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Fragilidades estruturais na retoma económica

Em 2025, a economia de Macau continua a ajustar-se no quadro da recuperação pós-pandemia. O Jogo e o Turismo permitem estabilizar as finanças públicas; contudo, o consumo além-fronteiras, a forte concentração setorial, e a falta de mobilidade profissional dos jovens, expõem desafios estruturais. Académicos e deputados analisam um modelo de desenvolvimento em fase de transição, ainda longe de uma verdadeira reconfiguração estrutural

Viviana Chan

O desempenho económico de Macau em 2025 dá continuidade à recuperação iniciada após a pandemia, sem que se observem alterações significativas na estrutura produtiva. Segundo Zeng Zhonglu, presidente da Associação de Estudos do Jogo da Ásia-Pacífico e professor do Centro Pedagógico e Científico nas Áreas do Jogo e do Turismo da Universidade Politécnica de Macau (UPM), “a atual fase de diversificação económica reflete-se sobretudo na escala e no volume do investimento, mais do que numa transformação estrutural.”

Em declarações ao PLATAFORMA, Zeng Zhonglu cita um estudo da sua autoria, publicado na revista World Gaming and Tourism Research, sobre a avaliação do cumprimento da responsabilidade social das empresas concessionárias de Jogo em Macau nos anos de 2023 e 2024. Nesse período, as seis concessionárias contribuíram com 164 mil milhões de patacas para as finanças públicas; cerca de 82% das receitas correntes do Governo, e aproximadamente 76% das receitas totais. O setor é o principal pilar das finanças públicas e do emprego, mantendo-se um elevado grau de concentração industrial.

Relativamente ao processo de diversificação económica, Zeng Zhonglu explica que, entre 2023 e 2024, as receitas não provenientes do Jogo totalizaram cerca de 70,8 mil milhões de patacas, com maior peso nos segmentos de convenções e exposições, espetáculos de entretenimento, hotelaria e serviços associados. Apesar de tudo, números que “já registam um crescimento efetivo”; mas “o aumento das receitas não provenientes do Jogo, por si só, não equivale a uma transformação estrutural da economia”.

O estudo acrescenta ainda que esse desenvolvimento continua ancorado nos resorts integrados, com atividades “altamente dependentes da operação do Jogo”, sem dar origem a setores capazes de operar de forma autónoma, e competitividade externa. Embora as expectativas do Governo e da sociedade em relação às concessionárias se concentrem no “desenvolvimento de atividades não relacionadas com o Jogo”, e na “promoção de uma diversificação económica adequada”, a implementação prática tem-se traduzido sobretudo no aumento do volume de investimento e do número de projetos.

O aumento das receitas não provenientes do Jogo, por si só, não equivale a uma transformação estrutural da economia

Zeng Zhonglu, académico nas áreas do Jogo e Turismo

Zeng Zhonglu explica, por isso, que a diversificação económica é “um processo em curso”, e não uma transformação estrutural já concretizada. Conclui que, “apesar dos progressos alcançados, durante um período considerável, a economia de Macau deverá continuar assente no Jogo, cabendo às restantes atividades um papel complementar.”

Jovens limitados

A deputada Wong Kit Cheng considera que os dados de 2025 são sinal de melhoria gradual na situação laboral dos jovens; contudo, “o mercado de trabalho continua em ajustamento.” Nesta fase, sublinha, “não devem ser feitas leituras excessivamente otimistas.”

Citando estatísticas oficiais referentes aos primeiros três trimestres do ano, a deputada indica que o desemprego regista uma tendência de descida – entre os 25 e os 44 anos de idade – mas aumenta entre os 16 e os 24. Embora entenda que esta variação está relacionada com a época de graduação, e oscilações de curto prazo, que “considerada normais.”

