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Plano a voar e realidade a pesar

Paulo Rego*

É positivo que o Chefe do Executivo (CE) se tenha prestado a uma miniconferência de imprensa, à saída de um evento, no fim de semana passado. Há muito que não o fazia; e o silêncio mais não faz que adensar a tensão que anda no ar. Contudo, os sinais que deixa são preocupantes: por um lado, embora os números oficiais sugiram pleno emprego, Sam Hou Fai reconhece um problema de empregabilidade. Aliás, percebe-se que a indústria do Jogo está maturada, revendo em baixa os resultados; e nenhuma outra mostra capacidade de inovação e crescimento – antes pelo contrário. Por outro, a mensagem que o CE envia é a da “prioridade ao emprego local”. Entende-se, na lógica da política interna, face a uma cultura protecionista; mas assim prenuncia bloqueios renovados à importação de massa crítica, o que complica ainda mais a diversificação económica e a atração do investimento. É nesta altura óbvio que não há novos empregos, nem em Macau, nem em Hengqin; nó górdio cada vez mais difícil de desatar.

Revista em baixa a projeção para este ano na receita dos casinos – de 240 para 228 mil milhões de patacas – a crise imobiliária, o fecho em catadupa de lojas, restaurantes, pequenos e médios negócios… anunciam na economia real uma queda bem maior que a do Jogo. Ou seja, mesmo caindo a sua contribuição bruta no PIB, a dependência do Jogo será ainda maior em termos percentuais – não espanta que ultrapasse os 85 por cento. Estamos, portanto, perante uma encruzilhada. Onde está o investimento chinês, ou estrangeiro, para criar novas empresas e novos empregos? Como é possível atraí-los, anunciando que continua a depender da mão de obra local? Não se pode descurar o emprego local, sob pena das tensões sociais se tornarem disruptivas, mas também não é possível inovar e crescer sem incluir massa crítica vinda de fora. Pior ainda… perante a pressão económica, e a estratégia cada vez mais clara de deflação, este mercado torna-se cada vez menos atrativo, cada vez menos capaz de resolver problemas internos; e, simultaneamente, de investir em Hengqin, ou de promover a abertura e a internacionalização.

Perante a pressão económica, e a estratégia cada vez mais clara de deflação, este mercado torna-se cada vez menos atrativo, cada vez menos capaz de resolver problemas internos; e, simultaneamente, de investir em Hengqin, ou de promover a abertura e a internacionalização

Colateralmente, nas comemorações do 10 de Junho, a linguagem corporal e a postura de Sam Hou Fai deu muito poucos sinais – ou mesmo nenhum – de real convicção na plataforma lusófona. Apesar de ser bilingue, aceita-se que, tratando-se de uma cerimónia protocolar, tenha discursado em cantonês. Já não faz sentido é ter perdido a oportunidade, ao menos, de dizer “boa noite”, ou de ensaiar uma graça em português, no princípio ou no fim do discurso. Leu a mensagem de circunstância, em tom frio, a elogiar o papel e a importância da comunidade portuguesa, mas nem sequer se deu ao convívio, não falou com ninguém; e desapareceu assim que viu cumprido o papel institucional que ali foi desempenhar. O cônsul-geral de Portugal, Alexandre Leitão, ainda disse que, “arrumada a casa” no Consulado, este é agora o tempo da “diplomacia” e dos “negócios”. Contudo, suspensa a viagem de Sam Hou Fai a Portugal (ver página 5); e não havendo nesta altura sequer negociações para agenda da Comissão Mista – há muito adiada – não se vê porque via essa relação histórica – alegadamente prioritária – possa no curto prazo encaixar no plano geral desenhado para tirar Macau da cepa torta. Há nesta altura uma conversa de surdos: Portugal, descapitalizado, quer dinheiro daqui para lá; Macau, entalado entre um plano que faz todo o sentido teórico, mas não percebe como executá-lo, quer dinheiro de fora para resolver Hengqin. Como ninguém sabe como sair disto, continua a amizade no papel – e a realidade a voar.

* Diretor Geral do PLATAFORMA

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