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Anti-progresso

Guilherme Rego*

Os fenómenos climáticos extremos quintuplicaram em 50 anos. Sendo uma cidade costeira, Macau tem trabalhado num plano urbano que condicione o impacto destes eventos. Porém, parece assumir que pouco pode fazer para os evitar; um mindset perigoso.

O progresso da cidade prioriza uma diversificação económica alicerçada na urbanização, com mais aterros, mais edificações que não contemplam equilíbrios com a sustentabilidade. Basta olhar para os projetos mais ambiciosos em Macau e percebe-se que são pouco híbridos, desvalorizando um ecossistema que a própria população pede. Não querendo reduzir o esforço das autoridades a um exemplo, vivemos numa cidade altamente desenvolvida que não recicla, tarda em arranjar condições para processar o lixo que produz; chama Ilha Ecológica a um repositório de lixo…

Na última edição da Macau Business foi assinalado o que o futuro nos reserva. Os fenómenos climáticos extremos vão ser cada vez mais frequentes em Macau, e mais graves. É destacada a incapacidade de Macau de mudar essa paradigma por si só; a cidade não é das mais poluídoras na Grande Baía, nem no mundo, mas certamente contribui. Ignorar esse seu papel só piora as consequências a médio e longo prazo. É mencionado na Macau Business, por exemplo, que o excesso de urbanização está diretamente ligado ao registo de temperaturas altas e dificuldades acrescidas durante as cheias. Macau não pode ficar refém da sua própria condição. Há a necessidade de crescer e expandir para termos uma economia resiliente e de futuro, mas tem de ser consensual com as necessidades ecológicas. Porque o futuro também depende dessa preparação. Não basta obras no Porto Interior para controlar o impacto das cheias, entre outros projetos que não mudam o curso atual. São os tais pensos rápidos, que urgem revisões constantes.

Há a necessidade de crescer e expandir para termos uma economia resiliente e de futuro, mas tem de ser consensual com as necessidades ecológicas

Queremos uma economia robusta para que a qualidade de vida seja melhor. Mas vários estudos provam que estes fenómenos causam danos imensuráveis à vida da população, e à economia. Em julho de 2021, as cheias na Alemanha, Luxemburgo e Países Baixos causaram perdas estimadas em 43 mil milhões de dólares americanos e aproximadamente 200 vidas. No Sudão, mais de 700 mil pessoas foram deslocadas devido às maiores tempestades desde 1962. Em Henan, na China, as cheias deslocaram mais de 250 mil pessoas e houve disrupções no transporte de carvão e na produção industrial. Segundo a Organização Metereológica Mundial, na década de 70 os eventos climáticos adversos causaram perdas de cerca de 200 mil milhões de dólares para a economia mundial. Entre 2010 e 2019, ultrapassaram os 1.3 biliões de dólares, ou seja, mais do que quintuplicaram – comprovando que há uma relação bastante proporcional entre o número de fenómenos e as perdas económicas.

O progresso também precisa de contemplar aquilo que é a localização geográfica e os perigos que os fenómenos climáticos extremos comportam. Não se pode ter uma visão linear da diversificação económica; tem de ser sistémica, sob pena de cairmos no anti-progresso.

*Diretor-Executivo do PLATAFORMA

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Meio de comunicação social generalista, com foco na relação entre os Países de Língua Portuguesa e a China

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