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“Os jovens macaenses têm de arregaçar as mangas e deixar a zona de conforto”

Catarina Brites SoaresCatarina Brites Soares

O novo presidente da Associação dos Jovens Macaenses (AJM) defende que está na hora de mudar. A regionalização de Macau e a integração na China continental assim o obrigam. Recém-eleito para o triénio 2022-2024, António Monteiro afirma que a comunidade tem de se abrir, deixar a crise identitária de lado e apostar em valências que lhe permitam afirmar-se no país. Na nova era, exemplifica, será inconcebível que um macaense não saiba falar mandarim

Que papel tem a AJM na Macau de hoje?

António Monteiro – Quero que haja uma abertura gradual à comunidade chinesa local e às associações de Macau. Nestes últimos dois anos, muito mudou. Estamos limitados e os fundos sofreram cortes. Os macaenses têm de ter uma mentalidade e visão diferentes sem esquecer quem somos e de onde viemos. Há que ter em conta as nossas potencialidades porque afinal de contas somos os Filhos da Terra. Podemos ser uma plataforma em todos os sentidos.

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A que se refere?

A.M. – Temos gente ligada a todas as áreas: cultura, educação, negócios e em presas, desporto, investigação, bilingues e multilingues. Não consigo conceber Macau sem os macaenses, mas a comunidade tem de pensar o que pretende aqui e na Grande Baía. Está claro que o rumo é integrar na China. Temos de pensar se queremos ser o comboio movido a carvão ou o TGV, e se queremos estar ao nível dessa vasta competição que é a Grande China. Os jovens não podem ignorar que a integração será cada vez maior. Ouço dizer que Macau tem de diversificar. Uma das propostas que tenho é a de alargar o âmbito de ação do Fórum Macau para que se torne um espaço aberto a atividades que promovam a relação entre a China e os lusófonos.

Pode pormenorizar?

A.M. – O Fórum pode usar associações como a AJM e outras entidades locais para criar um espaço de networking, e de discussão de ideias.

Como vê o 10 anos da AJM?

A.M. – No início, a tónica esteve na relação empresarial através de visitas de intercâmbio com a China. É bom, mas não chega. Queremos investir em formação de jovens e fortalecer o conhecimento da história e cultura de Macau assim como o conhecimento da China e da Grande Baía através de intercâmbios. Outra das prioridades é manter a ligação com os jovens das casas de Macau na diáspora. A Associação deve ser mais aberta, e não estou a limitar-me à comunidade macaense, estou a incluir todos os jovens
de Macau que têm interesse na comunidade e querem colaborar. No momento que atravessamos – em que os apoios são cada vez mais reduzidos -, se não trabalharmos cada vez mais com os chineses locais que estão inseridos na comunidade, vamos perder o comboio. Ao mesmo tempo nunca podemos esquecer a nossa ligação com a comunidade portuguesa e suas instituições. Não podemos ser uma repetição da Associação dos Macaenses (ADM).

O que vos distingue?

A.M. – Se formos pelo nome, talvez comece por essa abertura maior que interessa aos jovens. As associações mais antigas trabalharam em prol da preservação da história e da cultura. As associações como a ADM podem ser uma porta para os jovens conhecerem o passado dos macaenses e a AJM o futuro.

A regionalização e integração na China podem ameaçar a comunidade?

A.M. – Os macaenses sempre tiveram estes desafios na sua História. Temos de nos adaptar à nova realidade sem perder o legado cultural. Quando se fala em diversificação económica, trabalhar com a Grande Baía e sermos uma plataforma, o macaense, pelo menos o jovem, tem de se adaptar e estar consciente de que não pode pôr de parte o lado português mas que, ao mesmo tempo, tem de investir em formação para estar integrado na China. O que temos de mais forte é sermos o elo entre a China e Portugal.
Temos de saber tirar partido disso.

Que relevância terá a comunidade, e em especial os jovens, nesta nova fase?

A.M. – Os jovens macaenses têm de arregaçar as mangas e deixar de estar na sua zona de conforto.

Ou a comunidade acabará absorvida?

A.M. – Fomos sempre uma comunidade minoritária. Mas ao mesmo tempo, sempre tivemos a nossa relevância precisamente por sermos essa prova viva da História e da Cultura de Macau. Um dos pontos pelos quais me bati foi a colaboração com os Embaixadores da Cultura, porque podem abrir portas. Não podemos ignorar os jovens chineses que se interessam pelo passado, pela História, e pelas comunidades macaense e portuguesa.

Ao longo dos anos, tem sido notório desaparecimento de macaenses de posições relevantes da sociedade civil, como a Assembleia Legislativa. Como interpreta a ausência progressiva?

A.M. – Sempre houve espaço para os macaenses. Um dos fins da AJM é contribuir para Macau. Não podemos pensar que nos chegam as personalidades da gastronomia macaense e do Patuá. Temos de criar novas marcas e fazer com que os jovens se interessem mais pela vida associativa. A comunidade foi envelhecendo, mas os jovens estão por aí. O problema é que estão perdidos. A direção de Macau é clara: a integração na Grande Baía. Os macaenses têm de perceber que têm de estar neste novo futuro e como podem estar. Temos de nos adaptar à realidade. Os filhos dos macaenses, por exemplo, têm de aprender o mandarim e não podem estar na sua zona de conforto como tem sido nos últimos anos.

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Que significa estar na zona de conforto?

A.M. – Macau é confortável. O tempo está a passar e estamos cada vez mais perto de 2049. Temos de pensar no nosso futuro. Ao mesmo tempo, entendo que a China considera que Macau tem uma identidade: o nosso legado português visível na arquitetura, na gastronomia e noutros campos. Temos potencialidades que podemos levar
para a China. As pessoas repetem o slogan da integração, mas não sabem muito bem como isso vai acontecer. Não vêem vantagens e questionam-se porque têm de ir para a China se a sua terra é Macau. O que temos de pensar é que só podemos usar Macau como plataforma.

A abertura a outras comunidades que defende não acaba por desvirtuar a identidade da associação?

A.M. – Defendo a abertura no sentido de poder acolher mais gente desde que comungue dos interesses da cultura e identidade da comunidade, mas a liderança deve ser constituída pelas gentes macaenses. Ainda sou conservador neste aspeto. Não obstante, não podemos pôr de parte chineses locais que compreendem a cultura e identidade macaenses, até porque os estatutos definem que a AJM é uma plataforma de congregação das comunidades existentes em Macau sem ser unicamente a macaense. A comunidade tem as suas sensibilidades, mas não podemos continuar a alimentar esta crise identitária.

Tem sido problemática?

A.M. – Divide a comunidade e quem quer fazer parte dela. Há jovens que não são naturais de Macau, mas amam a região e a sua cultura, como por exemplo os da diáspora que trabalham, investigam e se dedicam à comunidade de igual forma apesar de não terem nascido, nem viverem aqui. Será que o macaense tem de ser obrigatoriamente o chinês-português nascido em Macau? Os livros já dizem que não.

Que quer dizer?

A.M. – Ao longo dos anos houve uma evolução e o macaense é aquele que se identifica com Macau e com a comunidade macaense. Não é agora que vão dizer que os chineses locais que se identificam com ambas as partes podem ameaçar a comunidade e a cultura. Temos de ver quem está connosco e quem não está. Vejo muita gente desinteressada, mas também vejo muitos jovens interessados que ao longo destes 10 anos não tiveram oportunidade de contribuir. É tarde? É, mas não é tarde de mais.

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