Um casal, com 20 anos a dois, cheio de amor – sentido e vivido – vai a uma passagem de moda. Entra em palco uma modelo estonteante. Impressionado, ele vira-se para a mulher, a quem, mais do que apenas fiel, foi sempre dedicado – e feliz. “Linda!” Divórcio; imperdoável: “Como podes admirar outra beldade?”. Serve esta parábola para mostrar que o ridículo não tem limites. Transpondo: um funcionário púbico, num jantar entre amigos; solta um desabafo: “Aquela malta no serviço está cada vez paralisada”. Há um bufo na mesa ao lado… no dia seguinte está despedido. Ou pior… se tiver dito sabe-se lá o quê; quem avalia, e com critérios.
Chegámos aqui. André Cheong, jurista reputado, governante bilingue, deixa o aviso à porta do Conselho Executivo: o que escrevem nas redes sociais, ou dizem no café, pode ser tido em conta para certificar a declaração de lealdade à RAEM e à Mãe Pátria; documento que passará a ser obrigatório os funcionários públicos assinarem. Ho Iat Seng despede-se com mais esta pérola de uma governação com alto grau de autonomia – insiste o poder político – sob instruções da Mãe Pátria; desculpa que agora serve para tudo. A culpa não é dele; tornou-se apenas em mais um alto dignatário de uma obsessão que não se percebe, não faz sentido, nada garante e nada impede; antes promove a angústia, o medo, e a incompetência. Zela-se pelo pensamento único. Porque não na cama? O sonho não tem de ser leal? Afinal, o subconsciente é por vezes mais decisivo que o consciente. O ouro está no silêncio, na paralisia. Mais vale cumprir ordens – se, e quando as dão – do que ter ideias, querer fazer mais, melhor e diferente.
A China é um grande país, soberano, com tutela constitucional legítima sobre a autonomia de Macau. Mas há hoje uma enorme confusão sobre o que Macau representa – alma, memória, e desígnio político – bem como sobre o papel de porta para o mundo, desenhado em Pequim e propalado em Macau. O que, na verdade, serve a todos. O que se está a passar é bullying, não tem outro nome; não faz sentido em lugar algum. Pior: sinaliza o fim de uma ilusão e de uma narrativa que Macau bem precisava – e servia a China. A lealdade à Função Pública é um princípio aceite em todo o mundo – não é só aqui. Não é preciso assinar uma declaração; esse dever é implícito à função. E não é só no Estado.
Imagine-se um jornalista, neste jornal, que passa a vida a criar problemas; desrespeita a linha editorial; conspira contra a empresa, a marca, e suas chefias. Não pode cá estar; não deve sequer querer ficar; seria sensato despedi-lo. É simples; implica bom senso e critérios normais de uma relação laboral. Mas a disfunção profissional, bem como o prejuízo da imagem de quem lhe dá emprego, deve ser clara, inequívoca, seguindo normas legais vigentes. Não é censura ao pensamento no café. Há limites para tudo – ou devia haver. Isto não é Macau; não é a autonomia que a China escreveu; muito menos respeita a missão de uma cidade híbrida – porta para o mundo. Se é esta a reforma da Função Pública, estamos entendidos.
Já hoje, na Função Pública, nota-se esse encolhimento. Fazem o que lhes mandam, no formato que lhes dizem. Nada se discute; não se pode pensar, porque pode correr mal. Agora exigem-lhes um compromisso formal, contudo abstrato, sobre tudo o que pensam, e dizem; onde quer que seja, incluindo na vida privada. Sem que sequer se perceba o que podem – ou não – fazer, dizer; ou pensar. Se querem uma sociedade moderna e eficiente, vão pelo mau caminho. Se não querem, mais vale calarem a narrativa de uma sociedade livre, moderna e criativa. Não vá ser prova de falta de amor.
*Diretor-Geral do PLATAFORMA