Uvas-passas, vinho português e casca de laranja são mais do que simples ingredientes do “Cake”; para Fátima Sousa, evocam o sabor da cozinha da mãe. No fim de semana passado, a Associação dos Macaenses e a Associação de Estudos da Cultura Macaense organizaram conjuntamente um ‘workshop’ dedicado ao tradicional “Cake” presente nos lares macaenses. Fátima, que orientou a demonstração, espera ver uma maior promoção da gastronomia macaense, afirmando que, apesar de já estar reconhecida como património imaterial, gostaria que mais pessoas a ensinassem, pois ler uma receita não significa saber fazê-la.
Cada família tem os seus pratos característicos, sabores únicos que transportam memórias importantes entre entes queridos. Para Fátima, o “Cake” é precisamente esse sabor. Foi o bolo que a mãe lhe ensinou a fazer pessoalmente antes de falecer, pouco antes do Natal. Lembra-se bem que, no passado, a sua única tarefa era preparar os ingredientes para a mãe, que era extremamente exigente — só aceitava vinho português, e tinha de ser vinho do Porto escuro. Fátima sorri ao recordar que, uma vez, não encontrou vinho do Porto escuro e comprou branco, e a mãe ralhou-lhe bastante. Após a morte da mãe, Fátima deixou de fazer o “Cake” durante algum tempo, mas mais tarde pensou que, quando a mãe lhe ensinou a fazer o bolo, talvez quisesse que ela continuasse a tradição. Por isso, voltou a fazê-lo, e a família diz que, cada vez que o prepara, sabe melhor e mais parecido com o da mãe.
Culturas como a chinesa deixaram mais registos e referências, enquanto que há muito pouca documentação sobre os macaenses
Ubaldino Couto, Associação de Estudos da Cultura Macaense
O “Cake” é uma sobremesa comum nas casas macaenses durante o Natal. Ubaldino Couto, membro da Associação de Estudos da Cultura Macaense, observa que “ainda há pouca investigação sobre o ‘Cake’ macaense”. Segundo as informações que reuniu, algumas famílias macaenses saboreiam o bolo como parte da ceia de Natal, depois da missa do galo, cantando cânticos enquanto celebram. Como cada família tem as suas preferências, as receitas variam. Há quem considere que o “Cake” macaense se assemelha ao ‘Christmas cake’ britânico, mas a origem exata da receita continua incerta. Tradicionalmente, o bolo é feito em grandes quantidades, para ser partilhado, e embora seja mais comum no Natal, as famílias macaenses também o preparam noutras ocasiões importantes, como casamentos.
Marina de Senna Fernandes, da Associação dos Macaenses, explica que os “preparativos para o Natal envolvem muitas tarefas” na cultura macaense, e que as uvas-passas para o “Cake” devem ser postas de molho em vinho com bastante antecedência. No passado, as famílias começavam já em outubro ou novembro, razão pela qual o ‘workshop’ foi realizado nesta altura do ano. Antigamente, era preciso pôr as passas de molho meses antes — quanto mais tempo, melhor. Como o bolo não leva ovos nem leite e os outonos de Macau costumavam ser mais frescos, podia conservar-se durante muito tempo se fosse bem guardado. Depois de cozido, deve ser embrulhado num pano de cozinha e refrigerado, e antes de servir deve ser pincelado com vinho todas as semanas para se manter húmido.
Registar a tradição
A vida moderna é mais apressada, e muitos pratos tradicionais complexos foram desaparecendo das tradições familiares. Ubaldino Couto, da Associação de Estudos da Cultura Macaense, reconhece que “hoje em dia poucas famílias se dão a tanto trabalho”, preferindo simplesmente comer fora durante as festividades por comodidade. Conta que uma das razões para a criação da associação “foi precisamente dar a conhecer estas tradições”, recordando que a cultura chinesa foi amplamente registada e promovida, e as pessoas estão muito familiarizadas com ela. Todos partilham memórias dos pratos que as mães faziam nas festas e de como os mais velhos se dedicavam nessas alturas, e nas famílias macaenses é exatamente igual.
Ubaldino aponta que, devido à dimensão populacional, “culturas como a chinesa deixaram mais registos e referências, enquanto que há muito pouca documentação sobre os macaenses”, e muitas pessoas pensam que se trata apenas de pratos caseiros comuns, sem nada de especial. Acredita que uma das tarefas mais importantes é a “investigação académica”, lembrando que no passado várias pessoas quiseram estudar o tema, mas era difícil encontrar entrevistados. Parte do motivo pelo qual fundaram a associação foi usar as suas próprias redes para facilitar a pesquisa, pois cada pessoa que participa deixa mais um registo e as gerações futuras terão mais referências.
A comida macaense representa identidade
Marina de Senna Fernandes, Associação dos Macaenses
A gastronomia macaense é diversa, muito além do Minchi e do frango africano. Para Marina, “a comida macaense representa identidade” e conta uma história bonita — a de um lugar onde pessoas chegaram por motivos comerciais ou missionários, mas acabaram por criar raízes. Podiam ter vindo de Portugal, África, Índia, América do Sul, China ou Malásia. Fátima também vê a cozinha macaense como uma “fusão de diferentes culturas” e espera que mais pessoas se juntem para a demonstrar e promover. Apesar de ser património imaterial, acredita que mais pessoas deveriam ensiná-la, porque uma receita, por si só, não basta. Muitos, depois de verem uma demonstração, percebem o quão complexo é e preferem comprá-lo em vez de o fazer, o que considera perfeitamente natural.