– Que papel podem os ‘think tanks’ independentes, como o Observa China, desempenhar na aproximação entre Brasil e China para além da diplomacia oficial?
Alexandre Ramos Coelho – ‘Think tanks’ independentes, como o Observa China, cumprem um papel essencial ao promover conhecimento qualificado, análise estratégica e diálogo entre sociedades civis. Por atuarem com agilidade e autonomia, conseguem antecipar tendências e formular propostas concretas de cooperação. São instrumentos de confiança mútua e cooperação de longo prazo, especialmente em tempos de incerteza global.
– O Alexandre foi editor convidado da mais recente edição do Macau Journal of Brazilian Studies (MJBS). Poderia sumarizar os objetivos desta publicação da Associação de Estudos Brasileiros em Macau?
A.C. – O Macau Journal of Brazilian Studies tem como missão constituir um fórum internacional de referência, dedicado à promoção de estudos aprofundados sobre o Brasil e suas relações com a China, sob múltiplas abordagens analíticas. Os artigos publicados são direcionados a um público académico qualificado, especialmente na China, com o objetivo de ampliar o conhecimento sobre o Brasil e fomentar o diálogo intelectual entre os dois países. Gostaria de agradecer à professora Wei Dan, editora chefe da MJBS e professora da Universidade de Macau, pelo convite. Gostaria de salientar também que as MINHAS opiniões aqui não representam as opiniões da MJBS ou da Observa China.
[O Brasil] também avançou na cooperação monetária com o uso do renminbi, reduzindo a dependência do dólar. Essas respostas institucionais permitem ao Brasil manter-se relevante no cenário internacional
– Quais foram as áreas em foco da mais recente edição do MJBS?
A.C. – Esta edição especial investiga as dinâmicas em transformação das relações Brasil–China diante de desafios e oportunidades globais prementes. Selecionamos estudos que refletem a natureza multifacetada da cooperação Brasil–China, oferecendo perspectivas valiosas sobre a trajetória dessa parceria estratégica.
Os artigos abordam temas como: parcerias tecnológicas em semicondutores e TIC; impactos da reeleição de Trump nas relações comerciais do Brasil; transição energética e uso sustentável de minerais; transporte fluvial comparativo entre Brasil e China; política externa do Governo Lula em relação à China; investimentos chineses em projetos ambientais no Brasil; e uma análise comparativa da política de zero-Covid da China sobre empresas brasileiras e europeias.

-Tendo em conta os estudos publicados, quais são os desafios e as oportunidades das relações Brasil-China no meio das transformações geopolíticas, tecnológicas e ambientais que moldam o século XXI?
A.C. – As relações Brasil–China, no contexto das transformações geopolíticas, tecnológicas e ambientais do século XXI, combinam desafios estruturais e oportunidades estratégicas. Entre os principais obstáculos estão a excessiva dependência brasileira de ‘commodities’ (mercadorias), a assimetria tecnológica entre os dois países e as pressões geoeconómicas intensificadas pela rivalidade China-EUA. No entanto, também se abrem oportunidades promissoras, como a ampliação da cooperação em energias renováveis, a inserção brasileira em cadeias tecnológicas globais, a valorização do Brasil como fornecedor agrícola em meio à guerra comercial e o fortalecimento de mecanismos institucionais como a COSBAN [Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação]. A forma como o Brasil administrará essas dinâmicas determinará seu grau de autonomia e protagonismo em uma ordem internacional cada vez mais multipolar e fragmentada.
A instabilidade geopolítica não tem travado, mas sim redirecionado a cooperação entre Brasil e China para canais mais pragmáticos e estratégicos.
-Um dos estudos publicados centra-se nos “Desafios da nova Administração Trump: riscos, oportunidades e papéis institucionais nas relações Brasil-China”. Como descreveria as respostas institucionais e o posicionamento estratégico do Brasil sob as renovadas tensões entre os EUA e a China?
A.C. – Diante das novas tensões entre Estados Unidos e China sob a Administração Trump, o Brasil tem respondido com uma estratégia diplomática pragmática, buscando preservar sua autonomia. Em vez de alinhar-se automaticamente a uma das potências, fortaleceu sua parceria com a China por meio de instituições como a COSBAN e planos estratégicos bilaterais, que garantem estabilidade e continuidade nas relações. Também avançou na cooperação monetária com o uso do renminbi, reduzindo a dependência do dólar. Essas respostas institucionais permitem ao Brasil manter-se relevante no cenário internacional, diversificando parcerias e protegendo seus interesses em um ambiente global cada vez mais polarizado.
– Acredita que a instabilidade geopolítica global está a acelerar ou travar a cooperação académica e científica entre Brasil e China? Que setores do conhecimento têm maior potencial de avanço neste contexto?
A.C. – A instabilidade geopolítica não tem travado, mas sim redirecionado a cooperação entre Brasil e China para canais mais pragmáticos e estratégicos. Áreas como relações internacionais, semicondutores, telecomunicações, energia limpa, agricultura sustentável e infraestrutura logística despontam como setores com alto potencial de avanço. A busca por autonomia tecnológica e segurança económica tem estimulado iniciativas bilaterais em ciência e inovação, com apoio de universidades, centros de pesquisa e fóruns intergovernamentais.

O fortalecimento [de vínculos académicos com Macau] pode contribuir para uma maior inserção do Brasil em redes académicas na Ásia e para o desenvolvimento de projetos inovadores no âmbito da lusofonia
Macau ainda tem um lugar muito pouco presente nas relações entre o Brasil e a China? O que poderia ser feito para melhorar nesse capítulo?
A.C. – Macau ainda desempenha um papel discreto nas relações educacionais e académicas entre Brasil e China, apesar do seu grande potencial como elo entre a China e os Países de Língua Portuguesa. A Universidade de Macau tem demonstrado forte interesse em aprofundar os laços com instituições brasileiras, promovendo intercâmbios académicos, projetos conjuntos e parcerias estratégicas. Há, portanto, uma oportunidade promissora para ampliar essa cooperação, especialmente no contexto da internacionalização do ensino superior e da integração de Macau na Área da Grande Baía. O fortalecimento desses vínculos pode contribuir para uma maior inserção do Brasil em redes académicas na Ásia e para o desenvolvimento de projetos inovadores no âmbito da Lusofonia.