No domínio das políticas de emprego, destaca o caráter mais ativo das medidas governamentais nos últimos anos; incluindo a organização semanal de quatro sessões específicas de encaminhamento profissional, e a realização anual, pelo menos, de quatro grandes feiras de emprego. Iniciativas que procuram garantir ligação ao mercado de trabalho, em especial nos setores da banca, hotelaria, e comércio a retalho. De acordo com dados dos oficiais, mais de 5.200 colocações foram concluídas no primeiro semestre do ano, mais de metade destinadas a jovens com menos de 35 anos, o que demonstra a competitividade deste grupo no quadro de apoio ao emprego.

A melhoria dos indicadores de emprego pode não traduzir-se, de forma imediata, numa mobilidade ascendente efetiva

Wong Kit Cheng, deputada

Quanto aos novos setores, Wong Kit Cheng refere que o Governo está a alinhar a estratégia com o 15°. Plano Quinquenal nacional, e com a Zona de Cooperação Aprofundada em Hengqin, impulsionando áreas como a tecnologia avançada, saúde, finanças modernas, turismo cultural e convenções. Através de mecanismos como “uma prova, múltiplas certificações”, e do reconhecimento de qualificações profissionais além-fronteiras, pretende-se alargar as oportunidades de emprego para os jovens. A deputada lembra que, desde fevereiro, foi introduzido um regime de subsídios ao emprego dirigido a jovens de Macau na Zona de Cooperação, reforçando o apelo do trabalho transfronteiriço.

Ainda assim, alerta Wong Kit Cheng, “permanece incerta a capacidade de absorvem os jovens de Macau.” Continuam por esclarecer questões como a adequação profissional, remuneração, e perspetivas de progressão; “pelo os dados estatísticos podem não refletir uma mobilidade ascendente concreta. O sucesso das políticas, conclui, dependerá sobretudo de percursos profissionais estáveis, com margem de desenvolvimento no médio e longo prazo.”

Natureza transitória

No âmbito do desenvolvimento regional, o deputado Chan Lai Kei considera que, em 2025, “a integração na Grande Baía deve ser entendida como uma fase marcada pela prioridade às instituições e às infraestruturas, com benefícios graduais na vida quotidiana; ou seja, ainda sem um grau de maturidade plena.”

Chan Lai Kei refere que o projeto Novo Bairro de Macau – Hengqin – entrou em funcionamento pleno; com escolas, posto de saúde e centro de serviços para idosos progressivamente em operação; o que proporciona aos residentes de Macau que vivem em Hengqin condições habitacionais mais próximas das existentes na RAEM. Paralelamente, o serviço transfronteiriço de ambulâncias entre Zhuhai e Macau entrou em fase experimental, o que, apesar das restrições ainda existentes, representa um avanço relevante na articulação dos serviços de saúde.

Subsistem diferenças nos regimes fiscais e jurídicos, bem como em procedimentos administrativos; barreira invisível ao desenvolvimento transfronteiriço

Chan Lai Kei, deputado

Ao nível dos transportes e da mobilidade, o regime “automóveis de Macau a circular no Interior da China” continua a ser otimizado, em conjunto com a melhoria dos procedimentos de passagem fronteiriça. O reconhecimento mútuo de qualificações profissionais tem igualmente sido alargado a áreas como a construção, saúde e serviço social, facilitando o exercício profissional além-fronteiras.

Ainda assim, Chan Lai Kei aponta desfasamentos na articulação institucional. No caso dos residentes de Macau que vivem por longos períodos em Hengqin, o regime de dupla proteção social, incluindo contribuições para o Fundo Central de Previdência, e outros benefícios, continua a depender de pedido individual e da regra dos “cento e oitenta e três dias”. Estas diferenças temporais na aplicação das políticas geram constrangimentos para alguns residentes, afetando a sua disposição para trabalhar e viver a norte da fronteira.

Apesar de algumas qualificações profissionais serem já reconhecidas, “subsistem diferenças nos regimes fiscais e jurídicos, bem como em procedimentos administrativos”; “barreira invisível” ao desenvolvimento transfronteiriço. Conclui o deputado que, embora haja já “facilidades visíveis”, “é necessário aprofundar a integração institucional e os mecanismos de apoio para que estas se traduzam num suporte económico e laboral estável.”

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