Os últimos relatórios norte-americanos denunciam a multiplicação na China da produção de mísseis – médio e longo alcance. E é um facto que, nas comemorações do aniversário da vitória contra o Japão, Xi Jinping rodeou-se de Putin e Kim Jong-un precisamente para demonstrar esse poder. O que Washington não diz – nem lamenta – é que a corrida bélica teve o tiro de partida precisamente na Casa Branca, quando Obama armou até aos dentes os seus aliados que cercam a China; tendo a NATO feito o mesmo nas fronteiras com a Rússia. Afinal, a nova ordem alimenta a velha armadilha militar.
A economia de guerra ofusca os amanhãs que cantam a paz; e o mundo recua para práticas – e narrativas – de um ontem longínquo, reerguendo machados supostamente enterrados nos escombros do Muro de Berlim. Há nisto várias explicações que se conjugam: uma delas é a afirmação da China como incumbente de uma nova ordem mundial, ameaçando a hegemonia do eixo atlântico em termos económicos, tecnológicos, militares; e, até, no campo dos modelos políticos; a outra é puramente economicista, no sentido em que a economia da guerra é uma das formas de reanimar o PIB, para além de reforçar lobbies rentistas, cada vez mais influentes e poderosos; e há o advento dos nacionalismos e protecionismos, muito próprios das crises económicas e da degradação dos regimes… Está nos livros que, neste ambiente, saltam da caixa de Pandora os discursos messiânicos, que ensaiam de um lado os santos que sorvem do Graal o veneno cultural os faz sentir na obrigação de salvar o outro do inferno, dando o corpo e a alma para derramar o sangue que for preciso.
É nestes momentos que se percebe que o ‘homo sapiens’ não é tão sensível à História quanto pensa. Há mesmo na sua natureza qualquer coisa que o atrai ao abismo; um músculo animal qualquer travestido de valores e cultura
É nestes momentos que se percebe que o ‘homo sapiens’ não é tão sensível à História quanto pensa. Há mesmo na sua natureza qualquer coisa que o atrai ao abismo; um músculo animal qualquer travestido de valores e cultura. E nada nisto é novo! Tucídides explicou há muito – e bem – o encanto da sereia pela armadilha, desde os tempos em que Atenas se sentiu ameaçada por Esparta; e podemos vê-la em todos os tempos da História, em sucessivas guerras caóticas, em contextos em que toda a gente se sente no direito e na obrigação de matar e morrer em nome de estórias de encantar que produzem no caos de hoje os deuses e os heróis do amanhã. É o que é; não somos pombas nem golfinhos, somos apenas os animais que somos; aos quais é difícil pedir que sejam outra coisa.
Mas há mais; há mesmo muito mais; há sobretudo uma extensa lista de prioridades que é mesmo preciso atacar, de forma conjunta e conjugada: há um planeta doente com o vírus do Homem, que só o Homem pode salvar – salvando-se a si próprio; há uma disparidade gritante na distribuição da riqueza e níveis grotescos de multiplicação da pobreza; há ameaças mesmo sérias ao valor das forças braçal e intelectual, face à indústria 4.0 e à Inteligência Artificial; e há esse deus verdadeiramente menor – imoral e mortal – do messianismo que ilude uns com argumentos morais que os leva a menorizar os outros; dominá-los; no fundo, a salvá-los deles próprios.
Já todos vimos disto; os nossos pais viram disto; os nossos avós viram disto… E, contudo; por razões que o Homem teima em repetir, voltamos a armadilhar o mundo e a correr de volta ao mesmo. O novo ciclo, afinal, é velho; é mais do mesmo e, como sempre, muito perigoso.
*Diretor Geral do Plataforma