso ou que não foram sequer catalogados pelas autoridades”.

“Os projetos de arquitetura não estão acessíveis à investigação académica, e que a natureza privada destas construções dificulta o trabalho de campo”, diz.

Sublinha ainda que a “classificação das casas-loja constitui o primeiro passo da sua defesa”. A recolha, catalogação e investigação dedicada de dados sobre as casas-loja de Macau são tarefas “urgentes e imprescindíveis”.

Com o evoluir do tempo e do tecido urbano, “estes modos de vida e edifícios de comércio e residência estão a desaparecer. Estes registos, são, por isso, “fundamentais para a história da arquitetura de Macau, para o estudo da habitação mista e outras áreas afins”.

Natalie Fu quer, através do livro, consciencializar o público e recolher contributos de outros profissionais, estimulando a participação de mais investigadores: “Assim será possível envolver mais pessoas na preservação e desenvolvimento das casas-loja de Macau, fornecendo referências importantes para explorar melhores métodos, direções e fundamentos para a sua conservação”.

Caixa:

Algumas casas-loja de Macau já foram integradas na zona do centro histórico da cidade, estando sobretudo localizadas na zona de proteção da Avenida Almeida Ribeiro, sendo algumas delas classificadas como imóveis de interesse público. Entre os edifícios reconhecidos pelo seu valor arquitetónico destacam-se a Casa de Penhores Tak Seng e Casas Moosa; o conjunto classificado da Rua e Beco da Felicidade; bem como a antiga farmácia sino-ocidental da Antiga Farmácia Chong Sai, Rua das Estalagens, n.º 80, esta última classificada como monumento.

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