Os 24,1 mil milhões de patacas arrecadados no Jogo, em Outubro, batem em mais de 15 por cento o período homólogo do ano passado: a melhor performance desde outubro de 2019. Quer isto dizer que as operadoras navegam em água doce: se é verdade que o turnover já foi maior; reduziram substancialmente os custos operacionais, incluindo nos recursos humanos; e gastam muito menos em comissões e luxos antes absorvidos pelo submundo VIP. Ou seja, o EBITDA é ainda melhor do que os resultados brutos indicam. Quer isto também dizer que o Executivo acabará o ano com uma margem orçamental bem acima das projeções oficiais; mas também significa que a receita gerada pelos resorts integrados – direta e indireta – está cada vez mais próxima dos 84.5 por cento do total arrecadado pelo Estado, como em 2019.
É cristalino hoje em Macau, Pequim, ou no mundo da lua, que a diversificação continua ao ritmo da morte lenta. Pese o dilema ideológico do Partido Comunista Chinês com esta indústria, as óbvias desvantagens da dependência de um único setor; e de uma sociedade de oligopólios; certo é que, no curto e médio prazo, a única solução continua a ser atrair jogadores. Sejam eles do mercado de massas; ou do VIP que, longe de ter acabado, representa pelo menos 14 por cento das fichas na mesa. Aliás, fecham cada vez mais lojas, bares e restaurantes nos resorts integrados, sendo cada vez maior a oferta de espaços privados de luxo – o que diz muito sobre o turista que mais conta.
Não é possível andar só com a perna da diversificação; pelo que a perna do Jogo, que volta a correr, tem de pôr a outra, que é manca, pelo menos a andar
Apesar de tudo, pior seria que o Jogo derrapasse, como está a acontecer no comércio tradicional e nas PME em geral. Havendo superavit, o chamado bom problema coloca-se ao nível da escolha, do foco, da capacidade de execução e do investimento na diversificação.
Os ecos que chegam de Pequim são os de uma semiótica política renovada: não é possível andar só com a perna da diversificação; pelo que a perna do Jogo, que volta a correr, tem de pôr a outra, que é manca, pelo menos a andar. É a missão mais difícil de Sam Hou Fai; aliás, há muito repetida por Pequim aos seus antecessores. Na realidade, a explosão do PIB nos mandatos de Edmund Ho deu tempo e espaço a Chui Sai On para dedicar mais tempo a distribuir do que a investir; depois, o Covid retirou margem a Ho Iat Seng, que pouco mais fez do que resistir. Mas os tempos mudaram, e o novo ciclo será muito mais exigente em matéria de diversificação.
O caminho é longo, e não há magias. Mas independentemente dos planos já traçados – próprios de uma economia centralizada – há dois ou três caminhos que urge percorrer: planos urbanísticos que recuperem o parque habitacional, aumentem a oferta, baixem o custo das rendas; e redesenhem a cidade para ser mais atraente, culta e divertida; depois, definir claramente os eixos de investimento em Hengqin, atraindo pessoas e capital – local, nacional e internacional. Macau ter plena jurisdição sobre a Ilha da Montanha, aumentando a sua massa crítica e um mercado, no mínimo, com um milhão de pessoas, é de longe a melhor ideia. Finalmente, e mais importante, urge uma cultura de exigência educativa capaz de projetar uma sociedade de serviços competitiva na Grande Baía, e mundialmente respeitada. Da pré-primária às universidades, os miúdos têm de ser capacitados para o que aí vem, daqui a 30 anos; mas é também crucial deitar a mão às gerações adultas, em plena vida ativa, com múltiplos programas de formação profissional contínua que reconvertam milhares e milhares de pessoas que, de outra forma, perderão definitivamente o comboio.
A tarefa é longa, complexa e exigente; não é coisa para um mandato. O que se espera já nas próximas Linhas de Ação Governativa são sinais claros e concretos de visão estratégica, coragem política e capacidade técnica para se darem passos firmes no caminho certo: enxertar as sobras da perna que é gorda na outra que tem de ser posta a andar.
*Diretor Geral do Plataforma