“O K-pop tem sido excelente para a cidade em termos de atenção e reforço da marca”, diz McCartney ao PLATAFORMA. “É claramente visível o aumento de visitantes da Geração Z que atravessam a fronteira para estes concertos.” No entanto, alerta que “criar o impulso inicial é uma coisa – agora que o temos, é muito importante mantê-lo”, sublinhando que cancelamentos próximos da data “podem gerar sentimentos negativos, não só entre os participantes, mas também entre futuros organizadores”.
O académico acrescenta que a incerteza sobre que eventos podem avançar – e a forma como as decisões são comunicadas – pode prejudicar o posicionamento internacional de Macau. “Queremos ser um centro internacional de eventos”, afirma. “A clareza é fundamental, porque o impulso reforça a imagem. Quando a narrativa se torna negativa, especialmente nas redes sociais, é muito difícil revertê-la”.
McCartney enquadra estes riscos no contexto mais amplo do turismo de eventos, sublinhando que cancelamentos ou adiamentos de concertos podem gerar “perceções negativas entre fãs, organizadores, patrocinadores e artistas”, com reflexos na “imagem do destino”. O impacto real, explica, “depende de vários fatores, como a dimensão do evento, a forma como o cancelamento é gerido, se se trata de um caso pontual ou recorrente e a reação nas redes sociais”. Ainda assim, considera que “o cancelamento isolado de um concerto raro tende a ter um impacto limitado a longo prazo”, desde que exista uma programação consistente e capacidade de recuperação.
A clareza é fundamental, porque o impulso reforça a imagem. Quando a narrativa se torna negativa, especialmente nas redes sociais, é muito difícil revertê-la
Glenn McCartney, professor associado de Gestão de Turismo e Resorts Integrados na Universidade de Macau
Neste contexto, fontes ligadas a operadores de Jogo disseram ao PLATAFORMA que autoridades de Macau e da China têm mantido reuniões com representantes das concessionárias, nas quais foi indicado que estas devem fornecer previamente informação, incluindo a nacionalidade, sobre os artistas que pretendem trazer para atuar em Macau.
O PLATAFORMA contatou a Polícia de Segurança Pública, o Instituto Cultural e a Direção dos Serviços de Turismo para confirmar as razões dos cancelamentos e se existe uma eventual proibição de artistas japoneses, mas não obteve resposta até ao momento da publicação.
“Decisões comerciais”
A diretora do Instituto Cultural, Leong Wai Man, afirmou no mês passado que os cancelamentos são “decisões comerciais” e defendeu que a vaga recente “não vai causar grande impacto” no plano do Executivo para posicionar Macau como uma cidade internacional de espetáculos. Já Helena de Senna Fernandes, diretora dos Serviços de Turismo, disse aos jornalistas durante uma conferência de imprensa, que “hoje em dia Macau recebe muitos concertos tanto de artistas do interior da China como internacionais. Até hoje realmente muitos nomes vieram a Macau e eu acho que esta tendência vai continuar”.
É neste enquadramento que se insere o cancelamento do festival de música Show! Music Core in Macau, previsto para 7 e 8 de fevereiro no centro de espetáculos do Cotai. O organizador, a empresa sul-coreana MBC, justificou a decisão com uma “revisão abrangente das circunstâncias locais e das condições logísticas gerais”, sem prestar mais explicações.
Não é a primeira vez que tal acontece no maior espaço de espetáculos ao ar livre de Macau, com capacidade para mais de 50 mil espectadores e gerido atualmente pelo Instituto Cultural. Um concerto dos Black Eyed Peas, agendado para 21 de novembro de 2025, foi também cancelado devido a “circunstâncias imprevistas”.
[Cancelamentos próximos da data] podem gerar sentimentos negativos, não só entre os participantes, mas também entre futuros organizadores
O mais recente cancelamento soma-se a uma série de decisões semelhantes nos últimos meses envolvendo artistas japoneses. O evento Show! Music Core in Macau iria contar com vários grupos de K-pop, incluindo Enhypen e Le Serafim, que têm membros nipónicos. A imprensa sul-coreana noticiou possíveis dificuldades na obtenção de vistos para artistas japoneses.
Concertos da cantora pop Ayumi Hamasaki, da banda Hi-Fi Un!corn e da cantora Mika Nakashima foram igualmente cancelados de forma súbita, pouco depois de vários espetáculos de artistas japoneses terem sido cancelados na China continental no final do ano passado.
Os acontecimentos surgem num contexto de crescente fricção política entre Pequim e Tóquio em torno de Taiwan. As tensões agravaram-se depois de, em novembro do ano passado, a primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi ter afirmado no Parlamento que um ataque contra Taiwan poderia representar uma “situação que ameaça a sobrevivência” do Japão, desencadeando fortes críticas de Pequim.
Embora nunca formalmente anunciadas, estas restrições recordam as impostas pela China à cultura pop sul-coreana desde 2016, após a instalação do sistema antimíssil norte-americano THAAD na Coreia do Sul. Apesar disso, Macau e Hong Kong tornaram-se destinos raros onde fãs chineses ainda podem assistir a grandes espetáculos, ajudando a atrair visitantes mais jovens e a diversificar o turismo para além do Jogo.

