Ainda o Chefe do Executivo negociava o seu elenco – novembro do ano passado – em Pequim, já o PLATAFORMA avançava a hipótese de Wong Sio Chak transitar da Segurança para a Administração e Justiça – e número dois do Governo. Entretanto, André Cheong não só resiste na pasta como acumula Hengqin; surpreendendo quem garante que o plano de Sam Hou Fai; afinal, era outro. Menos de um ano depois, o que seria então natural, à luz do novo ciclo; surge em formato de crise – inédita e intrigante. Justiça seja feita… bem gerida; ou melhor, contida; com Sam Hou Fai a projetar autoridade, mas também controlo e coesão. Todos falaram… a uma só voz: quem entra, quem sobe, e quem sai.
Cheong está a ser “vendido” como próximo presidente da Assembleia Legislativa; tese que lhe dá a face de ser o pivô da visão de Xia Baolong: Legislativo a servir o Executivo. Como segunda figura do Estado, manter-se-ia no epicentro do regime; até correndo por fora à futura sucessão ao Palácio. Não está morto – de todo. Vai cumprir a função e esperar pelo destino que terá a linha que hoje domina o Palácio. Mantém apoios e redes – nacionais e locais – e é visto em vários setores, incluindo os tradicionais, como um mediador experiente entre o poder central e o localismo. Ou seja, gosta dele o status quo que não gosta de modernismos, e estrangeirismos; e quer conter a competição nacional. Ainda assim, é no mínimo difícil comprar a ideia de que um pontapé, ainda que para cima – formalmente – seja na prática uma promoção. O poder real está no Executivo; e era aí que Cheong tinha mão no Jogo, na integração regional, na reforma da Administração… até nas relações externas. Agora não toca mais nisso.
O peso mais pesado é mesmo Wong Sio Chak, cada vez mais perto do Palácio (…) Muitos veem nele o controlador, dado o seu histórico policial; outros descrevem-no como legalista, sensível à cultura jurídica portuguesa; e, sobretudo, fiel e competente
Na versão mais dura e crua, Sam Hou Fai deu mesmo um murro na mesa; embora negociando esta queda aparada: deputado nomeado. É voz corrente que a relação entre os dois era tensa; haja, ou não, algum episódio recente – grave e definitivo. Nesta tese, Cheong ganha a primeira batalha, ao ser renomeado; mas cedo perde a guerra; Sam Hou Fai cede num primeiro momento, e agora impõe a coesão, à sua maneira, fazendo ascender Wong Sio Chak. Chan Tsz King, que agarra a Segurança, é também tido como próximo do Chefe – e de Wong. O Lam, que a partir dos Assuntos Sociais e Cultura gere a maior fatia do Orçamento, ganha também ela margem política e aura renovada – livre da sombra de Cheong.
O peso mais pesado é mesmo Wong Sio Chak, cada vez mais perto do Palácio. Mantém-se a dúvida de saber se é capaz de personificar a modernização e a abertura – discurso nacional para Macau – ou se é mesmo a face dura e securitária do regime. Muitos veem nele o controlador-mor, dado o seu histórico policial; outros descrevem-no como legalista, sensível à cultura jurídica portuguesa; sobretudo fiel e competente. Larga agora a sua pasta de conforto, expondo-se a reformas difíceis, na Administração e na Justiça; além da missão Hengqin – quase impossível. Se não acumular essa responsabilidade, à semelhança do seu antecessor, perde estatuto; se lha derem, ganha o presente quiçá mais envenenado.
O secretário para a Economia e Finanças é outro nome na baila; por ser dele a tutela natural de Hengqin. Estrela emergente do novo ciclo, vai depressa perdendo brilho no buraco negro de uma diversificação que não se vislumbra – nem perto, nem longe. Tai Kin Ip corre mesmo o risco de ser o bode expiatório que resta para absorver o desgaste do Executivo.
*Diretor Geral do Plataforma