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“A maioria acha irrelevante a língua portuguesa”

A plataforma “serve as relações estado a estado”, mas não “o cidadão comum”, que não valoriza o bilinguismo. Tudo piora com “a diminuição dos falantes do português como língua materna”, e a “catarse colonial”. Miguel Senna Fernandes, presidente da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, só vê uma solução: “Se o Governo quer mesmo apostar, e pode fazê-lo, tem de investir na vontade, na coragem política (...) não é decretar, mas é quase isso”. Afinal, “é o que a China pretende”

Paulo Rego

– Quais são as principais razões da perda constante do bilinguismo?

Miguel Senna Fernandes – Para já, há muitas concepções erradas sobre bilinguismo. Não sei qual seria a certa, e não estou a dizer que a minha visão é a mais correta; mas não me parece que seja o simples uso de duas línguas, de forma indiscriminada. Basta haver a presença de uma outra língua não chinesa e já dizem que é bilinguismo. “Ensina-se português nas escolas chinesas, o que é normal; mas mal, e não interessa. Formalmente, está no currículo, e já há bilinguismo? São concepções que podem ser válidas, mas dá-me a impressão que não é isso que se pretende. Estamos muito acanhados nesse desejo do bilinguismo.

– Onde deve ser posto o foco?

M.S.F – Para já, na atitude, que tem de ser frontal. A RAEM tem de ter a coragem de assumir outras consequências; não é só introduzir a língua nas escolas.

Uma pessoa não aprende português decorando todas as palavras do dicionário, sendo exímio leitor da gramática; isso não é aprender. É preciso, efetivamente, comunicar em português; na sua versão formal – e
informal

– Mas esse não é um bom passo?

M.S.F – Sim; mas não é assim. Uma língua só é língua quando é utilizada fora dos manuais, fora da escola; quando se assume como meio de comunicação, com a potencialidade de ligar as pessoas. O bilinguismo – falo por referência ao português, para além do chinês – tem de ser tratado de forma a que se adotem estratégias que nem sempre são fáceis. Não se pode, por exemplo, deixar de introduzir o português em determinados setores da sociedade. Já não digo todos, mas pelo menos naqueles em que o seu uso seja importante.

– Função Pública, tribunais, ensino?

M.S.F – Exatamente; principalmente esses, que têm uma administração mais oficial. Não falo do Homem da rua, do mercado, do motorista. É evidente que não lhes vai servir. Falo de lugares onde, na prática, e por natureza, se impõe a possibilidade de outra língua. Nos tribunais é evidente, porque o Direito é de matriz portuguesa, e continua bastante vivo. Há aí uma necessidade quase sem precedentes de se entender o português para efeitos da interpretação. Mas há outros, como os serviços, em que é caricato não se saber a língua portuguesa; por exemplo, nos Serviços de Educação. Muitas vezes vejo-me absolutamente à nora, porque recebo as coisas em chinês, que não domino. Sou o destinatário, mas não domino a comunicação; quando se sabe que há outra língua oficial. Há sempre aquele argumento de que têm obrigação de utilizar apenas uma das línguas oficiais. É verdade, mas há outras formas de encarar isto; ou então é apenas um proforma. Notifiquei, e pronto; não se quer saber se o destinatário percebeu – ou não.

– 25 anos depois de se assumir politicamente o bilinguismo, como explica este abandono?

M.S.F – Perdeu-se muita coisa. As pessoas dizem, tenho que aprender português; as autoridades dizem, devemos fomentar o ensino em língua portuguesa. É tudo muito bonito, só que se esquecem do essencial, porque não é só a língua. Uma pessoa não aprende português decorando todas as palavras do dicionário, sendo exímio leitor da gramática; isso não é aprender. É preciso, efetivamente, comunicar em português; na sua versão formal – e informal. Isto é; falar, fazer uso da língua, torná-la num veículo útil para que uma mensagem chegue à outra parte. Isso implica o conhecimento mínimo da cultura subjacente à língua; não é decorar gramáticas, dicionários, formas de tratamento… Os alunos, coitados, lá têm de, não digo compreender, mas decorar uma coisa difícil para eles. Esbarra-se nesta realidade; e perguntam, o que isso tem a ver comigo? O que chama à colação para algo imaterial, que é a cultura que subjaz à língua. Não quero ser injusto, e não é uma descoberta minha. Há pessoas preocupadas, as autoridades querem, vão à procura, utilizam exemplos, constroem contextos, vão buscar a cultura portuguesa. Mas há outras coisas que ajudam a piorar a situação; por exemplo, a diminuição da comunidade portuguesa, do falante do português como língua materna.

– Vinga a ideia de que não vale a pena uma língua que não é usada nos serviços, no comércio, no patronato, no poder?

M.S.F – Claro! Até dá a impressão de que existe um complexo; se calhar, derivado da História. Se estamos na China, porque é que tenho de utilizar o português? Compreendo; não vou criticar.

– Que mensagem pode contrariar essa perceção?

