Fontes conhecedoras do processo ainda hoje admitem ao PLATAFORMA que o contrato que une o know-how norte-americano de Las Vegas ao financiamento chinês de Hong Kong “parecia feito para não ser cumprido”. Facto é que, logo nesse documento, assinado no prazo limite para juntá-los em concurso, a Galaxy escreve, preto no branco, não ter tido tempo para ponderar cabalmente o acordo, desvinculando-se da obrigação de o cumprir naqueles termos. Na prática, a discussão formal do contrato é adiada… e nunca chega a bom porto.
Perante um (in)esperado imbróglio jurídico-político, que ameaça o próprio concurso, e os timings da liberalização do Jogo; o Governo cria o polémico regime das subconcessões. Resultado: em vez das três concessionárias que vencem o concurso – com aval de Pequim – em Janeiro de 2002; em Fevereiro de 2003 já havia mais três: a Galaxy vende uma subconcessão que hoje é explorada pela Venetian, resolvendo o problema entre elas; prerrogativa logo exigida pela Wynn, que vende outra à Melco Crown; e pela SJM, que replica a operação com a MGM.
Embora o estatuto jurídico pareça formalmente distinto – e subsidiário – na prática, a relação entre concessionárias e subconcessionárias é nula. Todos operam de forma autónoma, com o mesmo conjunto de direitos e obrigações perante o Estado; quer do ponto de vista regulatório, quer no que toca à carga fiscal.
Leia também: Receitas dos casinos de Macau sobem 15% em março
Até por isso foi polémico o facto de terem sido as concessionárias – e não o Estado – a cobrar prémios às subconcessionárias. O impacto económico deste modelo permite, por exemplo, que o custo de construção do primeiro casino erguido pela Wynn em Macau fosse cabalmente assegurado pela subconcessão cobrada à Melco. Os vencedores do concurso vêm dobrada a concorrência… Mas escolhem a quem vender e fazem-se cobrar.
Outro problema sensível gerido em simultâneo com a liberalização do Jogo é a luta sucessória no império de Stanley Ho; em parte também resolvida pelas subconcessões: Pansy Ho compra uma – parceria com os americanos da MGM – e mantém-se próxima das irmãs (Daisy Ho gere hoje a SJM); Lawrence Ho segue em pista própria – parceria com os australianos da Melco.
O extenso e complexo universo não familiar da SJM, que dominava as salas VIP, é nessa altura encaixado em casinos-satélite e empresas junket – legalizadas e cotadas em bolsa. Sistema, esse, que dominou a indústria durante duas décadas e meia; atraindo jogadores, gerindo empréstimos e cobranças nos bastidores das seis operadoras…
Leia também: Taiwan desmantela grupo ligado a lavagem através de casinos de Macau
Taiwan com picante político
Por último, mas não menos importante, o processo que primeiro une – depois desune – Sands e Galaxy, afasta de Macau investidores de Taiwan, processo com óbvio picante político.
Fossem quais fossem os critérios do concurso, ou as especulações sobre quem estaria por detrás da Asian America, a Venetian era clara favorita a uma das licenças: Macau queria esse modelo experimentado em Las Vegas, onde a receita MICE supera a das mesas de jogo.
Facto é que foi primeiro a Asian American Entertainment Corp (AAEC) a associar-se ao know-how da Sands, juntando o músculo financeiro de um sindicato bancário em Taiwan. Mas também é um facto que o único a dar a cara foi apenas – e sempre – Marshall Hao; confessadamente um não-milionário, que em todos os processos em tribunal alegou falta de meios e pediu apoio judiciário.