Eleito por unanimidade para a Presidência da Assembleia Legislativa (AL), com 33 votos – incluindo o dele próprio – André. Cheong avisa que não quer deputados a “carimbar” tudo o que lhes apareça à frente; exortando-os à “crítica positiva” sob a “primazia do Executivo”. Mas nem ele nem o Chefe do Executivo disfarçam as evidências do novo ciclo: os deputados têm de andar na linha; deixam de ser eco da voz do povo – e dos setores corporativos – e vão ter de responder ao ritmo e à eficácia legislativa exigida pelo plano de reconversão urdido entre o Palácio do Povo e a Praia Grande.
Seja qual for a tese – pontapé para cima, ou promoção a segunda figura de Estado – André Cheong larga a Secretaria mais poderosa do Governo agarrando o desígnio de pôr a AL nos eixos do regime.Verdade seja dita, não há memória dos deputados terem alguma vez tido proatividade legislativa, muito menos retórica sofisticada e consequente sobre sociedade, economia, ou ação política.
Do lado positivo, este movimento, de cima para baixo, pode ao menos trazer alguma funcionalidade útil. Essa é a responsabilidade de todos os que não souberam antes fazer melhor. Mas há também uma incontornável erosão da autonomia e da diversidade no Segundo Sistema. Decisão que só pode ser assacada a quem pode e manda.
Por um raio qualquer terão sentido necessidade de conter o Segundo Sistema, apertando o cerco e eliminando nuances; sabendo bem que Macau não tem força nem vontade de pôr em causa o Primeiro – muito menos agora
Por um raio qualquer terão sentido necessidade de conter o Segundo Sistema, apertando o cerco e eliminando nuances; sabendo bem que Macau não tem força nem vontade de pôr em causa o Primeiro – muito menos agora.A visão mais simplista – talvez ingénua – é pensar que tudo se explica por obsessões inúteis e mentes mais papistas que o papa. Na verdade, quem de facto conta tem forte preparação política e larga experiência na condução de um país incomensurável, com enorme diversidade cultural, gerida com disciplina férrea debaixo de chapéu pluriconstitucional. Erram, claro, como toda a gente; têm vícios e dogmas de raciocínio próprios de um partido único; mas são tudo menos ingénuos.
Por que assumem então o desgaste da autonomia e da diversidade? Há um manto patriótico e securitário em Pequim, que inclui a omnipresença e a autoridade do Primeiro Sistema na condução do Segundo, com dupla pressão negativa: sobre o localismo; mas também sobre a imagem das regiões administrativas especiais como portas para o mundo. Mas o que é que faz agora disparar o que parece não ter lugar nem fazer sentido em Macau? Aliás, com o risco – assumido – de ser duplamente contraproducente: a panela de pressão pode implodir, se não liberta vapor; e as relações internacionais cozem em lume brando com mais bloqueios à China.
Há uma razão distante, que vem dos protestos de Hong Kong – 2014 e 2019 – e deu palco aos teóricos do controlo radical das regiões administrativas especiais; e há também a evidência de que Macau, governado pelas suas gentes, deixou sempre muito a desejar em termos de perfil económico e de maturidade política – mais uma vez, por responsabilidade própria. Mas há também na linha do horizonte mudanças estruturais que anunciam dúvidas e tensões – quer no povo quer nas elites. Isso sentiu-se logo nos primeiros meses do mandato de Sam Hou Fai; e a tentação de as prevenir é agora maior do que a confiança em saber geri-las. Finalmente, quiçá mais decisivo, há no próprio Partido Comunista um debate surdo sobre a condução interna do país – e suas relações externas – num mundo cada vez mais incerto e conturbado. Ainda por cima, na antecâmara da discussão do quarto mandato de Xi Jinping.Tudo isto é muito mais sério e consequente do que a ilusão de acasos e derivas. Macau está no olho de um tufão político; sem força nem sensibilidade para cavalgar um dragão em fúria.
*Diretor-geral do Plataforma