M.S.F – Se continuarmos a ter complexos, se estamos presos ao passado, nunca sairemos disto.

Se o português, para determinados setores de opinião, é a expressão do colonialismo, estamos mal. É
melhor esquecermos essa coisa

– Há uma catarse colonial?

M.S.F – Chamemos catarse colonial; o que quiser; e é uma situação semelhante à da Lusofonia. Há vozes absolutamente violentas contra essa noção; dizem que é resquício do colonialismo; Portugal a querer impor-se. Se formos por aí, não se faz mais nada. Recomendo até a esses países, a essas pessoas, que deixem de falar português; porque, cada vez que o fazem, estão a carregar a vergonha na boca. Isto é muito complicado! É melhor deixarmos esses complexos; senão, estamos sempre mal. O Japão cometeu calamidades durante a Segunda Guerra Mundial; foi o país derrotado, submetido à opinião pública dos vencedores. Por acaso ficou para trás a lamentar-se, a viver das desculpas que quer pedir aos países que invadiu? Não! Têm absoluta consciência do passado, mas querem construir uma coisa melhor. A Alemanha a mesma coisa… e o resultado é que são economias fortíssimas. A História é feita de coisas boas e más; algumas mesmo horrendas. Nas línguas é a mesma coisa; se o português, para determinados setores de opinião, é a expressão do colonialismo, estamos mal. É melhor esquecermos essa coisa.

– Ainda é possível recuperar o bilinguismo como fator identitário; com vantagens económicas, sociais e políticas? Ou isso já está perdido?

M.S.F – Claro que é, tudo é sempre possível! Creio que o próprio Governo da RAEM quer isso; caso contrário não faria sentido, para já, a plataforma; onde a língua portuguesa é o veículo, o eixo de ligação entre todos esses países. Sem nunca esquecer as comunidades portuguesa e macaense. As autoridades de RAEM separam muito bem as coisas; uns são portugueses, outros macaenses; com o significado que todos nós conhecemos. Isso, implicitamente, reconhece a importância do bilinguismo enquanto expressão dessas comunidades; mas não chega. É necessário que esta mensagem atinja outro tipo de camadas. Estão a fazer esse trabalho? Claro que estão, até mais do que antigamente; mas há um caminho ainda longo.

– A comunidade chinesa menospreza o bilinguismo e a plataforma?

M.S.F – Se não vê a sua utilidade; se não está no seu dia a dia falar português como ponte para atingir determinadas metas, não se apercebe da sua importância. Não digo que despreze, mas a maioria acha irrelevante.

A plataforma serve as relações estado a estado. Tudo bem; parece-me que aí até há resultados. Mas as comunidades não beneficiam disso

– Os serviços públicos deixam cair o bilinguismo por não sentirem esse apelo da população?

M.S.F – Exato. Para que a língua portuguesa possa atingir melhores resultados, é preciso voltar a investir nesse contexto cultural. Não estou a dizer que é fácil – não é, e leva tempo.

– A plataforma não pode trazer empregos e negócios?

M.S.F – Neste momento, a plataforma serve as relações estado a estado. Tudo bem; parece-me que aí até há resultados. Mas as comunidades não beneficiam disso; ao meu nível, ao seu – como cidadãos normais – a plataforma não consegue dar resposta. As pessoas dizem-me; vocês falam da plataforma, e eu só vejo as lojas fecharem. A essa visão pragmática, do dia a dia, a plataforma não vai responder; é uma coisa longínqua, que só acontece entre estados. Se calhar há alguns empresários com dimensão para discutir isso e fazer a diferença; coisa que o Homem comum não tem; não é para o merceeiro. Infelizmente, há uma camada que olha para a plataforma como uma coisa irrelevante, que não o vai beneficiar. Infelizmente, boa parte dessas pessoas não sentem a plataforma.

– Perde-se a perceção da utilidade?

M.S.F – Não é que não haja a perceção; porque há. É mais a ideia da irrelevância da plataforma.

– Qual então a solução? Imposição oficial?

M.S.F – As autoridades têm que, simplesmente, decretar e agir. Muitas vezes acredita-se que as culturas devem crescer espontaneamente; mas isso é para outros contextos. Em Macau, as culturas não chinesas têm de ser protegidas. Não diria por decreto; não se protege por decreto; mas é quase isso. Há que impor uma determinada vontade política; fez-se, e é mesmo para fazer. Agora, nas escolas, todos querem ensinar português; mas é por um desidrato que vem do poder; não é uma coisa espontânea, não sentem essa necessidade. Ninguém está a criticar, estamos apenas a constatar esta realidade. Portanto, se o Governo quer mesmo apostar, e pode fazê-lo, tem de investir na vontade, na coragem política… e afastar determinados velhos do Restelo. Aqui não há o Restelo, mas há o seu correspondente. Há que afastar isso e impor o bilinguismo. É o que a China pretende; estou convencido que não é uma coisa superficial; os chineses não querem coisas superficiais.

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